Saindo do Cartoon

(Passeio 2, Parte 1, Tatio)

Geiser, pra mim, sempre foi algo de cartoon. Aquele monte de água que explode do chão de um jeito aleatório e põe pros ares os vilões do Pica-Pau. Era como a neve, as meias de natal ou o açúcar em cubos: esse monte de coisa que eu sempre achei que não existisse, que fosse criação de algum roteirista engraçado da Warner Brothers. O que é que há, velhinho?

Aí, ano passado, um amigo viajou para um país nórdico para ver, entre outras coisas, Geiseres. Fiquei cheio de curiosidade, tentando imaginar se tudo era tão caótico quanto nos desenhos animados. Se, de repente, você tá andando numa das ruas da Islândia e ele explode, como acontece normalmente com os bueiros aqui no Brasil.

Curiosidade matada. Em Atacama existe uma das maiores concentrações de geisers do mundo (na verdade, esse é o nome de uma das muitas formas desse fenômeno molhado), e saem tours diários de diversas operadoras para o meio do deserto, ver as águas rolarem.

Se não sofri com a aleatoriedade, sofri com o frio de -8ºC e o incômodo horário de acordar (4 da manhã). Mas o passeio valei a pena, especialmente pelo horário corujão. Chegar antes da horda de turistas é importante pra conseguir ver o fenômeno de verdade.

Nosso grupo, pequeno, tinha cerca de 8 pessoas, praticamente todos fotógrafos, o que gerou toda uma cumplicidade nas chatices do hobby: Sai da frente, espera um pouco, aguarda lá no carro que eu já vou…

Enfim, eis as fotos:

passeio 2 10 passeio 2 9 passeio 2 8 passeio 2 7

Há piscinas termais e todos elogiaram bastante a temperatura da água...
Há piscinas termais e todos elogiaram bastante a temperatura da água…

passeio 2 1

As companhias oferecem um café da manhã simples mas muito bem vindo durante o passeio.
As companhias oferecem um café da manhã simples mas muito bem vindo durante o passeio.
Chocolate quente: Um mimo essencial.
Chocolate quente: Um mimo essencial.
O sol nascendo no campo Tatio
O sol nascendo no campo Tatio

passeio 2 5

Praia ou montanha? Os dois.

À exceção de alguns poucos programas no “pueblo”, meu turismo aqui em São Pedro (e o da maioria das pessoas) é centrado nos passeios oferecidos pelas dezenas de agências locais. Essencialmente, são tours guiados pelo deserto, mostrando a variedade absurda de paisagens que o lugar tem. Vou tentar, conforme for fazendo os passeios, traduzir um pouco nas imagens essa diversidade. O pacote com meia dúzia de tours (que você precisa de cerca de 5 dias pra fazer) custa U$ 300,00, aproximadamente.

O primeiro passeio que me aventurei foi à Laguna Cejar, e suas águas imensamente salgadas que teoricamente te impedem de afundar. A coisa mais espetacular da laguna é nadar tendo ao fundo as montanhas e vulcões, aproveitando para se esquivar da chuva de “pau de selfie” das pessoas ao seu lado. Tem um quê de farofa no ar, mas se você consegue chegar antes da hora de turistas (e eles sempre chegam juntos, na mesma hora) as paisagens são realmente impressionantes.

De lá para os Olhos do Salar, dois círculos idênticos (que ninguém explica direito a origem) no meio do deserto, cheios de água doce, bastante convidativos a um mergulho.

Por fim, o pôr do sol na Lagoa Tebinquinche, no qual as agências organizam uma espécie de “cocktail party” com pisco sour industrializado e alguns frios. A lagoa é repleta de pequenas trilhas que impedem o acesso dos visitantes às áreas de preservação, convidativas a um passeio romântico de fim de tarde.

Uma dica interessante: Não sei julgar outros quesitos, pois não foi a companhia que escolhi, mas a agência Grado Diez tem um caminhão bem interessante em que é possível subir no teto para ver o por do sol lá de cima. É uma vantagem competitiva pra quem gosta de se divertir com fotos.

Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Olhos do Salar
Olhos do Salar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche

Diários de bicicleta

A bem da verdade, fotografar com o celular não é a única reinvenção dessa viagem. A outra, porém, foi bastante programada. Como 2014 foi o ano que aprendi a andar de bicicleta, decidi que iria tentar experimentar algumas aventuras sobre rodas nessa primeira viagem. Por enquanto, tem sido melhor do que todo o esperado.

