A atemporalidade bahiana

Eu estava aqui pensando na ligação metafísica entre o Axé da Bahia e o Egito. Parece loucura, mas os verdadeiros connoisseurs do Pelô sabem do que eu estou falando. Pra vocês que são newbies, vou citar alguns exemplos:

Margareth Meneses: Faraó Divindade Nagô
https://www.youtube.com/watch?v=qfP1xlgCVOI

Timbalada: Sou Faraó
https://www.youtube.com/watch?v=cSu2pSSnbWM

Gera Samba: Dança do Ventre
https://www.youtube.com/watch?v=e5v7mcsFCzE

E enquanto filosofava sobre a universalidade da arte contemporânea baiana, encontrei nos Hieroglifos do templo de Luxor essa relíquia importantíssima para se entender as origens do Axé. Trata-se da primeira representação da Dança da Cordinha!

 

O futebol faz dessas mágicas (ALL IN à brasileira)

Encostei no balcão do estadão pra disfarçar um pouco a fome e vi que estávamos no final da partida entre Santos e Palmeiras pela final do campeonato paulista de futebol. Poucos minutos antes, passei um tanto desatento por dois desses muitos mendigos que fazem do centro antigo seu home-office. O primeiro me pediu uma ajuda pra comer, que neguei desviando o olhar. O segundo, mais sincero, pediu dinheiro pra cachaça. Recusei por igual. Não sou um grande adepto da esmola (às vezes acho que por consciência, às vezes por avareza).

Ponto é que ali, em frente às peças de pernil e cercado pela gritaria de atendentes e chapeiros, vi o futebol fazer das suas malandragens. Do lado de fora do bar (menos por vontade e mais por imposição dos garçons) os mesmos dois mendigos viam a TV pela janela larga da lanchonete. Um palmeirense, outro santista, se provocavam aos gritos, como que para todos os clientes os notarem (e eles eram finalistas, tinham direito de ser notados).

O santista, orgulhoso, gritava que tinha nascido na Santa Casa de Santos, do lado do estádio da Portuguesa Santista, e que o santos era o maior amor da vida dele. O palmeirense, um pouco mais acanhado, limitava-se a mandar o santista calar a boca porque ele ia começar a chorar daqui a pouco.

Fato é que os dois fodidos de bolso são bem afortunados de paixão, e entre bravatas e xingamentos, acabaram por selar uma aposta. O Palmeirense, que tinha no bolso dez reais em mal dobradas notas de dois, cantou a aposta. O Santista, a princípio, fugiu da raia. Disse que só não apostava porque ele não tinha dez, só tinha quatro. O palmeirense, valente, fez a aposta leonina: Meus dez contra os seus quatro.

Sabe-se lá quanto tempo eles demoraram pra ganhar os seus trocados, nem o que o palmeirense vai ter que deixar de lado essa noite (ou o que o santista vai fazer com com o grande prêmio), mas não tem como deixar de ver poesia (triste ou não) no All In mais genuíno (e literal) que já vi na vida. Pra apostar tudo o que se tem na vida, tem que ter paixão.

Na foto, o Santista e o Palmeirense.

Pra quem nunca jogou Poker, All In é uma aposta agressiva, em que você arrisca todas as fichas que você tem acreditando nas suas cartas.

Gentileza gera gentileza

Todo mundo odeia telemarketing. Você odeia receber ligações inconvenientes no meio do dia. Eu odeio a ineficiência de alguns atendentes. Ele odeia o modo como o sistema é desenhado para não satisfazer a nossa necessidade. E, principalmente, eles odeiam o que fazem.

Não é pra menos. Quem tem a oportunidade de conhecer por dentro essa máquina de maldades, consegue ter um pouco de empatia com a Judite. Assédio moral dos supervisores. Restrições absurdas ao uso de banheiros. Condições de higiene ruins em refeitórios. E até você, amigo irritado, faz parte do inferno que é ser operador de telemarketing. É difícil mesmo ser simpático.

Mas no meio dessas pedras brutas, também surgem algumas flores. Do lado de casa tem uma empresa grande de Telemarketing. Na porta, o Seu Neves (foto) vende cafés, chás e bolos, a preços camaradas. Some-se a isso o fato de os atendentes não poderem fazer seus intervalos de descanso todos ao mesmo tempo (motivos óbvios), e nasceu ali uma prática das mais simpáticas.

