Pra lá de Marrakesh

Difícil escrever sobre Marraquexe sem ficar perdido nos pensamentos. Talvez seja o vício dos pés, que não conseguem caminhar nas ruas da Medina duas vezes pelo mesmo caminho: As vielas são labirínticas como as ideias e sensações sobre a cidade. Um lugar que precisa ser visitado com o espírito relaxado e todos os sentidos atentos.

Logo no começo da viagem, conheci uma guria marroquina, estudante de engenharia, que disparou: O Marrocos de verdade está dentro da Medina. Dos muros pra fora, tem uma cidade moderna como qualquer outra. Não perca seu tempo. Se quer saber o que é minha cultura, apura os sentidos nessas vielas. Foi o que fiz.

Os cheiros da Medina atiçam mesmo alguém que, como eu, não tem o olfato muito desenvolvido. A infinidade de pós e temperos se espalha em cores mas chegam antes ao nariz, numa mistura bagunçada mas sinestésica. Os odores acentuados das azeitonas ou dos couros sendo curtidos, os churrasquinhos e escargôs da praça central, tudo parece gritar por atenção.

Por outro lado, gastronomicamente falando a cidade rende boas fotos, mas não muito mais que isso. Os temperos mil, que se espalham pelo mercado e enchem de odores as ruas, parece não serem muito usados da porta da cozinha pra dentro. Os pratos se resumem, em 90% dos restaurantes, a Tajine e Cuscus. Ambos um tanto sem graça, com raras exceções. Mas, por outro lado, os pães são espetaculares, pelo sabor e pelo preço (cerca de 30 centavos de Real), como as adocicadas tangerinas, que parecem querer dormir de conchinha com sua língua.

As ruas são uma confusão integral, 24/7. A qualquer instante que se caminhe pelas vielas estreitas ou que se corte ao acaso a praça principal, sempre vai haver um exagero de gente convivendo por ali. Segundo um guia que conhecemos, é um dos muitos aspectos da “Etihad” marroquina. As pessoas não saem de casa para fazer coisas. O que elas querem é conversar, conviver. As mulheres comprando frutas e verduras, os homens sentados conversando com seus chás, as mesquitas entoando cânticos a Alah do alto das minarites…

Dizia o guia que é uma obrigação social ir ao menos uma vez por dia à igreja. Não necessariamente por Deus, já que você pode rezar no conforto da sua casa (o que é melhor, já que você vai dar o bom exemplo aos seus filhos). Mas ir à igreja rezar todos os dias na mesma hora é um jeito de rever os amigos diariamente. Assim, se algo acontecer a Abdul (uma doença, por exemplo), logo Ahmed saberá e fará todo o necessário para ajudar.

O mesmo vale para os Hamams, os banheiros públicos. Dizia ele que há um ditado árabe que conta: Se você não tem nada pra fazer, vá tomar banho com os amigos. Isso porque o banho nesses lugares é uma experiência de horas, que os marroquinos procuram fazer pelo menos uma vez por semana. Três salas conectadas com diferentes temperaturas, onde se refresca e esfolia a pele, para em seguida relaxar em uma sauna. Como todas as salas são comuns, frequentar o mesmo hamam significa fazer e manter amigos.

Além das conversas, atiçam os ouvidos os artistas de rua. As flautas dos encantadores de serpente, a música étnica dos grupos da Guiné, os contadores de história e seus alaúdes e tambores, os cascos dos cavalos… Frustra apenas não entender o que se diz ou que se canta. Mas é espetaculoso ver tudo isso acontecendo ao mesmo tempo de um jeito tão harmonioso quanto caótico.

Reluz ainda o brilho dos metais, lanternas e cerâmicas pintadas que se espalham pelos “souks”. E tudo isso é envolto nos tons ocre das paredes das casas, mesquitas e muralhas. A arquitetura de linhas retas e matematizadas emoldura uma vida exótica e alegrememente vivida nas ruas da Medina.

Por outro lado, não dá pra ser desonesto e deixar de falar do pior aspecto do turismo em Marrakesh: O assédio. Vendedores, artistas de rua e vadios estão sempre em busca de um trocado a mais, o que torna qualquer caminhada pela cidade um tanto incômoda.

O tempo todo alguém quer ganhar algo em cima de você, mas a maioria das situações podem ser superadas simplesmente ignorando (infelizmente não dá pra sorrir e dizer não, esse é o melhor caminho pra deixar eles no seu pé por muito tempo). A estratégia menos simpática, porém, pode render algumas agressões desnecessárias. Por duas vezes fui chamado de racista por algum jovem marroquino que estava tentando me “vender ajuda” simplesmente porque não dei atenção à abordagem dele.

Fotografias dos artistas de rua, nem pensar, a não ser que você queira deixar alguns euros no chapéu do sujeito. E se inventar de tirar uma “discreta” foto escondido, tenha certeza que ele vai acabar vendo (ou algum dos seus ajudantes) e indo até você: Ou paga ou apaga.

Por falar em fotografias, também é importante tomar cuidado com elas por outro aspecto. Para muitos Muçulmanos as fotos são um jeito de levar embora um pouco da alma do fotografado. Por isso, uma foto inocente de uma situação corriqueira pode ser interpretada como uma ofensa pelo retratado, e isso vale também para fachadas de loja.

E assim Marrakesh organiza sua vida tão pacata quanto agitada. As motocicletas cortando em zigue-zague as conversas de comadre, a sinceridade dos abraços e beijos trocados, a fila na casa de sucos, a expressão sofrida no rosto dos mendigos… Uma imensidão de sensações que ficam guardadas com carinho ao lado daquela lembrança do por do sol na praça, instantes antes do batuque dos rituais começar a soar. Shukram.

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