Como eu havia sonhado quando decidi aprender a andar, estar sobre rodas me abre algumas novas possibilidades. E em Atacama tem sido assim, podendo visitar lugares que são perto demais para um “tour guiado”, mas longe demais para ir a pé.

Hoje me enfiei numa auto-estrada e em algumas vias de terra batida, tentando ver com mais calma alguns pontos por onde o ônibus tinha passado na noite anterior. A paisagem lunar da estrada que liga Calama a São Pedro encanta pelas belezas e pelos detalhes. Ao longo da via, gigantescos reatores eólicos e milhares de postes com captação solar, as energias mais que abundantes no deserto chileno.

Entre uns e outros, algumas dezenas de memoriais às vítimas de acidentes de trânsito. Porém, ao contrário da sobriedade daqueles que vemos no Brasil, aqui os jazigos de alerta são bastante coloridos e invariavelmente acompanhados de uma bandeira chilena. Em alguns casos, descansa ali também o carro que levou o defunto embora.

Na entrada de São Pedro, uma quadra de tênis  de terra batida, construída de improviso como são de improviso nossos campos de futebol. Fiquei me perguntando se eles também faziam bola de meia pra jogar tênis. Andar de bicicleta me faz rir até das piadas sem graça que eu mesmo invento.

15x21_3 3 (1)

15x21_3 4
No alto do morro, uma homenagem a João Paulo II
15x21_3 8
Carabineiros – Siempre un amigo

15x21_3 5  15x21_3 1 15x21_3 7 15x21_3 6

Quem não tem cão caça com Lhama

Ao que me parece, essa viagem será mais uma etapa do processo de reinvenção . Estava totalmente preparado para esta viagem: Comprei um tripé novo, um cartão de memória especial, mandei limpar as lentes e arranjei um disparador remoto. Tudo pra poder tirar as melhores fotos dos pores de sol e estrelas do Atacama. Infelizmente não vai ser dessa vez…

Mas estou encarando a toupeirice de ter esquecido o carregador muito mais pelo lado cômico da coisa que pelo trágico. É uma chance de reinventar meu processo de tirar fotos. Agora muito mais informal, menos técnico, com uma câmera simples de celular. Realmente gosto de guardar retratos, colecionar figurinhas dos lugares que vou e, no final, quem não tem cão caça com lhama.

Acho que no fundo isso tem tudo a ver com o que tá rolando, certo? Ter decidido parar no Atacama também foi um processo de reinvenção. Eu, menino amarelo de apartamento, nunca fui lá muito adepto de turismo natural. Encarar algo com menos “valor agregado” e mais “in natura” é uma descoberta curiosa.

Encare-se, pois. Se as fotos não serão tão boas, pelo menos a experiência será integralmente nova. E a desculpa para voltar ao deserto já existe: dessa vez, com o carregador.

Já estou abanando o rabo no Chile

Os donos de gato vão ter de me desculpar, mas o que me encanta mesmo é quem sabe abanar o rabo. Tem, inclusive, aquela piada gostosa do diário do gato e do cachorro ( https://o505.files.wordpress.com/2013/03/diarios.jpg?w=593 ) que, pra mim, é uma espécie de argumento definitivo na discussão eterna: Nada melhor que alguém que sabe ser reiteradamente apaixonado. Gosto nos outros, gosto em mim mesmo.

Hoje, no avião, mergulhado em 4 horas de vôo sem nenhum tipo de filminho (companhias low cost, um dos segredos pra viajar mais), acabei puxando papo com uma guria ao lado de quem sentei. Era a primeira vez que ela batia asas pra fora das fronteiras de Pindorama e eu acabei me perdendo nas conversas sobre como viajar é um negócio sensacional. Uma coisa puxa a outra, acabei falando sobre fotografia, sobre pessoas e, por algum motivo, falei sobre carnaval também. A esta altura ela, provavelmente já não me aturando mais, disparou um: Espera, a paixão da sua vida é viajar, fotografar, conversar com as pessoas ou o carnaval? Tô confusa. Eu não tinha percebido, mas usei a mesma frase todas as vezes: X é a paixão da minha vida.

