Uazarzate

Ouazarzate é uma cidade do interior do Marrocos, cercada de pitorescos vilarejos que já foram cenário de diversos filmes hollywoodianos. Esses americanos sabem das coisas. Próximo à entrada do deserto do Saara, os cenários são mesmo imagéticos. Como cênica é a estrada que corta o Atlas e o SubAtlas no caminho que vem de Marrakesh.

Esse trajeto, inclusive, me ensinou que no Marrocos também neva, e não é pouco. Ver os telhados quadrados das casas cobertos de neve foi tão lindo quanto esclarecedor, uma experiência que só seria melhor se tivéssemos alugado um carro ao invés de confiar nossos estômagos a uma van de excursão que chacoalhava rápida e brutalmente pelas curvas da estrada.

Mal de quem pouco planeja suas viagens, acabei por não perceber a grandeza de “Ait Ben Haddou”, um desses vilarejos ao qual fomos levados pela excursão. Para fazer tudo caber em um dia, o guia nos arrastou pra fora do vilarejo em poucos minutos. Um dos meus arrependimentos da viagem é não ter abandonado a excursão naquele momento pra aproveitar um pouco mais daquele lugar.

Em Ouazarzate, onde nos hospedamos para voltar a Marrakesh no dia seguinte, compensamos um pouco da pressa da visita caminhando um pouco a esmo pelas ruas de um bairro periférico da cidade. As casas de barro, os muitos gatos, o céu estrelado, foram o plano de fundo de uma das minhas histórias favoritas dessa viagem:

Je M’apelle Cheval

Tudo parecia uma imensa indiada. Uma distração na hora de reservar o hotel e acabei indo parar no subúrbio de uma cidade já minúscula (60 mil habitantes) no interior do Marrocos. E, como tudo ali fecha muito cedo, nada a fazer que não andar pelas ruas da redondezas. Correção: ruas não havia. As casas de barro se espalhavam ao longo do espaço sem muita lógica, como barracas em um acampamento. E dali, num morro um tanto mais alto, decidimos assistir o por do sol.

Captura de Tela 2017-01-17 às 11.24.43.png

Se achegaram alguns garotinhos da vila pra dividir o momento conosco. Cumprimentaram à moda árabe, com beija-mão e tudo mais, e, rindo bastante, perguntavam em francês o nosso nome. Eu, que francês não falo, arranhava as poucas palavras que aprendi pra manter aquela conversa. Não tardaram muitos risos até que eles começassem a nos ensinar a língua (que eles também não pareciam saber falar muito bem…): “Je m’appelle cheval” (que na tradução dele deveria significar “Aquilo se chama cavalo”). Me mostrou a escola e o hospital. Por fim, perguntou o que eu tinha no pescoço.

Tirei meus fones de ouvido que pousavam pendurados ali e tive uma ideia um tanto biruta. Vou mostrar como é a música do Brasil. Pincei o samba da Mangueira e, um por um, pus nos ouvidos deles um pouco da nossa cultura. Funcionou: todos riram um pouco mais, e logo em seguida comecei a ensinar como se dança samba… A cena foi tão doce quanto curta, pois logo a mãe deles gritou do outro lado do vilarejo: Cubram o rosto, já que o Paulinho filmava o causo.

Pra boa parte dos muçulmanos daqui, uma fotografia pode levar um pouco da sua alma. Um amigo local chegou a me dizer que a mãe se recusou a tirar foto no dia do seu casamento. A coisa é realmente séria. E assim, ganhei pros meus ouvidos também um pouco da cultura deles.

Felicidade se encontra nas horinhas de descuido

Por fim, a cidade em si tem pouco ou quase nada a oferecer, que não servir de base para visitar estes outros vilarejos. Talvez os museus de cinema, com alguns cenários montados dos filmes, que, de tão rotos, são algo um tanto limítrofes entre o interessante e o cafona.

Essaouira

Essaouira é uma cidade portuária a oeste do Marrocos e um antigo entreposto comercial português do tempo das navegações. Por isso, logo à entrada da cidade existe uma fortaleza de observação ao estilo dos “gajos” onde foram filmados trechos da série (que eu nunca assisti) Game of Thrones.

A cidade em si, apesar da arquitetura graciosa, foi transformada em um imenso mercado de quinquilharias, o que quebra um pouco o charme da visita. Pra mim foi bem mais prazeroso o tempo que fiquei no porto propriamente e suas centenas de barquinhos azuis. Ver a vida passar ali é especialmente divertido: pescadores, distribuidores, gente comum que aparece por ali pra comprar seus pescados… As milhares de gaivotas bombardeando a todos e seu vôo em direção às ruínas em uma ilhota a poucos metros da costa…

No caminho pra Essaouira o tour parou em uma região peculiar de produção de derivados de Argan, a castanha famosa do Marrocos. Por ali, vimos uma árvore peculiar, um “pé de cabra”… Pelo que descobri na internet, as cabras sobem nas árvores de Argan pra comer os frutos, o que era considerado pelos produtores como uma praga. Mas com o tempo os agricultores descobriram que o Argan expelido (aka. cagado) pelas cabras poderia ser transformado em um óleo cosmético bastante nutritivo. Assim nascia o mundialmente famoso “óleo de Argan”, que frequenta os salões de beleza do Brasil.

Claro que hoje em dia o processo de produção do óleo mudou bastante, ja que não é possível manter uma escala industrial de cocô de cabra.

