Fernando de Noronha. Dá pra ser barato?

A ideia desse texto não é explicar cada praia e passeio de Noronha. Tem muito relato na internet sobre isso. O que eu quero é tirar o medo das pessoas que acham que vão ter que vender um rim pra conhecer nosso destino mais cobiçado. Por isso, para cada uma das praias e passeios que eu citar, busca no google pra entender do que se trata.

Antes de mais nada, a resposta objetiva: Não vai ser barato. Noronha nunca foi um destino muito mochileiro e, apesar de as coisas estarem mudando, ainda é um tanto difícil fazer uma viagem “baratinha” pra lá.

Por outro lado, acho que é um destino verdadeiramente paradisíaco e que pode ser tão “barato” quanto outros menos interessantes que muitos amigos visitam, desde que você tenha certa dose de esperteza e aventura.

Hospedagem e alimentação

Pra começar, Noronha é cara nas hospedagens. Uma pousada comum pra casal, de média pra baixa qualidade, vai te custar o olho da cara (R$ 400,00 aproximadamente). Um jeito de driblar isso é se hospedar em um hostel, algo que até pouco tempo era inexistente na ilha. Fiquei hospedado na casa Swell, que cobram R$ 150,00 por diária (e também têm quartos privativos, um pouco mais caros que isso pra um casal). Continua não sendo exatamente barato, mas é um jeito realmente bom de economizar, por alguns motivos “ocultos”.

A alimentação em Noronha é bastante cara. Uma refeição comum normalmente gira em torno de R$ 80,00 a R$ 100,00 por pessoa. E ficar em um hostel te permite cozinhar o próprio rango, reduzindo bastante os gastos por lá. Outra alternativa pra não perder as calças comendo é recorrer aos vendedores de quentinhas. Percebi que muitos trabalhadores da ilha, por motivos óbvios, não recorrem aos caros restaurantes de lá. Por isso, há empresas que vendem “marmitas” de R$ 20,00 (e que servem duas pessoas controladas na fome). Infelizmente não peguei o contato de nenhuma dessas empresas, mas é fácil descobrir isso com os locais.

Outra vantagem do hostel é que fica muito fácil você conhecer outros turistas. Fazendo isso, você arranja companhia fácil pros passeios, o que aumenta a segurança de não recorrer aos guias, outro custo meio alto da ilha. Pra dar um exemplo, o passeio ao Morro de Fora custa R$ 80,00, mas é algo que pode facilmente ser feito sem guia, especialmente se você vai em um grupo de amigos.

Na frente da Casa Swell há um lugar pra comprar cerveja barata. Por R$ 3,50 era possível comprar uma lata de skol, o que é um achado na Ilha (preços médios são pelo menos o dobro disso). Há também, ali próximo, um mercado para se abastecer de coisas para cozinhar. Enfim, as alternativas de economia são muito boas nesse hostel.

Quanto à estrutura do Hostel, também fiquei bastante satisfeito. Um pequeno incidente (causado por mim mesmo e meu esquecimento) me fez achar que eu tinha sido furtado. Prontamente eles conseguiram acessar todas as câmeras de segurança, deixando claro que o lugar é seguro (como a ilha de modo geral).

Taxas e tickets

Alguns custos são impossíveis de escapar. A taxa de permanência na ilha é de aproximadamente R$ 70,00 por dia. Além disso, a maioria dos passeios legais implicam entrar no parque nacional. E para ingressar é necessário pagar um bilhete de cerca de R$ 100,00 (que vale por dez dias).

Passeios

O famoso “ilha tour” é, na minha opinião, um tanto dispensável. Não me acrescentou nada na viagem e eu poderia ter feito o mesmo trajeto com transporte público por uma fração ínfima do preço. O nosso roteiro foi: Sancho (praia e mirante); Leão; Sueste; Baía dos tubarões; Cacimba do Padre; e Mirante do Boldró. Todos estes lugares são de fácil acesso com o sistema de ônibus da Ilha, que custa R$ 5,00 (contra os R$ 150,00 do tour) e você ainda tem a vantagem de ficar o tempo que achar necessário em cada lugar.

O tour não é exatamente “corrido”. Acho que fiquei o tempo que queria em cada canto. Mas também há que se considerar que o mar não estava dos melhores, o que diminuiu os atrativos pra mim. Ou seja, talvez em condições ideais o passeio fosse um tanto corrido, como já vi alguns turistas reclamarem.

Por outro lado, entenda bem, eu gosto bastante de tours guiados. Acho que eles te enriquecem culturalmente e te ajudam a entender o que está rolando no lugar. Mas os guias que eu encontrei não eram dos melhores (e aparentemente, conversando com outros colegas, isso é bem comum). Se você quer economizar, saiba que não estará perdendo muito fazendo as coisas por si.

Uma das experiências mais fantásticas que tive na ilha foi ver o nascer do sol. Alguns pontos são especiais pra isso: A capela de São Pedro foi minha escolhida. Mas também ouvi relatos legais sobre o mirante dos golfinhos, já que os cardumes saltam por lá no nascer do sol.

Quanto ao por do sol, peguei dois bastante bons (nos outros dias, os “Eclipses nuviais” atrapalharam um pouco): Mirante do Boldró e Forte de Nossa Senhora dos Remédios. Também ouvi bons relatos do bar do meio (mas ficar por lá pode ser um tanto caro, por conta do bar).

Leve snorkel e pé de pato na mala e você economizará uns trocados com a locação. Há diversos passeios que te permitem fazer mergulho de snorquel, e a vida marinha lá é realmente linda.