O que pode parecer uma falsidade, na verdade é um excesso de sinceridade. Noves fora, sou como que um cachorro. E ninguém duvida da sinceridade de um rabo que abana quando vai buscar um graveto, ou uma bola, ou quando rola na grama, ou quando corre atrás do carro… no fundo, tudo é sua brincadeira predileta, como ele disse no diário. E acho que isso faz o cachorro (e a mim) muito mais feliz.

Me incomoda um pouco os obcecados, aqueles que abanam o rabo pra uma coisa só. São cansativos, monótonos, mesmo que eu também abane o rabo pra mesma coisa. Mas pior que eles, só quem nunca abana o rabo pra nada. Essa vida desinteressada, que torna as pessoas tão desinteressantes. Por outro lado, ter muitas paixões da sua vida, faz crescer mais vidas pras suas paixões. E é por isso que eu estou aqui, ouvindo o Cd de Sambas de Enredo 2015, lendo os livros que meus amigos me indicaram e com a câmera a postos para tentar fazer meu próprio ponto de vista de um lugar novo a conhecer.

Já estou abanando o rabo no Chile. Todos os líquidos estão devidamente acondicionados em embalagens transparentes de menos de 100ml e não há nenhuma tesoura ou objeto cortante em minha mala de mão.

 

15x21_3 3 15x21_3 2 15x21_3 4 15x21_3 2 (1) 15x21_3 3 (1) 15x21_3 1 (1)

Repost: A lembrança de nossos erros

 

Monumento às burradas, babaquices e outras merdas. Nossos monstros de estimação. (30.10.2014)

Tenho pra mim que é muito importante a gente lembrar das merdas que fez na vida. E são tantas. Uma decisão tomada sem pensar; uma pessoa querida que a gente magoou; uma desistência precoce ou uma insistência insana… A gente tá sempre dando mancada com os outros e com a gente mesmo. Errar é natural e faz parte do processo. O que não se pode é jogar os erros pra debaixo do tapete. Os relatos de derrota têm que ter um lugar de destaque, na penteadeira, bem ao lado das fotografias de momentos felizes.

Não se trata de um raciocínio auto-destrutivo, mas um exercício de aprendizagem. Reler as decisões estúpidas ajuda a tomar posturas inteligentes. Conhecer as cagadas do passado é um jeito de minimizar as merdas do futuro. E isso não são palavras de auto ajuda: Sei que parece óbvio, mas acho que não é isso que a gente anda fazendo. Pelo menos não politicamente. Esses dias estava pensando coletivamente com uma amiga e acabei meio assustado com umas coisas.

Nós, tupis, guaranis, caiowás e brasileiros em geral, já temos pouco apego pelo passado. Poucos museus, poucos monumentos, pouco apego por construções históricas (que aqui e acolá vão ao chão sem grande cerimônia), poucos papos de bar sobre o que vivemos… Parece que não nos orgulhamos muito do caminho que nos trouxe até aqui. Mas muito menos viva é a memória das burrices da nossa história. Olhamos com vergonha para passagens assustadoras do nosso passado: Escravidão, Massacre Indígena, Guerra do Paraguai, Ditadura Militar, Carajás… Mas exercemos essa vergonha do jeito mais propício à repetição dos erros: tentamos esquecer.

Acho que poucos povos têm uma mancha histórica tão pesada como os Alemães. Mesmo assim, alguns campos de concentração são mantidos até hoje como ponto de visitação sádica: Veja a idiotice que o seu pai/avô fez; entenda o raciocínio equivocado guiou ele; não repita. É o sentimento que sinto falta por aqui. Não prego o ódio aos nossos antepassados, mas é importante saber que “sangue do nosso sangue” fez isso, e lembrar que somos passíveis de reforçar esses erros.

Por mim, deveríamos ter muitos memoriais em “homenagem” às vítimas de nossas barbáries. Muitas reproduções de senzalas, de paus de arara. Fazer nossas crianças chorarem um pouco por nosso passado. Não por sadismo, mas pra evitar o futuro. E também, é claro, para ficar mais fácil de mostrar que muitos desses sons do passado ainda ecoam no nosso presente.

Topografia do Terror
Topografia do Terror
Memorial do Holocausto
Memorial do Holocausto
Memorial do Holocausto
Memorial do Holocausto
Ilha dos museus
Ilha dos museus
Reichstag
Reichstag

Quanto vale uma estória?

