Quanto vale uma estória?

A gente pode conseguir o que quer de diversas formas. Eu, por exemplo, um dia quis ganhar uma cartela de bingo. Não, não o bingo, o prêmio do bingo, mas uma pitoresca cartela de bingo que encontrei numa viagem a uma ilha Venezuelana chamada Los Roques. Das muitas formas possíveis, acabei escolhendo a mais difícil e, ao mesmo tempo, mais prazerosa.

Nessa ilha, de pouco mais de 1.000 habitantes, todo fim de tarde as mulheres se reúnem na porta de suas casas para jogar bingo. Como boa parte da população é analfabeta, a cartela não tem letras ou números, mas desenhos que martelaram meu desejo de viajante durante toda minha estadia no lugar. Era uma cena sinestésica: O calor de fim de tarde, a beleza azul da ilha, o cheiro de maresia e o som dos pássaros de entardecer, que era cortado ritmicamente pela voz de “Dona Perfecta”: “Helado. He-la-do”, “Pelota. Pe-lo-ta”.

Dona Perfecta, além de minha anfitriã, era a responsável por cantar as bolas do bingo, todas as tardes do ano. Enquanto todas as vizinhas ficavam na porta de suas casas, com o ouvido atento na voz que ecoava a quarteirões de distância, ela empostava a voz fina para fazer chegar a todo canto da ilha a bola da vez.  Quis muito aquela cartela como um souvenir de viagem, uma recordação daquele lugar que fugisse da óbvia beleza da praia. Los Roques é igualmente linda pelas pessoas, e eu precisava feitichizar isso levando uma cartela comigo.

Mas Dona Perfeita não quis me dar a cartela. Disse que eram antigas, mais de 30 anos, e que algumas já tinham desaparecido por gatunisse de alguns turistas. Compreensível: A caixa com todas as cartelas ficava na sala, longe de qualquer “Câmera de segurança”. A solução seria muito fácil, até pra mim. Óbvio que não segui esse truque sujo. Mas segui desejando a cartela.

Um pescador alemão que estava hospedado na mesma casa, cartesiano e brilhante, trouxe a resposta mais óbvia: Compre. Ofereça dinheiro e ela não vai recusar. Uma noite de hospedagem aqui custa R$ 50,00. Ofereça a ela esse dinheiro, e com certeza para ela estará de bom tamanho, e pra você não vai fazer falta.

Parecia inteligente. Mas não era o que eu queria, lembrar que comprei um objeto de carinho das pessoas com dinheiro. Queria que ele viesse pra minha mão também por carinho. E todos os dias ficava horas com cara de pidão, elogiando a comida (que era fantástica mesmo) de Dona Perfecta e sua hospitalidade, dizendo que pra ela ser mesmo perfeita só faltava ser generosa. Lavei umas louças de surpresa, até.

No último dia de viagem, Dona Perfeita me presenteou com a Cartela. Hoje, guardo ela com carinho no meio da minha sala. Gosto de contar essa história, de um jeito que não gostaria se tivesse furtado ou comprado. Simplesmente não teria amor. E acho que muito das nossas conquistas na vida tem a ver com essa cartela: Há muitas formas de se conseguir o que queremos. Quais delas nos trarão orgulho?

Visto do alto, parece uma bandeira!
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Um Flash Mob de pássaros
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Entre trilhas e lamaçais, guiado pelo meu amigo alemão, encontrei essa vista fantástica.
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No entardecer, as pessoas se exercitam na praia da Ilha Principal
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Minhas definições de paraíso foram atualizadas...
Minhas definições de paraíso foram atualizadas…
Talvez essa seja minha foto predileta até hoje...
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