Contas feitas

Na verdade, as pessoas dizem que o ideal seria ficar 15 dias em Noronha (e eu concordo com isso). Mas, enfrentando a realidade, se sua conta bancária não é tão gorda, isso pode ser meio proibitivo. Eu recomendaria uma estadia confortável de 5 dias por lá (leia-se, sem pressa, relaxando e curtindo). Um plano “barato” de visita à ilha seria:

  • Dia 1 – Nascer do sol na baía dos golfinhos, Sancho e por do sol no Forte dos Remédios
  • Dia 2 – Leão, Sueste, Morro de fora e por do sol no bar do meio
  • Dia 3 – Capela, Ponta do Air France, Buraco da Raquel
  • Dia 4 – Praia dos americanos e por do sol no Boldró
  • Dia 5 – Cacimba do padre e Baia dos Porcos

E isso pode ser combinado com as palestras do projeto Tamar, o forró do bar do meio, e as trilhas curtas que não precisam de guia.

Fazendo isso você vai gastar apenas o dinheiro do busão (uns R$ 15,00 por dia); entrada do parque nacional, taxa de permanência e hospedagem. Estamos falando de cerca de R$ 300,00 por dia, ou R$ 1.500,00 no total.

Extravagâncias

Claro que a viagem pode ficar gradativamente mais cara conforme você recorra aos “luxos” de Noronha. Um bom mergulho de cilindro vai te custar uns R$580,00. As trilhas especiais, com auxílio de guia, custarão cerca de R$ 100 a R$ 200,00 por dia. São coisas que, com certeza, vão enriquecer sua experiência. O passeio de barco ao redor da ilha custa R$ 180,00. Mas tenho certeza que seu espírito já vai voltar alegre se fizer as coisas “baratas” de lá.

Quando ir

Ao que apurei, a melhor época do ano pra ir começa em setembro e vai até o começo do ano, quando o clima fica mais tranquilo e com menos ondas (isso é primordial pra melhorar a qualidade dos mergulhos, de snorquel ou de cilindro). Nas outras épocas, a ilha fica ideal pra surfistas, por conta das ondas.

Passagens aéreas

Recentemente encontrei passagens aéreas de até R$ 1.000,00 partindo de São Paulo para Noronha. A partir de Recife, um bom preço é algo em torno de R$ 500,00. Gol e Azul voam diariamente pra lá, com vôos diretos de Natal e Recife.

Lençóis com orçamento curto

É possível montar a viagem pros lençóis com todo tipo de objetivo e orçamento. Desde as aventureiras travessias à pé (cerca de quatro dias) por todo o parque até as confortáveis estadias em Resorts próximos a Barreirinhas. Fugindo desses dois extremos, vou deixar aqui algumas recomendações interessantes pra quem quer curtir a experiência gastando relativamente pouco.

Se você é daqueles que raramente consegue uma brecha pra viajar (os amigos de escritório…), é possível fazer uma viagem de um fim de semana aos Lençóis. Inclusive foi isso que eu fiz, já que minha namorada não poderia ficar mais tempo. Mas o roteiro fica bastante puxado e talvez você tenha que pular um ou outro passeio.

Há vôos da Gol desde GRU que pousam em SLZ no meio da madrugada. A empresa GI Connect organiza transfers (em van) desde o aeroporto até Barreirinhas em um horário compatível com a chegada desse vôo. Ou seja, é possível sair de São Paulo as 10 da noite e estar antes das 7 da manhã já em Lençóis. Esse transporte custa R$ 60,00 cada trecho de Van, e um bom preço para transporte aéreo é cerca de R$ 500 a R$ 600,00, ida e volta. Pra quem tem milhas, a Gol costuma fazer promoções de vez em quando a 6 mil milhas o trecho. Outra opção de transporte terrestre até Barreirinhas é a viação Cisne Branco, com ônibus em horários específicos a cerca de R$ 55,00 por pessoa.

Uma vez em Barreirinhas, há alguns passeios diferentes pra escolher. Os mais clássicos são as visitas às rotas de lagoas, que custam cerca de R$ 60,00 por pessoa, e duram meio dia. Pechinchando, talvez você até consiga menos que isso. Outro passeio bastante procurado é a navegação pelo rio preguiças, que vai desde Barreirinhas até Atins, passando por alguns pontos famosos da região, com os pequenos lençóis e o farol do mandacaru, por cerca de R$ 70,00, em um passeio de dia inteiro.

A rota da Lagoa Bonita é um conjunto de lagoas de Lençóis que fica a aproximadamente 2h de trilha em 4×4 a partir de barreirinhas. Entre as lagos mais famosas, uma em que foi gravada cenas da novela O Clone e outra usada pela Record em “Os dez mandamentos”

Já para chegar à Rota da Lagoa Azul, o trajeto é um pouco mais curto (cerca de 40 minutos), mas as lagoas são, pra mim, um pouco menos bonitas. De todo modo, tem que se considerar também o horário do dia que se faz o passeio. Quanto mais cedo, mais azuis são as águas. Mas à tarde é bem confortável caminhar pelas dunas ou se banhar nas lagoas.

Atins é um povoado mais ao norte de Barreirinhas. Mais rústico e preservado, é um lugar para se ficar mais reservado. Por outro lado, a infraestrutura ali é precária, com pouco ou nenhum sinal de celular e, como aconteceu comigo, eventualmente sem energia elétrica. Lá conhecemos o sr. José Antônio (quem quiser, me pede o telefone inbox) que fez um passeio privativo de 6 horas conosco por R$ 70,00 por cabeça. Ele também nos disse que tem uma pequena pousada no meio dos lencóis, em Barra grande.