A gente pode conseguir o que quer de diversas formas. Eu, por exemplo, um dia quis ganhar uma cartela de bingo. Não, não o bingo, o prêmio do bingo, mas uma pitoresca cartela de bingo que encontrei numa viagem a uma ilha Venezuelana chamada Los Roques. Das muitas formas possíveis, acabei escolhendo a mais difícil e, ao mesmo tempo, mais prazerosa.

Nessa ilha, de pouco mais de 1.000 habitantes, todo fim de tarde as mulheres se reúnem na porta de suas casas para jogar bingo. Como boa parte da população é analfabeta, a cartela não tem letras ou números, mas desenhos que martelaram meu desejo de viajante durante toda minha estadia no lugar. Era uma cena sinestésica: O calor de fim de tarde, a beleza azul da ilha, o cheiro de maresia e o som dos pássaros de entardecer, que era cortado ritmicamente pela voz de “Dona Perfecta”: “Helado. He-la-do”, “Pelota. Pe-lo-ta”.

Dona Perfecta, além de minha anfitriã, era a responsável por cantar as bolas do bingo, todas as tardes do ano. Enquanto todas as vizinhas ficavam na porta de suas casas, com o ouvido atento na voz que ecoava a quarteirões de distância, ela empostava a voz fina para fazer chegar a todo canto da ilha a bola da vez.  Quis muito aquela cartela como um souvenir de viagem, uma recordação daquele lugar que fugisse da óbvia beleza da praia. Los Roques é igualmente linda pelas pessoas, e eu precisava feitichizar isso levando uma cartela comigo.

Mas Dona Perfeita não quis me dar a cartela. Disse que eram antigas, mais de 30 anos, e que algumas já tinham desaparecido por gatunisse de alguns turistas. Compreensível: A caixa com todas as cartelas ficava na sala, longe de qualquer “Câmera de segurança”. A solução seria muito fácil, até pra mim. Óbvio que não segui esse truque sujo. Mas segui desejando a cartela.

Um pescador alemão que estava hospedado na mesma casa, cartesiano e brilhante, trouxe a resposta mais óbvia: Compre. Ofereça dinheiro e ela não vai recusar. Uma noite de hospedagem aqui custa R$ 50,00. Ofereça a ela esse dinheiro, e com certeza para ela estará de bom tamanho, e pra você não vai fazer falta.

Parecia inteligente. Mas não era o que eu queria, lembrar que comprei um objeto de carinho das pessoas com dinheiro. Queria que ele viesse pra minha mão também por carinho. E todos os dias ficava horas com cara de pidão, elogiando a comida (que era fantástica mesmo) de Dona Perfecta e sua hospitalidade, dizendo que pra ela ser mesmo perfeita só faltava ser generosa. Lavei umas louças de surpresa, até.

No último dia de viagem, Dona Perfeita me presenteou com a Cartela. Hoje, guardo ela com carinho no meio da minha sala. Gosto de contar essa história, de um jeito que não gostaria se tivesse furtado ou comprado. Simplesmente não teria amor. E acho que muito das nossas conquistas na vida tem a ver com essa cartela: Há muitas formas de se conseguir o que queremos. Quais delas nos trarão orgulho?

Visto do alto, parece uma bandeira!
Visto do alto, parece uma bandeira!
Um Flash Mob de pássaros
Um Flash Mob de pássaros
Entre trilhas e lamaçais, guiado pelo meu amigo alemão, encontrei essa vista fantástica.
Entre trilhas e lamaçais, guiado pelo meu amigo alemão, encontrei essa vista fantástica.
No entardecer, as pessoas se exercitam na praia da Ilha Principal
No entardecer, as pessoas se exercitam na praia da Ilha Principal
Minhas definições de paraíso foram atualizadas...
Minhas definições de paraíso foram atualizadas…
Talvez essa seja minha foto predileta até hoje...
Talvez essa seja minha foto predileta até hoje…

Repost: Meritocracia

Repost do período eleitoral, mas sobre um assunto que sempre vai e vem.

