Champmans Peak Drive

Tirei o desaniversario pra fazer algo pela primeira vez (sim, clichês). Aluguei uma dessas bikes de corrida e me aventurei pela champmans peak drive, uma via costeira cênica construída entre Hout Bay e o Cabo da Boa Esperança (sim, o do Gigante Adamastor).

Acho que foi a via mais bonita que eu já empurrei (cof cof) pedalei uma bicicleta. Na verdade, o cansaço da subida (e o medo de ser atropelado naquelas vias) me fizeram caminhar uma parte boa do tempo. Melhor pra mim, que consegui ver quão bonito era aquele lugar!

Cape Town – Dia 1

Como a passagem por Cape Town é curta, resolvi vencer o preconceito e embarcar em um desses ônibus “hop on, hop off” da CitySightseeing, uma empresa onipresente em quase todos os destinos turísticos do mundo. A experiência foi dez vezes melhor que o esperado. Não sei se em outras cidades tem o mesmo nível de qualidade, mas trajeto, frequência e estrutura do ônibus foram excelentes.

No caso de Cape Town, há 3 linhas regulares que circulam pela cidade o dia todo, cobrindo as principais atrações locais. Optei por passar o dia na linha Azul, para ter uma visão geral da cidade e passar pelos jardins de Kirstenbosch, o Jardim Botânico deles. Além de uma área verde imensa, boa pra caminhadas e picnics, o jardim tem também uma área dedicada às Proteas, uma flor típica bastante diferente.

A Protea, na verdade, é um gênero de flores, que por essas bandas significa esperança. Já no Aeroporto da Cidade do Cabo há algumas referências à planta.

De dentro do parque há uma trilha que leva à Table Mountain (ao que li, nível de dificuldade médio), chamada Skeleton Gorge.

Passado o parque, segui margeando a costa da Cidade do Cabo, passando pelos principais bairros turísticos, especialmente as praias mais famosas de Camps Bay e Sea Point. As vistas de cima do ônibus são bastante bonitas e em alguns trechos o motorista inclusive para para melhores fotos.

É possível descer também em uma favela chamada Imizamu Yethu, que no dialeto local significa algo como “o poder da luta”, e se juntar a alguns dos passeios organizados pela a associação de moradores como forma de aproveitar o fluxo de turistas por ali.

Existe um outro ônibus extra (leia-se: pagando um pouco a mais) que te leva para ver o por do sol em Signal Point. As vistas lá de cima são realmente bonitas, mas fui especialmente azarado dessa vez. O sol se escondeu entre nuvens e não rendeu nada de muito espetaculoso. De todo modo, vale bastante a pena subir com uma sacola de picnic e uma garrafa de vinho, se juntando às centenas de pessoas que sobem ali pra ver o por do sol.

Akihabara

Tókio é a Roma Nerd. Todo garoto espinhento já sonhou em se mandar pra lá um dia, pelos animês, pelas esquisitices ou pelas fantasias tecnológicas. Um dos bairros mais simbólicos de todo esse “fervo” é Akihabara.

As imensas lojas de departamento são das principais atrações do bairro. Andares e mais andares de novidades (ou não) úteis (ou não) para resolver (ou não) todos os problemas da sua vida. Para quem consegue aturar as horas a fio do sistema de som repetindo o jingle da loja, é difícil sair de lá sem comprar ao menos um produto revolucionário. Há boatos de pessoas que conseguem morar nos muitos andares da Yodabashi.

Pros mais intrépidos e aventureiros, tem os muitos (e muitos) prédios dedicados aos fliperamas. Templos imensos com toda uma variedade de máquinas de jogos muito absurdas. Imagine, por exemplo, uma mistura de PES com Magic: The Gathering, jogada numa máquina de arcade. Ou as mais inusitadas máquinas de dança.