Aliás, por falar nisso, a hospedagem em Atins, na pousada da Tia Rita, custa R$ 50,00 por pessoa, e há quartos de casal ou coletivos pra até 4 pessoas. Em Barreirinhas é possível encontrar hospedagens com esse preço também. A comida por lá é razoavelmente barata. Restaurante bons cobram menos que um almoço por quilo em SP e a oferta de camarão e frutos do mar é alta. Uma dupla de restaurantes famosos fica no caminho ao passeio nas dunas (Dona Luzia e Seu Antônio. Ficamos com decepcionamos um pouco. A comida é boa, mas os comentários de internet nos deixaram esperando algo epifânico. Não é…).

As lagoas em Atins são menos azuis e mais verdes que as mais próximas a Barreirinhas. Isso porque a proximidade com o mar faz com que haja mais algas nas águas do norte, resultando na cor esverdeada.

Por fim, um opcional de luxo que vale muito a pena. Pesquisando e barganhando, é possível sobrevoar o parque de Lencóis por cerca de R$ 200,00 por pessoa, em aviões monomotores para até 3 pessoas. Foi a experiência mais incrível dessa viagem, valendo a pena todos os centavos gastos. Sigam a page deles: @Voelencoisma

Enfim, noves fora, é possível fazer uma viagem de 2 a 3 dias (feriadões) para o parque gastando cerca de R$ 800,00. Se esse valor não pode ser considerado exatamente barato, também não dá pra dizer que é injusto pra beleza do que a gente vê por aquelas bandas.

A melhor época do ano para visitar os Lençóis é o período imediatamente posterior ao fim das chuvas. Nessa hora, as lagoas estão cheias em seu ponto máximo e vão secando ao longo do ano.

As chuvas param por volta de maio, o que faz da viagem nessa época do ano um tanto quanto aleatória. Um pouco de azar e você vai ficar emburrecido com o céu nublado ou, pior, preso por conta das águas. Um tanto de sorte, vai ter as lagoas cheias e poucos turistas pra te azucrinar.

Entre Junho e Agosto as chuvas já acabaram e as lagoas estão bastante cheias. Resultado: hordas de turistas que talvez tirem um pouco do encantamento paradisíaco do lugar. Depois disso, as lagoas começam a secar e talvez você não veja a verdadeira beleza do lugar.

Maracatu Rural em Nazaré da Mata

Uma festa pelo povo e para o povo. A fantasia e a brincadeira dos cortadores de cana da Zona da Mata pernambucana foi a memória mais marcante de meu carnaval desse ano.

 

Escapando um pouco das ladeiras de Olinda, optei por dedicar um dia da viagem carnavalesca ao Pernambuco na cidade de Nazaré da Mata, coração fervente do baque solto, seus mestres de apito e coloridos personagens. Cerca de uma hora de estrada a partir do Recife, a cidade é um caldeirão fumegante de calor no meio da região canavieira. Ali se reúnem no carnaval algumas dezenas de grupos de maracatu rural, com seus brincantes que sofrem nos 40ºC pra celebrar suas tradições.

Já no caminho pela Zona da Mata uma cena me encheu de água os olhos. Na beira da estrada, debaixo de uma árvore, um caboclo de lança se vestia para a festa de frente ao canavial. Calçava a cabeleira, como que para testar os movimentos, e aquilo foi uma dessas cenas fantásticas que não cabe tempo de fotografar, mas que fica registrada por todo sempre na lembrança. 

O símbolo mais vistoso do Maracatu Rural é o Caboclo. Mas a festa, na verdade, é cafuza. Uma mistura de tradições indígenas com festejos negros, criada provavelmente nas senzalas da Zona da Mata pernambucana. Como tudo de tradição oral, é bem difícil encontrar informação precisa sobre as origens e personagens do cortejo. Alguns textos que li indicam, inclusive, que diversos daqueles que vi em Nazaré foram introduzidos nas últimas décadas, não fazendo parte da celebração original. 

De todo modo, o que vimos circulando na Sé de Nazaré da Mata foi uma festa de poesia sertaneja comandada por um Mestre de Apito (algo que lembra um repentista) que cantava versos próprios amarrados em um tema central. Cada grupo trazia seu mote, que ia de mensagens de apoio à Presidenta Dilma a uma retrospectiva dos grandes acidentes aéreos da história da aviação no Brasil (do Vôo da TAM à Chape). Uma salada geral, especialmente porque para cada 30 segundos de poesia se seguiam outros 60 de uma das danças mais frenéticas que já vi na vida.

E é aqui que entram os caboclos de lança. Eles são personagens de guerra que tem como função dançar em volta da banda protegendo os tocadores (e os outros personagens) dos ataques dos maracatus rivais. Dançam como que possuídos, agitando freneticamente a lança e circulando. E se a proteção física não é suficiente (eu tomei duas lançadas na cabeça fotografando… posso dizer que elas bastariam), eles também trazem a proteção espiritual em uma rosa na boca, além dos caboclos de pena, personagens responsáveis pela defesa sem armas. 