O Roberto queria pagar um café pra Rosângela, mas não podiam fazer intervalo no mesmo horário. O que fez? Deixou um café pago e a Rosângela foi supreendida com seu nome na lousa: Tem um café pago pra você. Um correio elegante da cafeína.

A prática cresceu, virou moda, até que começaram a surgir os “Cafés de ninguém”. Você tomou um café e quer deixar um café pago pra outra pessoa? Não tem pra quem pagar um café? Deixe um café pago para um desconhecido. Tá sem um tostão no bolso e tá louco pra tomar um café? Passe no seu Neves e veja a lousa: Se estiver marcado ali um café compartilhado, você toma o seu de graça. De graça não, pela graça de outra pessoa.

Simples, simpático e animador.

Deixei um chá pago pra você. Passa lá.

A história da minha tatuagem, a Porta-Bandeira.

Ela está prestes a fazer oito anos e está sempre comigo, mas muitos nunca a viram. Minha filha, a tatuagem que tenho na perna, nunca tinha sido fotografada, até esse fim de semana. Achei que tava na hora de mostrar e contar a história dela por aqui.

Tatuagem pra mim não faz sentido se for por mera decoração. Tem de ser algo que te marque, que te signifique, e por isso levei cerca de um ano para decidir fazer minha porta bandeira.

A tatuagem é uma homenagem à beleza da dança da porta bandeira, uma figura que tem (ao lado do mestre sala) a função de proteger o símbolo maior da escola, o Pavilhão. Ambos, figuras de guerra, têm de cumprir sua função com raça e força. Ambos, figuras de dança, têm que cumprir sua função com sorriso e poesia. Esse aspecto de Raça e Poesia eu vi pela primeira vez em uma epifania, antes mesmo de entrar de cabeça nesse universo, quando vi a Adriana Gomes dançando na quadra do Mocidade Alegre. Não sabia quem ela era, nem o nome gigantesco que ela já tinha no Samba. Eu era um turista do Samba naquele tempo e fiquei arrebatado pelo jeito leve e vigoroso com que ela dançava. Esse é o primeiro significado da tatuagem: Raça e Poesia, a frase que trago escrita na tatuagem. Ou “Hay que endurecer pero sin perder la ternura”, certo?

Um tempo depois, quando resolvi me inscrever numa escola de bateria (minha porta de entrada nesse universo), conheci a Sara Regina. Ela estava começando, como eu, mas visando aquela que, pra mim, é a mais linda das funções: a de porta bandeira. Como ela tinha cerca de 8 anos, não foi bem a sua dança que me chamou a atenção naquele tempo. Isso viria a realmente me encher os olhos anos depois. Mas naquela hora o que me encantava era sua mãe, a Sandra Regina. A dedicação, a entrega e a projeção que eu via da mãe em relação à filha me fez marejar algumas vezes ao longo da vida. Um tanto por elas e um tanto por ver naquela devoção o mesmo carinho que me faz amar tanto a minha própria mãe: Uma pessoa que sempre se empenhou para me entregar todo o amor, compreensão e carinho, em todas as pequenas e grandes decisões da minha vida. E a figura da mãe é o segundo significado da minha tatuagem.

Além desses, há todos os outros significados mais laterais e até óbvios: Minha paixão pelo carnaval, minha ligação com a cultura popular, como isso me marcou quer durante a faculdade quer nas minhas decisões de vida da vida “adulta”, todas as pessoas admiráveis que encontrei nesse meio, quer exercendo a função maior, quer ocupando outras tantas posições nesse universo…

Enfim, essa é a história da minha primeira tatuagem. A segunda vem aí, assim que eu atingir uma meta de vida que tenho buscado: Conhecer um país para cada ano de vida que eu tiver. Tudo correndo bem, até o começo do ano que vem atingirei essa meta. Aí vem outra história, outra arte, outro desejo, e… quem sabe… outra fotografia.

Qixi!

