Durante o vôo assisti um filme chamado “Albergue Espanhol”, em que um parisiense de vinte e poucos anos, pra conseguir um cargo na burocracia francesa, se inscreve num programa de intercâmbio em Barcelona, pra estudar a crise econômica espanhola. O filme, que fala sobre 15 mil conflitos sem efetivamente se centrar em nenhum, acabou me chegando no tempo em que eu discuto meu desapego pelo conflito. Ou, em outras palavras, meu apego pela zona de conforto.
As pessoas tendem a falar da zona de conforto como algo ruim, para acomodados mas não vejo por esse lado. Pra mim, o conforto é um estado que estamos sempre procurando, um objetivo de curto, médio ou longo prazo. A zona de conforto é confortável, e as pessoas costumam ridicularizá-la com base numa querência desnecessária por desafios.
Não que desafios não sejam bons, pelo contrário. Só não acho que eles sejam um fim em si mesmo. Logo, se não temos desafios ou conflitos, não necessariamente estamos em estado vegetativo. Podemos, pelo contrário, estar vivendo os melhores anos das nossas vidas. E falo isso por experiência própria, dos últimos 2 ou 3 anos que passei. É preciso uma noite tranquila para sonhar os melhores sonhos.
E nem acho que faça sentido em falar que as pessoas ficam acomodadas na zona de conforto. Isso, pra mim, é coisa de quem não tem personalidade. Um porco que vive e se vive tá sempre chafurdando na lama das possibilidades, e isso não depende de desafios de carreira, acadêmicos ou amorosos. A gente cresce sem nem perceber, quanto mais se esforçar.
Mas chega uma hora que já não estamos mais confortáveis. O passado vira uma roupa que não nos serve mais, quer porque nosso corpo mudou (engordamos, emagrecemos, mudamos, enfim) ou porque as roupas, por qualquer motivo, se rasgam. E saber viver é saber levar dentro e fora da zona de conforto. Saber buscá-la de volta. Bater perna na C&A da Vida, experimentando um monte de coisas até que algo nos sirva.
E assim começa Barcelona. Vim pra cá (e pra toda essa viagem) fazer um curso de corte e costura. Aprender a desenhar novas roupas, que sejam diferentes das de antes mas igualmente confortáveis. Uma toga? Uma Beca? Um esplendor? Uma bermuda? Tomar fôlego pra reabrir os livros, os olhos e a mente. E reencontrar minha zona de conforto.