Ser um caboclo de lança é um ato de fé. Dançar sob aquele sol escaldante, coberto em roupas pesadíssimas, já seria por si um esforço sobrehumano. Para poupar energias, inclusive, recomenda-se que o caboclo não tenha contato (SEQUER ESPIRITUAL) com mulheres nos 15 dias que antecedem o carnaval. Pra que não lhe tome as energias. E além desse esforço no “dia D”, reza a tradição que o caboclo é o responsável pela confecção da sua própria gola, esse manto pesado que lhe cobre o corpo. 

Se somam no cortejo outros personagens, como a corte real, suas damas de honra, o Matias (espécie de abre alas do Maracatu), burra e o porta estandarte. Todos dançando em círculo na frente da Sé de Nazaré, ajoelhando para ouvir os versos do mestre de apito e pulando desembestadamente ao som da banda. 

Os maracatus variam mais de tamanho que de nome. Trazem, em regra, nomes de animais (águia, leão, carneiro…) com algum adjetivo esquisito (mimoso, curioso, altaneiro…). Já os tamanhos, esses são absolutamente heterogêneos. Desde alguns bastante pequenos (20 integrantes) até alguns que beiravam a centena. 

Uazarzate

Ouazarzate é uma cidade do interior do Marrocos, cercada de pitorescos vilarejos que já foram cenário de diversos filmes hollywoodianos. Esses americanos sabem das coisas. Próximo à entrada do deserto do Saara, os cenários são mesmo imagéticos. Como cênica é a estrada que corta o Atlas e o SubAtlas no caminho que vem de Marrakesh.

Esse trajeto, inclusive, me ensinou que no Marrocos também neva, e não é pouco. Ver os telhados quadrados das casas cobertos de neve foi tão lindo quanto esclarecedor, uma experiência que só seria melhor se tivéssemos alugado um carro ao invés de confiar nossos estômagos a uma van de excursão que chacoalhava rápida e brutalmente pelas curvas da estrada.

Mal de quem pouco planeja suas viagens, acabei por não perceber a grandeza de “Ait Ben Haddou”, um desses vilarejos ao qual fomos levados pela excursão. Para fazer tudo caber em um dia, o guia nos arrastou pra fora do vilarejo em poucos minutos. Um dos meus arrependimentos da viagem é não ter abandonado a excursão naquele momento pra aproveitar um pouco mais daquele lugar.

Em Ouazarzate, onde nos hospedamos para voltar a Marrakesh no dia seguinte, compensamos um pouco da pressa da visita caminhando um pouco a esmo pelas ruas de um bairro periférico da cidade. As casas de barro, os muitos gatos, o céu estrelado, foram o plano de fundo de uma das minhas histórias favoritas dessa viagem:

Je M’apelle Cheval

Tudo parecia uma imensa indiada. Uma distração na hora de reservar o hotel e acabei indo parar no subúrbio de uma cidade já minúscula (60 mil habitantes) no interior do Marrocos. E, como tudo ali fecha muito cedo, nada a fazer que não andar pelas ruas da redondezas. Correção: ruas não havia. As casas de barro se espalhavam ao longo do espaço sem muita lógica, como barracas em um acampamento. E dali, num morro um tanto mais alto, decidimos assistir o por do sol.

Captura de Tela 2017-01-17 às 11.24.43.png

Se achegaram alguns garotinhos da vila pra dividir o momento conosco. Cumprimentaram à moda árabe, com beija-mão e tudo mais, e, rindo bastante, perguntavam em francês o nosso nome. Eu, que francês não falo, arranhava as poucas palavras que aprendi pra manter aquela conversa. Não tardaram muitos risos até que eles começassem a nos ensinar a língua (que eles também não pareciam saber falar muito bem…): “Je m’appelle cheval” (que na tradução dele deveria significar “Aquilo se chama cavalo”). Me mostrou a escola e o hospital. Por fim, perguntou o que eu tinha no pescoço.

Tirei meus fones de ouvido que pousavam pendurados ali e tive uma ideia um tanto biruta. Vou mostrar como é a música do Brasil. Pincei o samba da Mangueira e, um por um, pus nos ouvidos deles um pouco da nossa cultura. Funcionou: todos riram um pouco mais, e logo em seguida comecei a ensinar como se dança samba… A cena foi tão doce quanto curta, pois logo a mãe deles gritou do outro lado do vilarejo: Cubram o rosto, já que o Paulinho filmava o causo.

Pra boa parte dos muçulmanos daqui, uma fotografia pode levar um pouco da sua alma. Um amigo local chegou a me dizer que a mãe se recusou a tirar foto no dia do seu casamento. A coisa é realmente séria. E assim, ganhei pros meus ouvidos também um pouco da cultura deles.

Felicidade se encontra nas horinhas de descuido

Por fim, a cidade em si tem pouco ou quase nada a oferecer, que não servir de base para visitar estes outros vilarejos. Talvez os museus de cinema, com alguns cenários montados dos filmes, que, de tão rotos, são algo um tanto limítrofes entre o interessante e o cafona.

Essaouira

Essaouira é uma cidade portuária a oeste do Marrocos e um antigo entreposto comercial português do tempo das navegações. Por isso, logo à entrada da cidade existe uma fortaleza de observação ao estilo dos “gajos” onde foram filmados trechos da série (que eu nunca assisti) Game of Thrones.