Meritocracia (15 de Outubro de 2014)

Trabalho desde os 13 anos. No primeiro ano do colegial, fui forçado a estudar à noite em uma escola particular da periferia que era uma bela porcaria. Pra ter alguma chance de entrar na Universidade Pública (um sonho), topei repetir o primeiro colegial para poder estudar numa escola pública de melhor qualidade no centro. Para isso, passei em um concurso de seleção bastante concorrido, para o qual estudava horas e horas por dia enquanto trabalhava numa loja. Voltei a estudar de manhã, mas continuei trabalhando em uma empresa de web design.

Com um bocado de esforço, no terceiro colegial equilibrei todos os pratos ao mesmo tempo: Trabalhava, estudava no colégio e fazia cursinho. Deu certo, passei na USP pela primeira vez. Somadas as dificuldades geográficas da Cidade Universitária, com meu desencanto com o curso, desisti e resolvi prestar vestibular mais uma vez. Passei em Direito na USP e em um concurso da Caixa Econômica Federal.

Continuei trabalhando e estudando, tanto para a faculdade quanto para um concurso público melhor. Fui aprovado no Tribunal de Justiça de São Paulo e, mais tarde, no Tribunal Regional do Trabalho (onde estou até hoje e pretendo, até segunda ordem, me aposentar daqui a muitos e muitos anos). Comparado com a média brasileira, acho que eu sou um bom exemplo de um cara que, por mérito próprio, conseguiu encontrar seu lugar na sombra.

Pois é… mas durante metade do trajeto (no Colégio público, na Caixa, no Tribunal de Justiça, Nas duas faculdades que fiz na USP e agora no TRT) encontrei pessoas que não precisaram se esforçar tanto quanto eu me esforcei para estar onde estão. Alguns, inclusive, acho que não mereciam nada estar ali. E, MUITO PIOR que isso. Na outra metade (nos cursinhos, nas bibliotecas em que fiquei estudando, nas salas de provas), sempre estive cercado de pessoas brilhantes, que se esforçaram muito mais que eu, MUITO MAIS que as pessoas que estudaram/trabalharam comigo, mas que não conseguiram atingir os mesmos objetivos. Porque mesmo tendo que trabalhar, eu sempre fui um privilegiado.

Ter trabalhado foi mais uma questão cultural do que necessidade. Objetivamente, nunca me faltou nada e sempre que precisei de apoio financeiro para complementar meus estudos com cursos, boa alimentação, lazer e todas as outras coisas que também são decisivas no sucesso desse tipo de desafio, meus pais sempre estiveram lá pra me ajudar. Pra grande maioria das pessoas isso não existiu, e isso é prova de que não tive mais mérito que ninguém.

Não existe mérito numa sociedade desigual. Não existe efetiva igualdade numa sociedade capitalista. E como acho o capitalismo irreversível, o jeito é lutar para diminuir a desigualdade tanto quanto possível. Se esconder atrás da meritocracia é um argumento mesquinho de quem se descolou completamente da realidade da vida.

Exposição: A pedra da lua
Exposição: A pedra da lua
Centro de Cultura Judaica
Centro de Cultura Judaica
Vale do Anhangabaú
Vale do Anhangabaú
Centro Velho
Centro Velho

Repost: Já estou melhor, Obrigada!

Mais um repost. Dessa vez da Viagem a Portugal, em setembro 2014.

Um auto-elogio (23 de Setembro de 2014)

Quando fiquei solteiro há uns meses atrás entrei numa onda auto-destrutiva (ou melhor, auto-reconstrutiva) de querer identificar meus defeitos. Tentar entender o que eu tinha de errado e trabalhar isso para uma vida mais leve e com menos complicações. Foi (está sendo) um processo lento, mas que foi abalado por uma frase confusa de uma guria: “Eu gosto dos seus defeitos. Mais do que das suas qualidades. Aliás, você tem alguma qualidade?”

A pergunta me deixou em parafuso. Principalmente quando eu comecei a querer me comparar com os outros. Afinal, como já disse aqui, sou cercado de pessoas fantásticas que, por sua vez, também se rodeiam de outros seres excepcionais. Gente que à distância parece o espelho do Antagonista do “Poema em Linha Reta”. Gente que fala 7 idiomas. Gente que fez carreira acadêmica na melhor universidade das galáxias. Gente que, ao contrário de mim, não largou mão do sonho da magistratura pra viver de samba. Gente que é um rico/renomado advogado em algum grande escritório…

Perto dos que me cercam, eu não me acho lá muito inteligente. Meus talentos com fotografia não vão além daquela mediocridade que um dia eu quis pra mim. Quando escrevo, raramente saio do lugar comum. Não sou atlético, e na verdade mal sei andar de bicicleta. Não tenho grandes dons artísticos ou culinários. Não toco nenhum instrumento… Enfim, sou a antítese das qualidades. Mas ainda assim, gosto tanto de mim que no mais das vezes só me dedico elogios (e talvez esse seja um defeito… difícil de corrigir).