Pra lá de Marrakesh

Difícil escrever sobre Marraquexe sem ficar perdido nos pensamentos. Talvez seja o vício dos pés, que não conseguem caminhar nas ruas da Medina duas vezes pelo mesmo caminho: As vielas são labirínticas como as ideias e sensações sobre a cidade. Um lugar que precisa ser visitado com o espírito relaxado e todos os sentidos atentos.

Logo no começo da viagem, conheci uma guria marroquina, estudante de engenharia, que disparou: O Marrocos de verdade está dentro da Medina. Dos muros pra fora, tem uma cidade moderna como qualquer outra. Não perca seu tempo. Se quer saber o que é minha cultura, apura os sentidos nessas vielas. Foi o que fiz.

Os cheiros da Medina atiçam mesmo alguém que, como eu, não tem o olfato muito desenvolvido. A infinidade de pós e temperos se espalha em cores mas chegam antes ao nariz, numa mistura bagunçada mas sinestésica. Os odores acentuados das azeitonas ou dos couros sendo curtidos, os churrasquinhos e escargôs da praça central, tudo parece gritar por atenção.

Por outro lado, gastronomicamente falando a cidade rende boas fotos, mas não muito mais que isso. Os temperos mil, que se espalham pelo mercado e enchem de odores as ruas, parece não serem muito usados da porta da cozinha pra dentro. Os pratos se resumem, em 90% dos restaurantes, a Tajine e Cuscus. Ambos um tanto sem graça, com raras exceções. Mas, por outro lado, os pães são espetaculares, pelo sabor e pelo preço (cerca de 30 centavos de Real), como as adocicadas tangerinas, que parecem querer dormir de conchinha com sua língua.

As ruas são uma confusão integral, 24/7. A qualquer instante que se caminhe pelas vielas estreitas ou que se corte ao acaso a praça principal, sempre vai haver um exagero de gente convivendo por ali. Segundo um guia que conhecemos, é um dos muitos aspectos da “Etihad” marroquina. As pessoas não saem de casa para fazer coisas. O que elas querem é conversar, conviver. As mulheres comprando frutas e verduras, os homens sentados conversando com seus chás, as mesquitas entoando cânticos a Alah do alto das minarites…

Dizia o guia que é uma obrigação social ir ao menos uma vez por dia à igreja. Não necessariamente por Deus, já que você pode rezar no conforto da sua casa (o que é melhor, já que você vai dar o bom exemplo aos seus filhos). Mas ir à igreja rezar todos os dias na mesma hora é um jeito de rever os amigos diariamente. Assim, se algo acontecer a Abdul (uma doença, por exemplo), logo Ahmed saberá e fará todo o necessário para ajudar.

O mesmo vale para os Hamams, os banheiros públicos. Dizia ele que há um ditado árabe que conta: Se você não tem nada pra fazer, vá tomar banho com os amigos. Isso porque o banho nesses lugares é uma experiência de horas, que os marroquinos procuram fazer pelo menos uma vez por semana. Três salas conectadas com diferentes temperaturas, onde se refresca e esfolia a pele, para em seguida relaxar em uma sauna. Como todas as salas são comuns, frequentar o mesmo hamam significa fazer e manter amigos.

Além das conversas, atiçam os ouvidos os artistas de rua. As flautas dos encantadores de serpente, a música étnica dos grupos da Guiné, os contadores de história e seus alaúdes e tambores, os cascos dos cavalos… Frustra apenas não entender o que se diz ou que se canta. Mas é espetaculoso ver tudo isso acontecendo ao mesmo tempo de um jeito tão harmonioso quanto caótico.

Reluz ainda o brilho dos metais, lanternas e cerâmicas pintadas que se espalham pelos “souks”. E tudo isso é envolto nos tons ocre das paredes das casas, mesquitas e muralhas. A arquitetura de linhas retas e matematizadas emoldura uma vida exótica e alegrememente vivida nas ruas da Medina.

Por outro lado, não dá pra ser desonesto e deixar de falar do pior aspecto do turismo em Marrakesh: O assédio. Vendedores, artistas de rua e vadios estão sempre em busca de um trocado a mais, o que torna qualquer caminhada pela cidade um tanto incômoda.

O tempo todo alguém quer ganhar algo em cima de você, mas a maioria das situações podem ser superadas simplesmente ignorando (infelizmente não dá pra sorrir e dizer não, esse é o melhor caminho pra deixar eles no seu pé por muito tempo). A estratégia menos simpática, porém, pode render algumas agressões desnecessárias. Por duas vezes fui chamado de racista por algum jovem marroquino que estava tentando me “vender ajuda” simplesmente porque não dei atenção à abordagem dele.

Fotografias dos artistas de rua, nem pensar, a não ser que você queira deixar alguns euros no chapéu do sujeito. E se inventar de tirar uma “discreta” foto escondido, tenha certeza que ele vai acabar vendo (ou algum dos seus ajudantes) e indo até você: Ou paga ou apaga.

Por falar em fotografias, também é importante tomar cuidado com elas por outro aspecto. Para muitos Muçulmanos as fotos são um jeito de levar embora um pouco da alma do fotografado. Por isso, uma foto inocente de uma situação corriqueira pode ser interpretada como uma ofensa pelo retratado, e isso vale também para fachadas de loja.

E assim Marrakesh organiza sua vida tão pacata quanto agitada. As motocicletas cortando em zigue-zague as conversas de comadre, a sinceridade dos abraços e beijos trocados, a fila na casa de sucos, a expressão sofrida no rosto dos mendigos… Uma imensidão de sensações que ficam guardadas com carinho ao lado daquela lembrança do por do sol na praça, instantes antes do batuque dos rituais começar a soar. Shukram.