Pequenas frustrações

Por algum motivo eu lembrei disso daqui. Volta e meia eu ficro frustrado por não ter conseguido ver alguma coisa durante uma viagem. Na última, choveu tanto que deixei de ir pra ilha de Capri, na Itália. Na Grécia, escaldado pela chuva da Itália, desisti de comprar a passagem pra conhecer Santorini. Essa daqui foi a frustração da Venezuela.

Em uma região meio remota, em volta do lago Maracaibo, acontece um fenômeno natural bem curioso. 160 dias por ano, 10 horas por dia, em até 280 descargas elétricas por hora, acontece uma chuva de relâmpagos sobre o rio Catatumbo, no ponto que encontra o lago. É considerado o maior gerador único de ozônio troposférico do mundo (não faço ideia do que isso significa), e não tem muita explicação o porquê isso acontece.

Fico imaginando tudo que já passou na cabeça de indígenas, ribeirinhos, europeus recém chegados e etc. Mais que isso, em 2010, por uma razão incerta, os relâmpagos desapareceram. Quanta minhoca não deve ter passado nas ideias de quem não conseguia entender as razões de tudo aquilo? Foram meses achando que o fenômeno tinha acabado pra sempre, até que sem muita cerimônia os relâmpagos voltaram a cair.

Como fui pouco depois desse incidente, e o acesso até essa região é meio complicado, resolvi não arriscar perder dois dias e não ver nada. Hoje, um tanto arrependido, fico vendo fotos no google images…

Doido esse mundo, né?

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“Ela é bonita, mas é uma vadia”

Não sou preconceituoso mas… isso não é suficiente. Pessoalmente acho que a gente tem o dever de ser um pouco mais do que livre de preconceitos, a gente tem é que ser combativo aos preconceitos dos outros. Porque senão, continuamos do jeito que está: Alguns poucos realmente sem preconceitos e uma grande maioria fazendo com que toda sorte de “”minorias”” continuem sofrendo os efeitos da opressão. Por isso, acredito de verdade que a gente precisa é de enfrentamento.

Volta e meia me enfio numa dessas situações de embate, mesmo que involuntariamente. Confesso que meu temperamento às vezes faz meter os pés pelas mãos e seguir por um caminho meio errado. Foi o que aconteceu há uns anos atrás quando vi uma mulher chamar um senhor de macaco no metrô, ou, mais recentemente, quando chamei pra porrada um grupo de sete cariocas que estava numa excursão no Chile. Eles passaram um dia inteiro fazendo piadas homofóbicas com um casal que estava na excursão conosco, reproduzindo todas aquelas coisas que estamos cansados de ouvir.

Nunca falei aqui desses causos justamente porque me convenceram que eu não agi bem nas duas situações. Na primeira, combati preconceito com mais preconceito (fiquei um tempão xingando a mulher de gorda); Na segunda, coloque em risco minha segurança, lançando mão de um método pouco efetivo, que é a violência direta… Pois bem, hoje tive a chance de tentar ser diferente.

Estava no trem ao lado de um grupo de teenagers americanos que visitavam o sul da Itália. Três garotos e uma menina. Lá pelas tantas, um dos guris comentou as roupas de uma Italiana que esperava o trem na plataforma: “É bonita, mas é uma vadia”. Todos riram e a viagem continuou. Na hora, a vontade que me deu foi de ridicularizar ele. Dizer que as roupas dele faziam ele parecer gay (ERRO) ou intimidar o moleque na base do carão e ameaça (ERRO). Respirei fundo e afastei essas ideias idiotas, mas também não queria deixa passar em branco. A gente não pode mais deixar passar em branco.

A solução, afinal, foi a seguinte: Pedi licença na conversa deles e me dirigi à única garota do grupo, rolando o seguinte diálogo:

– Desculpa, posso te fazer uma pergunta?
– Claro
– Você acha que toda mulher tem o direito de se vestir do jeito que ela quiser?
– Claro
– E você não acha que o seu amigo está errado em dizer que a garota parecia uma vadia, só porque estava usando roupas mais curtas?
– Eu concordo, mas é uma questão de padrão.
– Bom, é um padrão que caras como o seu amigo criaram. Não só o padrão de roupas, como o próprio padrão de “Vadia”. Você já chamou algum homem de “Vadia”? (NT: Bitch)
– Não
– Veja bem. Eu poderia ter me dirigido diretamente a ele. Mas ele não vai me escutar. Eu sou um estranho que está ridicularizando ele na frente dos amigos. Mas você não, você é amiga dele. E você é mulher. Faça a si mesmo (e a todas as mulheres) um favor. Não deixe ele falar assim de mulher nenhuma. Mais cedo ou mais tarde, ou melhor, atualmente, a vítima já é você.