A cidade em si, apesar da arquitetura graciosa, foi transformada em um imenso mercado de quinquilharias, o que quebra um pouco o charme da visita. Pra mim foi bem mais prazeroso o tempo que fiquei no porto propriamente e suas centenas de barquinhos azuis. Ver a vida passar ali é especialmente divertido: pescadores, distribuidores, gente comum que aparece por ali pra comprar seus pescados… As milhares de gaivotas bombardeando a todos e seu vôo em direção às ruínas em uma ilhota a poucos metros da costa…

No caminho pra Essaouira o tour parou em uma região peculiar de produção de derivados de Argan, a castanha famosa do Marrocos. Por ali, vimos uma árvore peculiar, um “pé de cabra”… Pelo que descobri na internet, as cabras sobem nas árvores de Argan pra comer os frutos, o que era considerado pelos produtores como uma praga. Mas com o tempo os agricultores descobriram que o Argan expelido (aka. cagado) pelas cabras poderia ser transformado em um óleo cosmético bastante nutritivo. Assim nascia o mundialmente famoso “óleo de Argan”, que frequenta os salões de beleza do Brasil.

Claro que hoje em dia o processo de produção do óleo mudou bastante, ja que não é possível manter uma escala industrial de cocô de cabra.

Pra lá de Marrakesh

Difícil escrever sobre Marraquexe sem ficar perdido nos pensamentos. Talvez seja o vício dos pés, que não conseguem caminhar nas ruas da Medina duas vezes pelo mesmo caminho: As vielas são labirínticas como as ideias e sensações sobre a cidade. Um lugar que precisa ser visitado com o espírito relaxado e todos os sentidos atentos.

Logo no começo da viagem, conheci uma guria marroquina, estudante de engenharia, que disparou: O Marrocos de verdade está dentro da Medina. Dos muros pra fora, tem uma cidade moderna como qualquer outra. Não perca seu tempo. Se quer saber o que é minha cultura, apura os sentidos nessas vielas. Foi o que fiz.

Os cheiros da Medina atiçam mesmo alguém que, como eu, não tem o olfato muito desenvolvido. A infinidade de pós e temperos se espalha em cores mas chegam antes ao nariz, numa mistura bagunçada mas sinestésica. Os odores acentuados das azeitonas ou dos couros sendo curtidos, os churrasquinhos e escargôs da praça central, tudo parece gritar por atenção.

Por outro lado, gastronomicamente falando a cidade rende boas fotos, mas não muito mais que isso. Os temperos mil, que se espalham pelo mercado e enchem de odores as ruas, parece não serem muito usados da porta da cozinha pra dentro. Os pratos se resumem, em 90% dos restaurantes, a Tajine e Cuscus. Ambos um tanto sem graça, com raras exceções. Mas, por outro lado, os pães são espetaculares, pelo sabor e pelo preço (cerca de 30 centavos de Real), como as adocicadas tangerinas, que parecem querer dormir de conchinha com sua língua.

As ruas são uma confusão integral, 24/7. A qualquer instante que se caminhe pelas vielas estreitas ou que se corte ao acaso a praça principal, sempre vai haver um exagero de gente convivendo por ali. Segundo um guia que conhecemos, é um dos muitos aspectos da “Etihad” marroquina. As pessoas não saem de casa para fazer coisas. O que elas querem é conversar, conviver. As mulheres comprando frutas e verduras, os homens sentados conversando com seus chás, as mesquitas entoando cânticos a Alah do alto das minarites…

Dizia o guia que é uma obrigação social ir ao menos uma vez por dia à igreja. Não necessariamente por Deus, já que você pode rezar no conforto da sua casa (o que é melhor, já que você vai dar o bom exemplo aos seus filhos). Mas ir à igreja rezar todos os dias na mesma hora é um jeito de rever os amigos diariamente. Assim, se algo acontecer a Abdul (uma doença, por exemplo), logo Ahmed saberá e fará todo o necessário para ajudar.

O mesmo vale para os Hamams, os banheiros públicos. Dizia ele que há um ditado árabe que conta: Se você não tem nada pra fazer, vá tomar banho com os amigos. Isso porque o banho nesses lugares é uma experiência de horas, que os marroquinos procuram fazer pelo menos uma vez por semana. Três salas conectadas com diferentes temperaturas, onde se refresca e esfolia a pele, para em seguida relaxar em uma sauna. Como todas as salas são comuns, frequentar o mesmo hamam significa fazer e manter amigos.

Além das conversas, atiçam os ouvidos os artistas de rua. As flautas dos encantadores de serpente, a música étnica dos grupos da Guiné, os contadores de história e seus alaúdes e tambores, os cascos dos cavalos… Frustra apenas não entender o que se diz ou que se canta. Mas é espetaculoso ver tudo isso acontecendo ao mesmo tempo de um jeito tão harmonioso quanto caótico.

Reluz ainda o brilho dos metais, lanternas e cerâmicas pintadas que se espalham pelos “souks”. E tudo isso é envolto nos tons ocre das paredes das casas, mesquitas e muralhas. A arquitetura de linhas retas e matematizadas emoldura uma vida exótica e alegrememente vivida nas ruas da Medina.

Por outro lado, não dá pra ser desonesto e deixar de falar do pior aspecto do turismo em Marrakesh: O assédio. Vendedores, artistas de rua e vadios estão sempre em busca de um trocado a mais, o que torna qualquer caminhada pela cidade um tanto incômoda.

O tempo todo alguém quer ganhar algo em cima de você, mas a maioria das situações podem ser superadas simplesmente ignorando (infelizmente não dá pra sorrir e dizer não, esse é o melhor caminho pra deixar eles no seu pé por muito tempo). A estratégia menos simpática, porém, pode render algumas agressões desnecessárias. Por duas vezes fui chamado de racista por algum jovem marroquino que estava tentando me “vender ajuda” simplesmente porque não dei atenção à abordagem dele.

