Vez por outra alguém me pergunta: De onde veio o Chapolim? A resposta é bastante sem sal. Nunca fui um grande fã do colorado, nem mesmo na infância. Ele não foi presente de ninguém e nem mesmo uma compra consciente. O boneco surgiu ao acaso, numa cidade que nunca visitei, preso no aeroporto em uma escala com atraso de vôo. Veio em uma espécie de Kinder Ovo mexicano, que eu aceitei resignado por não ter tirado o Che ou a Frida (meus verdadeiros objeto de desejo). Como o destino final da viagem era a terra de Amelie Poulain, adotei o garoto como avatar temporário e referência a um dos melhores trechos de um dos meus filmes favoritos (o anão de jardim viajante). O temporário ficou definitivo e hoje tenho ele como meu bem mais valioso.
Essa pergunta, “de onde veio”, me bateu outra vez lendo um texto interessante sobre a influência do lugar em que nascemos no nosso caráter. Mas, como o texto faz questão de afirmar, não nascemos onde nascemos, mas onde nasce nossa primeira reflexão sobre o que somos e queremos ser. Talvez por isso, mesmo nascido na Vila Matilde, nunca me senti nascido na Zona Leste. Mas também não nasci em Fortaleza, pra onde fui com 3 anos e passei toda a infância. Tudo o que contam de mim (e o pouco que lembro) já nem parece muito eu. Dizem que eu era espevitado, brigão, danado… e eu nunca consegui me sentir assim.
Fortaleza é uma lembrança meio nebulosa. Lugar da minha família, a quem tenho carinho mas nunca me senti muito pertencente. Não me sinto muito parecido com ninguém dali, nem mesmo com meus amigos de infância. Não me identifico com as praias, nem com o futebol de rua, nem com deslizar de barriga na laje de azulejos nos dias de chuva. Não me sinto nascido na Parquelândia, na Igreja Redonda ou em São Luiz do Curu, entre os porcos, jumentos e galinhas que circulavam livres pela cidade.
Também não nasci em Itaquera, onde fui morar quando voltei a São Paulo. A Cohab, a Praça Brasil, ou o condomínio fechado onde fomos morar depois de um tempo, nunca foram meu berço. Não vejo em mim nada daquele garoto que assustava as outras crianças fingindo ser neto de uma bruxa índia, do sertão do Ceará, o que um dia causou uma comitiva de crianças na porta do meu pai denunciar as minhas medonhas ligações com o sobrenatural.
Sinto que nasci, se é que eu já nasci, em algum lugar do Bom Retiro, ou dentro de uma composição do Metrô quando ia e vinha para o colégio em que fui estudar na adolescência. Acho que aquele Judson, apesar das roupas laranjas e óculos estranhos, é a primeira referência mais clara do que eu viria a me tornar um tempo depois. São dali os meus amigos mais antigos e as minhas primeiras descobertas escolhidas e não casuais. Quando passei a gostar de música, de arte, da cidade… Não significa que ali já era eu, mas que ali eu realmente me senti nascer. E daí uma gratidão imensa por tudo que a ETESP significou na minha vida. E se de lá saíram tantas pessoas parecidas comigo, não consigo não pensar que ali foi realmente minha maternidade.
PS: Essa no topo é a primeira foto que eu fiz com o Chapolim, assim que eu comprei ele.