E saltei do trem (realmente precisava descer, era minha estação). Não sei o que aconteceu depois. Os olhos dela me pareciam sinceros quando disse o primeiro “Sure”. Acho que essa estratégia acabou sendo melhor que a das outras vezes. Sem violência. Sem multiplicar preconceitos. Mas, e acima de tudo, foi melhor (muito melhor) que a omissão. A gente realmente não pode mais aceitar isso.

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Ma che belo

Toda viagem eu entro em alguma roubada. Teve aquela furada de alugar um carro na Inglaterra, a mala que devia ir pra Lisboa e foi parar na Jamaica, o carregador da câmera que eu esqueci de levar no Chile… mas essa daqui pelo menos foi “bonita”. Eu estou hospedado na casa de um garoto propaganda de “Shop Tour” aqui na Itália. Um desses caras de 1,50m, mas que é tão bonitão que ninguém nota que é um tampinha. Narigudo, faz eu achar que até me faria bem se o meu nariz fosse um pouco maior…

Pois bem, saí à noite para jantar numa cantina aqui do lado e aí começou meu terror. Esqueci a chave na fechadura, do lado de dentro de casa, e era uma daquelas fechaduras que não se consegue abrir por fora sem a chave. Percebi como que de imediato, mas liguei pro tal do antitrião, que disse que chegaria em uma hora. Nesse tempo, fui numa cantina de bairro aqui do lado e vi a menina mais bonita que já encontrei: a garçonete da cantina. Ela perguntava o que eu queria pedir e eu só conseguia pensar em namoro, casamento… a moça era hipnotizante. Gaguejei alguma coisa que parecia “Carbonara” e sinceramente nem lembro o gosto da comida…

Voltei pra casa e o ator já estava lá, com a namorada (a menina mais bonita que já encontrei), tentando abrir a porta. Acontece que, como eu deixei a chave na fechadura, não tinha como enfiar a chave no buraco. Sem condições de pular a janela (quinto andar, vizinho viajando), tivemos que chamar o chaveiro da madrugada, que chegou depois de uma hora mais ou menos. Um camarada loiro, minha altura, completamente tatuado e musculoso, que me fazia sentir um cara BEM fora do peso. Ficamos os três por cerca de quatro horas tentando abrir a porta (um modelo antigo, possivelmente construído na dinastia de Constantino), sem sucesso. Como todos os vizinhos já tinham vindo reclamar do barulho (uns nonos e nonas, desses de comercial de Peru e Chester, bochechas rosadas, cabelos branquinhos… ridiculamente lindos) desistimos e resolvemos recomeçar na manhã seguinte.

O anfitrião foi pra casa da namorada, eu, sem minhas malas nem carregador de celular, fui parar num hotel a poucas quadras dali. Mas, CÁSPITA, é semana santa. Todos os hotéis de Roma estão lotados… Sem internet pra um booking de última hora, fiquei perambulando pelas ruas frias da madrugada romana até o metrô abrir (5 da matina). Fiquei batendo e voltando de Itaquera à Barra Funda (ler com sotaque da Mooca) até o horário combinado para nos reencontrar (8 da manhã). Mais duas horas tentando sem sucesso abrir a porta e… nada. O chaveiro chamou seu superior.

Chegou um sujeito que parecia o George Clooney. Cabelo raspado, grisalho, olhos bastante claros, barba farta e bem aparada, que me fez ter um tanto de vergonha da minha cara pelada de índio. Mais duas horas e, finalmente, bingo: porta praticamente descomposta (como minha cara de nariz pequeno, gorda e pelada), conseguimos entrar na casa.

Normalmente me acho um cara bem na média, mesmo nas viagens. No Chile, por exemplo, tava até me achando o rei do pedaço. Mas, cara, aqui na Itália dá até desgosto. É impressionante como todos: homens, mulheres, crianças, ricos, pobres… a galera é toda bonitona. Taí uma boa razão pro país continuar em crise: eles tem que globalizar esses genes, espalhando essa italianada pelo mundo.

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A felicidade é uma marolinha que nos vem molhar os pés

Já faz algumas semanas que venho conversando com amigos sobre ser feliz no trabalho. Quando disse a alguns amigos, ainda no Egito, que estava com saudades do meu trabalho, uns me deram por hipócrita, outros por louco. Mas penso, de verdade, que é muito difícil ter uma vida que valha a pena se o seu trabalho é um tormento pra você. Não só acho possível, como acho necessário que você se sinta minimamente satisfeito com seu “ganha pão” pra conseguir viver mais que sobreviver.

