O primeiro dia do tour pela Coreia do Norte foi principalmente ocupado por uma visita à Zona Desmilitarizada que os separa de seus irmão do sul. Uma curiosidade do pensamento do norte é que, ao menos na versão que nos contam, eles não estão em guerra com a Coreia do Sul. Isso porque só existe uma coreia, e a porção sul está ocupada pelos norte americanos. Um dos princípios básicos do Regime é justamente reunir as famílias que foram separadas pelos imperialistas, sob a bandeira de um único país (que siga os seus ideais comunistas e, lógico, seja governado pelos “grandes líderes”).
Na viagem à Zona Desmilitarizada, atravessamos todo o país, presenciando um pedaço da vida rural da coréia do norte. Ainda que eu acredite que haja alguma “seleção” nas plantações que margeiam a rota dos turistas, sinceramente acho difícil que tudo o que vimos seja efetivamente cênico. Até porque, muitas das cenas revelam também a falta de recursos do homem do campo na DPRK.
O tour é conduzido por duas guias locais: Senhora Ra e Senhorita Kim. A segunda, uma filha de diplomada estudando para entrar também na carreira (por isso o trabalho na agência, para aprimorar o idioma). O problema é que o inglês da moça é praticamente inexistente. Ela repete frases decoradas e, quando se tenta fazer perguntas, raramente vem uma resposta compreensível (ou de quem compreendeu a pergunta). A primeira, já mais culta e bem versada no idioma, uma ex funcionária do ministério de relações internacionais, defensora agressiva do regime e que pontuava reiteradamente sua devoção aos líderes e ódio aos imperialistas.
A Senhora Ra foi personagem de pelo menos três episódios curiosos na viagem. O primeiro, quando disse aos turistas: “Uma informação importante para os homens, é proibido fumar no interior do palácio”. Cabreiro, perguntei em particular se mulheres não podiam fumar. A resposta foi segura e precisa, deixando evidente um dos muitos aspectos machistas da sociedade coreana: “Never-ever”. Uma amiga me falou, ainda, que ela disse que mulheres não poderiam ser gordas em hipótese alguma (de fato, não vi nenhuma mulher gorda na Coreia).
A mais tensa conversa que tive com a Sra. Ra foi dentro do Mausoléu dos Grandes Líderes. Tentando bajular (e ganhar a confiança) dela, disse o quão era importante ouvir o ponto de vista dos norte coreanos sobre as coisas. Que o mundo só ouve a versão norte americana, que sempre será parcial. Ela me olhou curiosa (e era realmente um olhar sincero): “O que os americanos dizem sobre nós?”. “Você realmente quer saber?”. “Quero!”. “Não vai ficar chateada se eu falar?”. “Não”. Foi quando eu disse, dentro do “Beatificado” mausoléu: Seus líderes são ditadores lunáticos e vocês são um bando de ovelhas que tiveram seus cérebros lavados.
Quando as palavras terminaram de sair, percebi a bobagem que eu fiz… Aquele não era o País, e muito menos aquele era o lugar e a hora para falar isso… Gelei por alguns segundos… Essa deve ter sido minha primeira tentativa de ser preso na Coréia do norte.
O tempo fechou, mas menos do que eu achei que fecharia. Ela começou um discurso pouco compreensível sobre o porquê os norte americanos não têm coragem de atacar a Coreia do Norte (eu realmente não entendi o ponto dela) e ficou realmente enfurecida com um garoto do grupo (estávamos, na verdade, num mini grupo, de cinco pessoas) fez certa cara de deboche pra explicação dela.
Essas passagens pelo interior da Coreia (bem como os passeios pela capital) também permitiam observar alguns comportamentos mais banais da vida comum de um cidadão coreano. Mas disso eu falo outra hora.








