Encontrando um hobby

Por mais que se ame o que se faz “remuneradamente”, acho que todo mundo precisa de um hobby, algo que o faça ser mais que o seu trabalho, que sua vida civil. Tenho alguns, e um deles é fotografar. Comecei a fotografar graças a um estímulo da Camilla. Uma vez, não sei se quando descrevia alguma cena minimalista ou quando comentava das coisas lindas que via nas fotografias de alguns amigos, ela disse que eu tinha que pensar nisso com carinho, que eu sabia ver a beleza das coisas e que conseguiria transformar aquilo em boas imagens. Tomei aquilo como um estímulo e comprei minha primeira câmera mais ajeitadinha.

Hoje fotografar é como uma terapia, uma forma de relaxamento. É uma oportunidade que eu tenho de introspecção, de me desligar das outras coisas da vida e dedicar a algo que é “um fim em si mesmo”. Talvez por isso normalmente saio pra fotografar sozinho e mesmo acompanhado não tenho tanto prazer em fotografar como quando estou rodando por aí só eu e minha câmera. Também por isso não sei se viajo porque quero fotografar ou se fotografo porque quero viajar.

Por conta disso, nunca tive grandes pretensões com minha técnica. Uso recursos que pra alguns fotógrafos mais experientes são até meio bregas, batidos, mas isso não me importa muito. Não é uma arte, é um exercício. No fundo, é tudo questão de contemplar a beleza das coisas comuns, analisar e divagar sobre o a universalidade e a singularidade das coisas. Também sem grandes preocupações filosóficas: é só um relaxamento mesmo. Poesia barata.

Não recomendo a fotografia pra todos. Tenho certeza que muitos não conseguiriam relaxar fazendo o que eu faço: ficar parado por 20, 30 minutos, esperando um pássaro passar perto do sol, ou um casal trocar um olhar mais sincero… Mas acho, de verdade, que todo mundo precisa de algo para escapar. Não que o corriqueiro seja ruim: a vida só vale a pena quando o corriqueiro é bom. Mas a gente não pode se resumir ao dia-a-dia. Tricoteiro, cozinheiro, leitor, cinéfilo… o importante é que a gente merece ser mais do que se “é”.

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O Bairro Anarquista

No meu último dia na Grécia acabei dedicando umas horas a seguir as dicas de uma amiga viajante. Fui atrás de dois passeios um tanto mais fora do circuito, um deles no bairro de Exarchia. O bairro já era famoso, mas ganhou as manchetes em 2008, por ter sido o centro de uma série de protestos que tomaram conta de Athenas por conta do assassinato de um garoto pela polícia local.

É um bairro universitário, centro nevrálgico dos grupos de extrema esquerda da Grécia. As ruas são completamente cobertas de grafites e cartazes desses grupos, principalmente anarquistas, e o ambiente é um tanto hostil a quem não é do metiê. Eu mesmo, na noite em que fiquei perambulando pelas ruas de lá, passei por uma situação meio estranha.

A praça central do bairro tava lotada. Cerca de 200 pessoas espalhadas pela praça, mas um percentual maior concentrado em volta de uma fogueira no centro. Bêbados, cantavam e tocavam (mal e porcamente) violões. Uma meia dúzia de vendedores de drogas e um mercado consumidor imenso.

Quando me aproximei, um cachorro começou a me intimidar. Parecia ter sido mandado por um dos frequentadores da praça (sim, 200 pessoas lá, apenas pra mim ele latia). Somado aos olhares desconfortáveis, senti que eu (turista) não era muito bem quisto por ali. Fiquei pouco tempo e voltei pro apartamento. Deixei pra fazer as fotos no dia seguinte, com dia claro e ambiente menos hostil.

Curiosamente o bairro vive um processo de gentrificação. Essa cena convive com um número bem razoável de restaurantes e bares de alto padrão, e li que isso tem despertado algumas animosidades no bairro. Por outro lado, existem também alguns restaurantes bem peculiares por ali.

O bairro, no fundo, não é perigoso. Desde que saiba se comportar. Fica a dica pra quem for visitar Athenas.

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