Hoje é dia dos apaixonados na China. Eles comemoram nessa data há alguns séculos, como forma de celebrar uma lenda antiga na qual um casal (uma fada e um campesino) vive um amor impossível e são obrigados a viver separados pela via láctea.

Mas uma vez por ano (sétimo dia do sétimo mês lunar do calendário chines) os gnomos se juntam para fazer uma ponte e ajudar os apaixonados a se encontrarem no céu. Segundo uma amiga que fiz aqui, é a data em que as garotas (rolou um machismo sim) vão ao prédio mais alto que conseguem pra louvar a lua, pedindo para encontrar o amor verdadeiro (ou fortalecer o amor que já encontraram)… Talvez daí venha aquela canção “Lua vai, iluminar os pensamentos dela…”.

Isso tudo só pra eu ter uma razão de compartilhar com vocês esse belo buquê de ursos =) Como já disse aqui: qualquer maneira de amor vale a pena.

Um cafezinho melhor que a comenda

Hoje de tarde os desembargadores do TRT entregaram comendas a pessoas de grande importância para a Justiça do Trabalho bandeirante. Eu imagino que isso signifique: Pessoas que contribuíram de forma decisiva para auxiliar na função maior dessa que alguns chamam de “justicinha”: garantir o cumprimento dos direitos sociais.

Pois bem, os agraciados são quase todos do alto clero. Mas um capítulo da lista chama bastante atenção. Os cavaleiros: Esses do povo, pessoas sem nobreza, que mesmo assim contribuem para esse grande mister. Aqui entram, por exemplo, os milhares de servidores do tribunal. Justo, justíssimo, vai pensar quem conhece minimamente os trâmites intestinais do tribunal.

Mas não é que a lista (miúda, 13 nomes) de cavaleiros inclui a ascensorista do elevador privativo, o chefe do setor de carros oficiais e o responsável pelo cafezinho dos desembargadores? À primeira vista, é fofinho… mas…

Com todo respeito à D. Gerusa (que deve ser uma pessoa excepcional, mas não a conheço pois o elevador privativo não atende os outros possíveis cavaleiros), homenagear a pessoa que poupa os dedos nobres dos desembargadores de apertar os botões do elevador em detrimento daqueles (qualquer deles) que se desdobram em salas de audiência e secretarias de turma… isso diz MUITO sobre como encaramos a justiça por essas bandas. Mais valem as prerrogativas que a função exercida.

Um mau mentiroso

Alguns amigos vieram me dizer que as fotos que tirei na China mostram um lugar calmo, paradisíaco, de contemplação… Não caiam nessa lorota. Sou um fotógrafo muito do mentiroso. Fico parado por muito tempo, esperando aquela fração de segundos em que as coisas parecem bucólicas e românticas. Não se deixem enganar…

A China é, sem sombra de dúvidas, o lugar mais caótico que eu já visitei. Uma imensa 25 de março, mesmo nos lugares mais remotos. Nada, absolutamente nada, lá é fácil. Cheio de coisas incríveis, mas só pra quem tem disposição pra muito (MUITO) perrengue.

Essa foto, que deixei pro final, é um resumo disso tudo. Cheguei na China e fui direto pra esse lugar: A estação de trem central de Pequim, de onde partia meu transporte pra Coreia do Norte. Voltei pra China e, por coincidência, fiquei hospedado na frente da estação. Durante 8 dias acordei e dormi vendo essa imagem e ela não foi diferente em momento algum.

A qualquer hora do dia ou da noite (das 5h à meia noite, horário de funcionamento da estação) as filas para entrar no lugar eram exatamente deste jeito. Soma-se a infinidade de chineses aos protocolos infindáveis de segurança (qualquer lugar tem detectores de metal tais quais aqueles de aeroporto, em que você põe sua mala no raio x: shoppings, metrô, prédios comerciais…).

Minha opinião final sobre a China é justamente essa: Seria um dos lugares mais bonitos do mundo… não fosse todo o resto.

O amor só vale livre – Ou a ponte das artes carioca

Acho que todo turista ocidental que te bateu perna por essas bandas já passou por algo parecido. Um asiático desconhecido que se aproxima e pergunta: posso tirar uma foto com você? O que pode parecer um golpe, é só encantamento com o diferente.