Fotografias dos artistas de rua, nem pensar, a não ser que você queira deixar alguns euros no chapéu do sujeito. E se inventar de tirar uma “discreta” foto escondido, tenha certeza que ele vai acabar vendo (ou algum dos seus ajudantes) e indo até você: Ou paga ou apaga.

Por falar em fotografias, também é importante tomar cuidado com elas por outro aspecto. Para muitos Muçulmanos as fotos são um jeito de levar embora um pouco da alma do fotografado. Por isso, uma foto inocente de uma situação corriqueira pode ser interpretada como uma ofensa pelo retratado, e isso vale também para fachadas de loja.

E assim Marrakesh organiza sua vida tão pacata quanto agitada. As motocicletas cortando em zigue-zague as conversas de comadre, a sinceridade dos abraços e beijos trocados, a fila na casa de sucos, a expressão sofrida no rosto dos mendigos… Uma imensidão de sensações que ficam guardadas com carinho ao lado daquela lembrança do por do sol na praça, instantes antes do batuque dos rituais começar a soar. Shukram.

Table Mountain

A Table Mountain é uma das maiores atrações turísticas da África do Sul e uma das 7 Maravilhas Naturais do Mundo, segundo uma eleição mundial que aconteceu há alguns anos atrás, organizadas por uma associação Suiça (a mesma que elegeu o Cristo como uma das 7 Maravilhas do mundo moderno). Esta lista tem outros dois conhecidos nossos, que é a Floresta Amazônica e as Cataratas do Iguaçu. Mal acompanhada, portanto, não está.

Ela tem esse nome porque a montanha principal é razoavelmente plana em seu topo, pareando com alguns cumes que a circundam. Curiosamente um desses picos chama “Pico do Diabo”, exatamente ao lado de outros picos chamados… os 12 Apóstolos.

Para subir ao topo da Table Mountain pode se tomar um bondinho (R$ 60,00 ida e volta) ou uma trilha de dificuldade média, que levam ambos ao final da jornada: uma vista bastante espetaculosa da Cidade do Cabo. Com alguma sorte, a mesa não estará posta. Explico: é razoavelmente comum que o topo das montanhas sejam cobertas com uma neblina espessa, que estraga um pouco o passeio. Essa neblina eles chamam de: Toalha de mesa.

Caso, como eu, você passe por isso, uma alternativa é tomar um chocolate quente e comer uns bolinhos por um tempo na cafeteria. É bem possível que a névoa vá embora em algum tempo.

É interessante reservar umas três ou quatro horas pra montanha. Além da fila de aproximadamente uma hora (que pode ser abreviada se você comprar bilhete adiantado), acho que faz parte da experiência sentar uma das pedras lá em cima e ficar observando as formas da cidade do Cabo. Pra mim, uma hora ou mais foram necessárias só pra fazer isso. Além, há algumas rotas (eles chamam de Trilha… eu não consigo chamar isso de trilha) pelo topo da montanha. Caminhos muito tranquilos de onde se experimenta vistas diferentes da cidade e das montanhas em volta, que podem tomar até 1h.

Signal Hill

O por do sol do Signal Hill foi um dos meus pontos prediletos da cidade, por isso voltei no dia seguinte. Uma dica importante é levar uma cesta de Pic Nic lá pra cima. Há um espaço confortável pra sentar e olhar o porto e gastar um fim de tarde calmo. Com um pouco mais de preparação, recomendo passar numa “liquor store” e levar uma garrafinha de vinho, já que não é todo supermercado que vende Vinho na Cidade do Cabo e é estritamente contra a lei vender vinho para um transeunte nos restaurantes: Você tem que consumir no próprio local… Além disso, lá em cima tem apenas uma barraquinha, de um senhor que vende café e chocolate.

Nos dois dias que fui, um domingo e uma segunda, notei que o lugar é majoritariamente frequentado por brancos (turistas, expatriados e locais de classe média), e isso faz parte das coisas que me incomodaram na cidade. Ainda que o Apartheid tenha sido vencido há algumas décadas, é escandaloso como os públicos nos diferentes lugares da cidade é etnicamente distinto.

No segundo dia, em vez de optar pelo ônibus da CitySightseeing, tomei um Uber lá pra cima (R$ 15,00 desde Camps Bay). A ideia era ter mais liberdade de ficar um tempo depois do por do sol e conseguir umas imagens noturnas da cidade. Se é sua praia, recomendo… 

Curvas

A vida é uma confusa sucessão de curvas. Umas abertas e bem sinalizadas, que a gente contorna com segurança, quase distraído. Outras agudas, estreitas, que a gente mal sabe se sobrevive ao final do ângulo. Nem sempre se pode escolher o caminho, mas quando é possível prefiro o caminho mais fácil.

Parece covarde, mas prefiro a tranquilidade. Não me importa se o caminho é mais longo ou se a gasolina não vai deixar chegar até o destino. Mas quero a calma de poder olhar pela janela a todo instante. De não ter que desligar o rádio em momento algum ou não ter que interromper as conversas pra manter os olhos firmes nos carros que vêm na contramão.

Quanto mais aberta, melhor. Quanto mais sereno, mais vivo. Chegar, nunca se chega mesmo. A gente anda mais ou menos, mas a morte sempre nos pega antes da hora. É da nossa ambição sempre buscar novos destinos. Por isso, a jornada nunca tem fim. Sempre acaba prematura. E se a paisagem do caminho não for vivida, meu amigo, nada dessa estrada vai ter valido a pena.

