Uazarzate

Ouazarzate é uma cidade do interior do Marrocos, cercada de pitorescos vilarejos que já foram cenário de diversos filmes hollywoodianos. Esses americanos sabem das coisas. Próximo à entrada do deserto do Saara, os cenários são mesmo imagéticos. Como cênica é a estrada que corta o Atlas e o SubAtlas no caminho que vem de Marrakesh.

Esse trajeto, inclusive, me ensinou que no Marrocos também neva, e não é pouco. Ver os telhados quadrados das casas cobertos de neve foi tão lindo quanto esclarecedor, uma experiência que só seria melhor se tivéssemos alugado um carro ao invés de confiar nossos estômagos a uma van de excursão que chacoalhava rápida e brutalmente pelas curvas da estrada.

Mal de quem pouco planeja suas viagens, acabei por não perceber a grandeza de “Ait Ben Haddou”, um desses vilarejos ao qual fomos levados pela excursão. Para fazer tudo caber em um dia, o guia nos arrastou pra fora do vilarejo em poucos minutos. Um dos meus arrependimentos da viagem é não ter abandonado a excursão naquele momento pra aproveitar um pouco mais daquele lugar.

Em Ouazarzate, onde nos hospedamos para voltar a Marrakesh no dia seguinte, compensamos um pouco da pressa da visita caminhando um pouco a esmo pelas ruas de um bairro periférico da cidade. As casas de barro, os muitos gatos, o céu estrelado, foram o plano de fundo de uma das minhas histórias favoritas dessa viagem:

Je M’apelle Cheval

Tudo parecia uma imensa indiada. Uma distração na hora de reservar o hotel e acabei indo parar no subúrbio de uma cidade já minúscula (60 mil habitantes) no interior do Marrocos. E, como tudo ali fecha muito cedo, nada a fazer que não andar pelas ruas da redondezas. Correção: ruas não havia. As casas de barro se espalhavam ao longo do espaço sem muita lógica, como barracas em um acampamento. E dali, num morro um tanto mais alto, decidimos assistir o por do sol.

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Se achegaram alguns garotinhos da vila pra dividir o momento conosco. Cumprimentaram à moda árabe, com beija-mão e tudo mais, e, rindo bastante, perguntavam em francês o nosso nome. Eu, que francês não falo, arranhava as poucas palavras que aprendi pra manter aquela conversa. Não tardaram muitos risos até que eles começassem a nos ensinar a língua (que eles também não pareciam saber falar muito bem…): “Je m’appelle cheval” (que na tradução dele deveria significar “Aquilo se chama cavalo”). Me mostrou a escola e o hospital. Por fim, perguntou o que eu tinha no pescoço.

Tirei meus fones de ouvido que pousavam pendurados ali e tive uma ideia um tanto biruta. Vou mostrar como é a música do Brasil. Pincei o samba da Mangueira e, um por um, pus nos ouvidos deles um pouco da nossa cultura. Funcionou: todos riram um pouco mais, e logo em seguida comecei a ensinar como se dança samba… A cena foi tão doce quanto curta, pois logo a mãe deles gritou do outro lado do vilarejo: Cubram o rosto, já que o Paulinho filmava o causo.

Pra boa parte dos muçulmanos daqui, uma fotografia pode levar um pouco da sua alma. Um amigo local chegou a me dizer que a mãe se recusou a tirar foto no dia do seu casamento. A coisa é realmente séria. E assim, ganhei pros meus ouvidos também um pouco da cultura deles.

Felicidade se encontra nas horinhas de descuido

Por fim, a cidade em si tem pouco ou quase nada a oferecer, que não servir de base para visitar estes outros vilarejos. Talvez os museus de cinema, com alguns cenários montados dos filmes, que, de tão rotos, são algo um tanto limítrofes entre o interessante e o cafona.

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