Repost: Meritocracia

Repost do período eleitoral, mas sobre um assunto que sempre vai e vem.

Meritocracia (15 de Outubro de 2014)

Trabalho desde os 13 anos. No primeiro ano do colegial, fui forçado a estudar à noite em uma escola particular da periferia que era uma bela porcaria. Pra ter alguma chance de entrar na Universidade Pública (um sonho), topei repetir o primeiro colegial para poder estudar numa escola pública de melhor qualidade no centro. Para isso, passei em um concurso de seleção bastante concorrido, para o qual estudava horas e horas por dia enquanto trabalhava numa loja. Voltei a estudar de manhã, mas continuei trabalhando em uma empresa de web design.

Com um bocado de esforço, no terceiro colegial equilibrei todos os pratos ao mesmo tempo: Trabalhava, estudava no colégio e fazia cursinho. Deu certo, passei na USP pela primeira vez. Somadas as dificuldades geográficas da Cidade Universitária, com meu desencanto com o curso, desisti e resolvi prestar vestibular mais uma vez. Passei em Direito na USP e em um concurso da Caixa Econômica Federal.

Continuei trabalhando e estudando, tanto para a faculdade quanto para um concurso público melhor. Fui aprovado no Tribunal de Justiça de São Paulo e, mais tarde, no Tribunal Regional do Trabalho (onde estou até hoje e pretendo, até segunda ordem, me aposentar daqui a muitos e muitos anos). Comparado com a média brasileira, acho que eu sou um bom exemplo de um cara que, por mérito próprio, conseguiu encontrar seu lugar na sombra.

Pois é… mas durante metade do trajeto (no Colégio público, na Caixa, no Tribunal de Justiça, Nas duas faculdades que fiz na USP e agora no TRT) encontrei pessoas que não precisaram se esforçar tanto quanto eu me esforcei para estar onde estão. Alguns, inclusive, acho que não mereciam nada estar ali. E, MUITO PIOR que isso. Na outra metade (nos cursinhos, nas bibliotecas em que fiquei estudando, nas salas de provas), sempre estive cercado de pessoas brilhantes, que se esforçaram muito mais que eu, MUITO MAIS que as pessoas que estudaram/trabalharam comigo, mas que não conseguiram atingir os mesmos objetivos. Porque mesmo tendo que trabalhar, eu sempre fui um privilegiado.

Ter trabalhado foi mais uma questão cultural do que necessidade. Objetivamente, nunca me faltou nada e sempre que precisei de apoio financeiro para complementar meus estudos com cursos, boa alimentação, lazer e todas as outras coisas que também são decisivas no sucesso desse tipo de desafio, meus pais sempre estiveram lá pra me ajudar. Pra grande maioria das pessoas isso não existiu, e isso é prova de que não tive mais mérito que ninguém.

Não existe mérito numa sociedade desigual. Não existe efetiva igualdade numa sociedade capitalista. E como acho o capitalismo irreversível, o jeito é lutar para diminuir a desigualdade tanto quanto possível. Se esconder atrás da meritocracia é um argumento mesquinho de quem se descolou completamente da realidade da vida.

Exposição: A pedra da lua
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Centro de Cultura Judaica
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Vale do Anhangabaú
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Centro Velho
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