Sul da África

Fiz esse tour em novembro de 2016 e compartilho aquilo que de melhor vi por lá para os que têm interesse em seguir a mesma rota. Namíbia – Botswana – Zimbábue, com a companhia Nomad Tours.

_dsc0093

Acampar pela primeira vez na vida foi uma das minhas resoluções de ano novo. A lista, como a de todos, é grande e, aos 45 do segundo tempo, mal passei da metade. Mas este objetivo pontual foi alcançado na viagem à África. A passagem apressada por Cape Town foi apenas uma introdução ao que efetivamente estava por vir, me juntei a um grupo de outras 23 Pessoas que decidiram viajar pouco mais de cinco mil quilômetros pelo sul do continente. Quatro países (África do Sul, Namíbia, Botswanna e Zimbábue) e um quinquilhão de paisagens bacanas.

A viagem deles começou um pouco antes, também em Cape Town. Mas meus dias de férias não cabiam nos 21 do tour completo. Assim, tomei um atalho e encontrei o grupo em Swakopumund, Namíbia.

A companhia responsável pelo meu tour foi a Nomad Tours e eles organizam excursões regulares pelo interior da África. O mais regular é este que me juntei, mas existem outros tantos mais ao norte, ainda que com menos frequência. Eles provêem duas possibilidades de tour: com estadia em hotéis ou em barracas. No geral, os lugares de hospedagem são basicamente os mesmos, o que varia é se você usa ou não a estrutura já existente por ali. Optei pelo camping, sendo que a Nomad providencia as barracas.

A rotina diária inclui uma divisão de tarefas entre os integrantes do grupo. Em sistema de rodízio, todos os dias 4 pessoas ficam responsáveis pelo auxílio na cozinha. A Nomad fornece os ingredientes e os viajantes cuidam do preparo e arrumação de três refeições diárias. Além disso, o guia é responsável por fiscalizar as regras rígidas quanto a montagem e desmontagem de barracas, além dos horários pouco ortodoxos de início de cada jornada. A hora de acordar variava entre 5 e 7 da manhã, sempre com a obrigação de desmontar todas as barracas e guardar todas as malas no ônibus antes do café da manhã.

O público no tour que tomei era essencialmente alemão, além de alguns poucos europeus de outras nacionalidades, uma coreana e eu. Mas imagino que isso foi porque estas datas foram anunciadas como contendo um tradutor Inglês-Alemão, mode que não sei dizer que essa é a composição normal da tripulação. A viagem é feita em um caminhão militar alto, um tanto desconfortável, mas com o necessário pra uma jornada tão longa.

A Namíbia é um destino de turismo pouco conhecido, mas com uma boa dúzia de coisas interessantes a se visitar. Algumas até um tanto inesperadas, como uma das maiores concentrações de focas do mundo, numa península estreita entre os lagos salgados e o oceano Atlântico chamado “Pelican Point”. Aproveitei meu primeiro dia na em Swakopmund para visitar essas focas, ainda sem os demais tripulantes da excursão.

Alguns trechos do País acabam por me lembrar um outro deserto um pouco mais comum pra nós, o do Atacama. No caminho pra Pelican Point, o posto das Focas, há uma imensa concentração de Flamingos também. Segundo o guia, são 65.000 aves que passam o ano naquela região, migrando sazonalmente para a reserva de Etosha para procriar.

No turno da tarde, me embrenhei em um 4×4 com algumas turistas russas pelas dunas de Sandwich Harbour, uma antiga região micro-industrial alemã que foi soterrada pelas areias das dunas móveis. Além da beleza das próprias dunas que margeiam a costa, algumas imagens bem cênicas são vistas no pouco que sobrou dos edifícios que existiam ali há algumas muitas décadas atrás.

Spitzkoppe

Partindo de Swakopumund já com a excursão, minha primeira parada foi em Spitzkoppe, uma formação rochosa vulcânica no norte do País. Foram muitas horas de estradas de terra sacolejantes até chegar ao acampamento, no interior do parque. Além da beleza cênica do lugar, há também alguns resquícios de pintura rupestre dos primeiros habitantes da região, os “bushmen” ou povo San.  À noite, um churrasco na fogueira do acampamento, com céu ultra-estrelado e histórias de acampamento.

Ouitjo

De Spitzkoppe partimos para Ouitjo, cidade ainda mais ao norte da Namíbia, perto de onde fica um grupo de indígenas da tribo Himba. Os Himbas são povos semi nômades, que vivem entre o sul de Angola e Norte da namíbia, sendo eles de origem Bantu.

Os Himbas têm um visual bastante pitoresco, cobrindo corpos e cabelos com uma solução marrom, que tem entre outros objetivos espantar os muitos insetos da região. Além da pele que parece coberta de lama, as mulheres também têm como traços característicos os diferentes arranjos de cabelo, que servem para deixar claro a qualquer desavisado se: 1) a menina já é mulher; 2) se a mulher já é casada; 3) se a mulher já tem filhos.

Etosha

De Ouitjo partimos pra aquele que é um dos destinos mais importantes da jornada, o parque Etosha, no norte da Namíbia, onde passaríamos os próximos dois dias.