Mas aí um amigo ontem me mandou uma foto desses azulejos. Disse que os viu aqui em Lisboa em 2007 e queria saber que fim teriam levado. É uma pequena arte de rua, num beco desconhecido… Tomei a brincadeira dele como um desafio. Pesquisei na internet para saber se eles tinham alguma história especial; Andei aleatoriamente pelas ruas do Chiado em busca dos tais; Conversei com todo tipo de gente, mostrando a foto e arrancando alguns dedos de prosa com cada interlocutor (turistas, comerciantes, transeuntes, mendigos, vendedores de drogas e policiais). Até que encontrei o que procurava, na chamada “Rua do Crucifixo”.

Não me encantam mais as pessoas inteligentes (ou as atléticas, as ricas, as cultas, as viajadas, as faladoras, as ponderadas) que as pessoas curiosas e as que “vão atrás”. E essa qualidade, que sempre me trouxe fascínio nos outros é que eu sei que guardo em mim. E isso já me basta pra me colocar no caminho daquilo que quero ser.

 

 

Praça do Comércio
Praça do Comércio

 

Rossio
Rossio

 

Jardim de São Pedro de Alcântara
Jardim de São Pedro de Alcântara

 

Mosteiro dos Jerônimos
Mosteiro dos Jerônimos

 

Mosteiro dos Jerônimos
Mosteiro dos Jerônimos

Macacos me mordam

Bom, como a próxima viagem é pra um lugar bem frio, resolvi contar um causo das neves.

Os Japoneses, em regra, são pessoas simpáticas, mas muito tímidas. Conversar com Alguém nas cidades maiores (e até nas médias) foi um parto imenso. Mesmo ensinadas a falar inglês desde a infância, são raros os que se dispõem a conversar com você usando a boca. Preferem mímicas, sorrisos e gestos que beiram o contido, mas no fundo são imensamente espalhafatosos. Um pedido de desculpas, por exemplo, pode mover mais de 3 mil músculos diferentes.

Mas isso acabou sendo diferente na fria cidade de Nagano (300 mil habitantes), lugar em que vi a neve pela primeira vez na vida. Fomos à cidade para ver os macacos das neves, que ficam tomando banho de água quente em uma parque da região. As fotos dos bichos falam por si: valeu a pena ter ido parar naquele buraco de mundo. Mas a minha lembrança mais bacana de Nagano tem mais a ver com os macacos mais evoluídos.

Fuçando no Foursquare na noite em que chegamos, encontrei entre os muitos Kanjis, Kataganás, Hiraganás e etc., um curioso nome em alfabeto romano: “Nagano Parceiro”, um bar que ficava do outro lado da Rua. Ficamos curiosos e corremos para entender a razão do nome do bar. Chegando lá, nenhum dos atendentes falava nada de inglês, mas não se pareciam em nada com os tímidos japoneses da capital.

Ficamos como que duas horas conversando e gargalhando frouxo sobre bundas, pandas e futebol, com a ajuda do fantástico: Google Translator. Descobrimos que o bar tem o mesmo nome do time de futebol da cidade, que foi treinado durante muito tempo por um desses jogadores que não dão muito certo no futebol nacional e saem pelo mundo pra ganhar uns trocados em países de menos tradição boleira. O cara fez tanto sucesso na cidade que acabaram trocando o nome do time local para uma palavra que ele usava bastante: “Parceiro”.

Na hora de ir embora, peguei meu casaco no cabideiro e, assim que vesti, todos perceberam o que era aquela japona: “COLINTHIANS”. Todos tiraram fotos, guardando uma recordação do Campeão do Mundo.

257841_474603039242329_1736441664_o

415514_474603129242320_1166680245_o

277595_474602949242338_1284951505_o

415960_474602872575679_1741891001_o

258375_474604005908899_1755559875_o

456296_474602565909043_1093232892_o