Diários de Bicicleta, Parte 2

Aprender a andar de bicicleta não é algo que você faz da noite pro dia. A cada vez que subo na magrela, sinto como se algo novo estivesse acontecendo. Mais equilíbrio, “ousadia & alegria”… Enfim, não faço nada de novo, é tudo uma questão de confiança. E se um dos objetivos do projeto era justamente conseguir aproveitar de um modo novo as minhas viagens, esse passeio chileno tem sido bastante sintomático da evolução. No meu último dia de Deserto, resolvi alugar novamente uma bicicleta e me mandar pra uma famosa trilha que existe perto de São Pedro. O caminho liga o vilarejo a dois pontos turísticos interessantes: Pukara de Quitor e a fantástica Garganta do Diabo.

Havia, porém, um “porém”. Alguns amigos um pouco mais experientes já tinham me dito que não conseguiram encontrar o capiroto, já que a sinalização trilhas é um tanto precária e nunca se sabe muito bem se o lugar está pra frente ou para trás. Mas a sensação de pedalar sozinho no meio do deserto (trepidando nas pedras, se molhando nas poças d’água do “Rio” que corta a região, entalando nos bancos de areia) foi a de um desafio pessoal sem tamanho. E, aos poucos, o medo ia cedendo espaço à confiança e, finalmente, ao prazer do vento no rosto, refrescando o calor intenso.

Errei o caminho algumas vezes; voltei ao sul, conheci um cardiologista mineiro que viajava no meio de um processo de reformulação da sua vida; vi ele ser sacaneado por alguma criança chilena e ter que voltar à pé pro pueblo; voltei a pedalar ao norte e, finalmente, lá estava eu no meio das pedras. Chegar à Garganta (ou Quebrada del Diablo) foi como um prêmio especial a todo esse processo de aprendizado, no Chile e, principalmente, no Brasil. Conhecida a “quebrada”, voltei ao sul como uma criança que se descobre superpoderosa. Acelerava, balançava a bicicleta, passava nas depressões com uma coragem nova e até imprudente. Me senti tão autoconfiante que parecia um veterano do pedal.

Aí eu caí.

Não consegui entender porque caí, mas foi o maior tombo que lembro de ter tomado na vida. Passei um tempo culpando a mim mesmo, depois a bicicleta, as pedras, o vento… Agora acho que não adianta buscar culpados, simplesmente me resignei. Cair nunca é bom, apesar dos conselhos hipócritas dizerem justo o contrário. Cair é fácil, dói, machuca, e é sempre melhor nunca ter caído. Especialmente quando se cai assim: De uma forma repentina, inesperada, sem conseguir entender o que você deveria ter feito de diferente para não ter caído. Levantar é difícil, mas é isso que realmente vale a pena.

Levantar não faz parar de doer. Até agora minha perna ainda tá doendo e eu não sei direito quando vai parar. Talvez nunca pare, como outras dores que sinto: O joelho operado depois de um jogo de futebol, o nariz que ainda sangra de vez em quando por conta de uma queda de infância. Mas levantar nos permite andar outra vez, voltar a pedalar. E me sinto confiante o suficiente pra dizer que levantei bem, confiante, e seguro de que posso pedalar mais. Aprendi que o corpo quente dói muito menos, e não é caindo que aprendemos, mas sim levantando e pedalando até a próxima queda. Sonhando, e se preparando, pra que ela nunca exista.

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Onde comi (e gostei) no Atacama

Tomei café da manhã por duas vezes no Roots Café (que também se chama Marley Café). Além da trilha sonora (Às vezes Jazz, às vezes new age, às vezes Raul Seixas), a comida também é interessante. Eles dizem ter o melhor café do Atacama (o que inclusive é a senha do Wi-Fi “elmejorcafe”), o que até onde eu consegui experimentar, é verdade.

Adobe: Talvez o mais “frequinho” dos restaurantes do Atacama. Uma fogueira no centro chama a atenção e protege do frio. A comida faz jus ao preço paulistano. Comi um peito de frango bem razoável e um “Camarão equatoriano a pil pil” fenomenal (eles te perguntam qual o ponto de picância que você quer. Fui de médio).

Delícias de Carmen (ou delícias de mercedes, como teimei em guardar): Recomendaram que eu comesse a Cazuela deles. Mas nas duas vezes que fui, havia acabado. Fiquei coma empanada (também recomendação) e fui feliz. A cerveja, como em praticamente todos os lugares que tomei no Atacama, é servida sem muita preocupação com o a temperatura.

Tierra Todo Natural: Tomei café da manhã um dia aqui. A lógica do restaurante é fiel ao nome: pães integrais, sucos de fruta gostosos, pratos saudáveis em geral.

Babalu Sorvetes: Uma sorveteria próxima ao Space Obs. Ali existem sabores “indígenas”, desde o clichê “Folha de Coca” até algumas (muitas) plantas e raízes locais. Vale experimentar.

La Plaza: Também me recomendaram a Cazuela deles, e também não tinha quando eu fui (tá osso). Mas tomei a sopa de tomate com umas Encilladas. Valeu a pena!

Blanco: Comi um salmão nesse lugar, com pêras e um molho meio adocicado. Bela pedida. O ambiente (os ambientes) é meio chiquetoso.