Falo isso porque pra mim a felicidade é como uma dessas marolinhas que nos vem molhar os pés quando caminhamos na beira do mar. É impossível fazer com que ela esteja sempre ali. Ela vem e vai, a toda hora. Traz uma concha com o gol do seu time, leva um chinelo com uma doença, te faz cócegas quando seu trabalho é reconhecido, te leva o castelo de areia com uma desilusão. Não acredito muito em quem é feliz em tempo integral.

Mas pra que a felicidade nos molhe os pés é preciso caminhar na orla. E se esconder da vida é um jeito de passear de carro na beira mar: viver um relacionamento que já não dá mais certo, cultivar hábitos por pressão da família, dedicar um terço (ou mais) do seu dia a uma tarefa que te consome são formas de manter os pés secos.

É tão importante ter visão e atitude. Saber enxergar o que vale e o que não vale a pena na vida, e ter coragem de abdicar do que nos faz mal. É muito difícil buscar a felicidade. Eu mesmo não me sinto realmente feliz há algum tempo. Mas continuo me sentindo satisfeito com o que sou, e acho que esse é o grande ponto: olhar pra si e saber que se é exatamente o que se quer ser. Encontrar sentido no que se faz. Isso é caminhar na areia, de pés descalços. Mais cedo ou mais tarde a marolinha chega.

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Listas

Três experiências que curti em Barcelona

Caminhar aleatoriamente pelas ruas do bairro gótico, suas vielas estreitas e a vida universitária do lugar. À noite a atmosfera é ainda mais interessante, apesar de um pouco sombria.

Pedalar por Barceloneta, alcançando o mirante que existe atrás do hotel Windsor. É fácil alugar uma bicicleta por ali, apesar de ser um pouco mais caro que em outros lugares da cidade.

Tomar uma sangria no Parc Guell. Sentar-se nas muretas do parque observando a cidade ali de cima, ornando com as formas e as texturas de Gaudi.

Três bares e restaurantes

http://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g187497-d6920580-Reviews-Kaelderkold-Barcelona_Catalonia.html

http://www.tripadvisor.com.br/Restaurant_Review-g187497-d4453379-Reviews-AQistoi-Barcelona_Catalonia.html

http://www.tripadvisor.com.br/Restaurant_Review-g187497-d2492461-Reviews-Betlem_Miscel_lania_Gastronomica-Barcelona_Catalonia.html

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Agora eu era espanhol

Quando criança, a gente quer ser tanta coisa maluca. Pirata, jogador de futebol, bailarina, bombeiro… Uma das minhas foi querer ser paleontólogo e estudar dinossauros. Por algum tempo levei isso bem a sério (dois 8 ao 10 anos, talvez). Mas antes um pouco veio uma maluquice ainda mais sem explicação: eu queria ser espanhol. E essa paixão foi bastante duradoura, tanto que nem sei porque demorei tanto tempo pra vir parar nessas terras.

Aprendi meia dúzia de palavras na língua deles e sonhava em ter não um cachorro, mas um “perro”. Cresci com ídolos ibéricos: Adorava o goleiro Zubizarreta; era fã do Barcelona muito antes de ser essa modinha toda; e, veja só, ouvia “Locomia”, que excursionou pelo Brasil quando eu tinha por volta dos 6 anos de idade, se apresentando em todos os programas do Gugu. Gugu, aliás, que apresentava um programa de gincanas entre as comunidades imigrantes de São Paulo no qual eu invariavelmente torcia… pra Espanha.

O problema dessas viagens relâmpago (5 dias, pro meu padrão, é muito pouco até em Miracema do Norte) é que não temos muito tempo de interagir com os locais. Queria ter tido tempo de sentar com um daqueles catalães e contar dessas minhas pirações de guri. Dizer como a cultura deles atravessou o atlântico pra atingir um garoto sem qualquer vínculo com a colônia espanhola. Queria saber se eles têm vergonha dos leques da banda que eu gostava, assim como nós até hoje nos desculpamos por ter exportado o Carrapixo.

Curioso isso da globalização nas crianças. A cultura Pop é cada vez mais universal, especialmente pelo barateamento na transmissão das informações. Não sei se é possível fazer esse tipo de identificação regional com os grandes ídolos, já que parece que eles andam cada vez mais parecidos (Michel Teló só é “música sertaneja” porque vocês querem chamar assim. Ele tem uma sonoridade muito mais parecida com a música americana que com Chitãozinho e Xororó). Será que ainda haverá espaço pro meu filho querer ser espanhol, russo ou australiano?

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