O Etosha tem uma área de aproximadamente 22 mil km2, um quarto dos quais aberto aos chamados “Game Drive”. Esses jogos são na verdade a perambulação livre (em carros, sempre) pela reserva em busca de avistar os animais. Etosha tem quatro dos chamados “Big 5”, ou os cinco animais mais difíceis de serem caçados. A lista contém: Leões, Elefantes, Leopardos, Rinocerontes e Búfalos. Destes, apenas os últimos não podem ser encontrados no Etosha.

Dentro do parque há cinco opções de hospedagem em campings/hotéis de tamanhos e estrutura razoavelmente semelhante. Além das acomodações propriamente ditas, há piscina, bar/restaurante além de um “Waterhole”, que é uma pequena lagoa na qual se pode passar a noite observando os animais que vêm em busca de água. Um prêmio aos pacientes, já que é possível ver bem de perto alguns animais como leões e rinocerontes, principalmente no meio da madrugada.

No caso da Nomad, os tours são feitos no próprio caminhão da empresa, aquele que percorre o trajeto completo. A desvantagem talvez seja que, por ser grande, ele faz mais barulho que um carro normal. Não sei até que ponto isso pode afastar alguns animais, mas me pareceu mais discreto passear em um 4×4. Por outro lado, o caminhão é mais alto, o que facilita a visão de animais que estão um pouco mais distantes.

Deixamos Etosha em direção a Windhoek, a capital da Namíbia. Talvez pelo pouco tempo que se fica na cidade, talvez por não ter mesmo muito o que fazer, acabamos usando a cidade apenas como ponto de descanso. Nesta noite, assim como na primeira e na última, mesmo aqueles que optaram pelo tour em barracas podem dormir no quarto de um hotel bastante confortável. Além disso, visitamos um museu que conta a história do SWAPO, o antigo movimento guerrilheiro (hoje partido político no poder há muitos anos) que conquistou a independência da Namíbia. O museu foi construído por engenheiros da Coreia do Norte e é uma versão mais pobre do Museu da Guerra Norte Coreano, provavelmente um dos museus mais bonitos que já vi na vida. Assim como o primo oriental, o museu é uma imensa estrutura de propaganda política, contando uma versão completamente enviesada da história local.

Ghanzi

A passagem por Botwanna começou hospedando-se em uma tribo bosquímana na reigão de Ghanzi. Os Bosquímanos são um dos primeiros grupos da nossa espécie e têm hábitos ligados à caça e à coleta de produtos da natureza, e foram uma das experiências mais interessantes da viagem pra mim. Um tanto pela língua, que tem uns estalos bem diferentes entre os fonemas, e um tanto porque tivemos a oportunidade de passar uma manhã embrenhado com eles pelo mato em busca de folhas, frutos e raízes que fazem parte dos hábitos médicos, têxteis e alimentares da tribo.  À noite, ainda, mostraram pra nós um pouco de algumas danças e rituais tradicionais da cultura deles.

O turismo em tribos e aldeias é um assunto bastante controverso e que rende um bocado de discussões. Eu mesmo não cheguei a uma conclusão muito clara sobre o assunto, mas tendo a achar que é uma experiência válida que permite ter um tanto de contato com a cultura daquele povo, ao mesmo tempo que, por fornecer algum subsídio material, permite a sobrevivência daquelas tradições. Mas também entendo (e fico um tanto confuso) com os argumentos de quem vê nisso uma espécie de espetacularização (zoologicação) do ser humano.

Okavango

Seguimos viagem em direção ao Delta Okavango. A região lembra bastante o Pantanal Matogrossense, sendo uma imensa planície alagada, formada pelas águas que correm desde as terras mais altas de Angola. Ficamos dois dias no Delta, instalados em um acampamento especial no coração do pântano. Não sei se fomos azarados ou se, de fato, não há muitos animais terrestres a ver, mas o fato é que vimos alguns poucos hipopótamos, sempre a distância considerável, e dois ou três crocodilos (ou melhor, dois ou três pares de olhos de crocodilo). Por outro lado, foi um dos momentos mais relaxantes da viagem, com passeios de barco e canoa pelos canais formados pelos hipopótamos, assistindo uma imensidão de aves diferentes que batem asas por ali.

Chobe

Do Okavango fomos em direção ao Parque Chobe, penúltima parada da viagem. Ao contrário de Etosha, o Chobe se estende ao longo de um rio imenso (Cuando), que faz a fonteira entre Botswana e Namíbia. Assim, não é necessário ir atrás dos “Waterholes” em busca de animais, já que eles estão mais espalhados pelo parque. Isso também é mais propício à presença de animais mais afeitos à água, como hipopótamos, elefantes e búfalos d’água.

Nos hospedamos em um camping em Kasane, de onde saiam nossos passeios de observação de animais, tanto terrestres quanto aquáticos. 

Chegando ao Zimbábue

A última parada da viagem foi o complicado Zimbábue. Um país extremamente pobre e que vive sob a o controverso governo de Mugabe. Entre as muitas coisas estranhas do país, o fato de eles terem desistido de ter uma moeda local. Depois de anos de hiperinflação, que levaram o país a ter notas de um trilhão de dólares zimbabuenses, eles desencanaram e passaram a circular no mercado notas de outros países (como o Dólar americano e os Rands sulafricanos).

A passagem pelo Zimbábue foi bastante curta (dois dias) e essencialmente dedicada às impressionantes cataratas Vitória (que são divididas entre o Zimbábue e a Zâmbia). Fomos na época das secas, o que afastou aquelas visões mais clássicas das cataratas repletas de água. Mas, por outro lado, o volume mais baixo dava espaço pros cânions, igualmente impressionantes.