A gente tem muitas formas de dialogar com o esquisito: medo, preconceito, admiração, repulsa… e até transformar num troféu pra mostrar pros amigos. Não sei muito bem o que faz uma ou outra reação acontecer, mas tudo seria tão mais fácil se as pessoas sempre agissem com a doçura dessa criança (e principalmente do pai dele).

Já tinha acontecido uma vez em Taiwan. Um rapaz desceu do ônibus pra tirar uma foto com o ocidental de 1.88cm que tava andando na rua com cara de distraído. Aconteceu de novo na fronteira com a coreia e, agora, na muralha da China. Eu estava sentado, tomando uma cerveja, admirando a vista, ouvindo Chico César, e reparei que tinha um senhor um tanto encabulado, indo e voltando em círculos em em volta de onde eu estava.

Eu, que já achava graça daquilo, olhei e sorri: Nihao. Com mímica, ele pediu pra que eu tirasse uma foto com o filho dele. Respondi em inglês, porque sou tonto: Sure. E ainda ganhei essa foto de recordação de uma dessas muitas pequeninices que fazem as viagens valer qualquer perrengue.

Diferentes reações ao diferente

Acho que todo turista ocidental que te bateu perna por essas bandas já passou por algo parecido. Um asiático desconhecido que se aproxima e pergunta: posso tirar uma foto com você? O que pode parecer um golpe, é só encantamento com o diferente.

A gente tem muitas formas de dialogar com o esquisito: medo, preconceito, admiração, repulsa… e até transformar num troféu pra mostrar pros amigos. Não sei muito bem o que faz uma ou outra reação acontecer, mas tudo seria tão mais fácil se as pessoas sempre agissem com a doçura dessa criança (e principalmente do pai dele).

Já tinha acontecido uma vez em Taiwan. Um rapaz desceu do ônibus pra tirar uma foto com o ocidental de 1.88cm que tava andando na rua com cara de distraído. Aconteceu de novo na fronteira com a coreia e, agora, na muralha da China. Eu estava sentado, tomando uma cerveja, admirando a vista, ouvindo Chico César, e reparei que tinha um senhor um tanto encabulado, indo e voltando em círculos em em volta de onde eu estava.

Eu, que já achava graça daquilo, olhei e sorri: Nihao. Com mímica, ele pediu pra que eu tirasse uma foto com o filho dele. Respondi em inglês, porque sou tonto: Sure. E ainda ganhei essa foto de recordação de uma dessas muitas pequeninices que fazem as viagens valer qualquer perrengue.

Um amor singular

A língua não só reflete como muitas vezes constrói uma personalidade. A alma portuguesa que herdamos (e transformamos) nos trouxe a nossa singular “Saudade”, palavra que é a favorita de muitos dos nossos amigos e de difícil tradução pra outros idiomas. Os coreanos também tem sua própria palavra, Jeong, uma forma peculiar de amor e carinho que, para muitos, é um símbolo da Coréia.

Tem um jogo que gosto de jogar quando conheço pessoas fora do Brasil que é perguntar: Quais as palavras que você acha que definem o estereótipo do seu país. Não jogo com filosofia complicada, fico no simples. Falo que pra mim Brasil é Futebol, Carnaval e Favelas, e às vezes ganho respostas bem interessantes. Dessa vez, uma amiga que fiz aqui disse: Jeong, Workaholic e Rapidez. Dos outros dois, falo outra hora, fico por enquanto com o amor.

Depois de alguns dias sendo um bocado mal tratado na China, vim parar em Seoul para uma passagem curta. A rigor, o formigueiro Chinês tem muito mais coisa a ser vista, além de uma história que nos é mais conhecida e paisagens naturais realmente impressionantes. Mas mesmo assim Seul tem me feito mais feliz, ao seu modo mais simples, pelo jeito amistoso e realmente cativante dos coreanos.

Ela não conseguiu me explicar direito o que era o Jeoung. Mas pesquisando na internet (E existem MUITOS textos sobre isso) acho que mesmo sem entender fui envolvido por esse sentimento aqui. As pessoas se ajudam bastante, são imensamente simpáticas e capazes de parar tudo o que estão fazendo para colaborarem umas com as outras. No universo do indivíduo, isso é tão impactante pra mim.