Pros meninos mais púberes, tem também as gigantescas (sim, tudo lá é grandioso, acostume-se) sex shops e maid-cafés. Ainda quero escrever um posto mais longo sobre as piras sexuais no Japão, mas sem dúvidas o bairro Nerd concentra boa parte dos lugares mais bizarros que já vi na vida, quando o assunto é sexo.

Corinthiano sobe sem fila!

Era 2012, o ano de uma das mais fantásticas viagens que já fiz na vida: Tókio. O contexto que me levou à Roma Nerd foi o Timão. Sempre sonhei conhecer o Japão e a oportunidade de viajar pra lá numa época tão única funcionou como um catalizador desse desejo. Ver como 30.000 Corinthianos se comportam num ambiente tão… incomum… era um atrativo tão grande quanto o jogo em si. Por isso mesmo comprei a passagem antes mesmo de ter os ingressos.

E uma das histórias mais curiosas desse “Colóquio Shinjuku-Itaquera” aconteceu na Tókio Skytree, o Banespa deles.

A torre fica próxima à margem do Rio Sumida e é a segunda mais alta do mundo. De cima, vê-se um dos pores de sol mais bonitos que já encontrei, com as formas de Fuji-San e as luzes de uma cidade imensa que começa a anoitecer. Por isso, escolhi o fim de tarde como horário pra subir os seiscentos e tantos andares da torre e poder fotografar o Por do Sol daquela altura toda. O problema é: Eu e a torcida do Corinthians inteira (literalmente, no caso).

Chegamos na torre por volta das 16h, com o sol de inverno se ponto cerca de 40 minutos depois disso. Ingênuo, eu achei que isso seria tempo suficiente para ver ambos: O dia e a noite. O problema é, não contava com uma fila de estimadas 1h30 para subir. Uma ordeira, silenciosa e civilizada fila japonesa, cheia de atendentes solícitos e simpáticos…

Um desses atendentes quis achar assunto conosco. Viu que estávamos em 3 pessoas, conversando esporadicamente com um grupo de outros três… Sabe-se lá porque ele resolveu perguntar em quantos estávamos (6 no caso), e emendou dizendo: Que pena, fossem 50 (CINQUENTA) vocês poderiam subir sem fila, pelo elevador de grupos.

Mas, amigo, aqui é Corinthians não é Kashima Anthlers! A resposta não demorou 30 segundos pra vir:

“Aê Corinthiano sobe sem Fila”!, gritei pra multidão.

5 minutos depois éramos um grupo de mais de 50 corinthianos prontos pra subir, mas com um grande problema a ser resolvido: Todos teriam que pagar para uma só pessoa, que se encarregaria de comprar o tícket do grupo todo (regras da casa). Mas, para os olhos atônitos do japonesinho que me “deu a ideia sem querer”, tudo deu certo e eu consegui tirar a foto desse por de sol.

 


 

Pra quem quiser pular as filas mas não tem toda uma Nação Corinthiana do seu lado, um truque útil é comprar os bilhetes com antecedência. Dizem que funciona tão bem quanto =)

Próximo da Tókio Sytree fica o templo de Sensoji, o mais antigo templo budista do Japão, construído em homenagem à deusa da Misericórdia. Os odores de insenso e os sons dos arredores estão entre as memórias mais bacanas que tenho do país.

Também por ali perto fica a rua Kappabashi, onde se pode comprar as impressionantes comidas de plástico do Japão

Os cinco cubanos

Das experiências que tive em Cuba, uma das mais curiosas foi esta da foto.

Fiquei preso por algum tempo em uma prisão improvisada no Museu de Arte Contemporânea de Havana. Fui algemado, acorrentado, mal tratado pelo carcereiro, revistado enquanto ouvia ordens arrogantes por um auto-falante (língua pra fora, faz três agachamentos, levanta o pé esquerdo, o pé direito… etc.). Por fim, fui jogado na solitária por cerca de 15 minutos.

Não fiz nada de errado, e a ideia de quem criou aquela cadeia era justamente essa. Era uma instalação que tinha um objetivo político de enfatizar o tratamento dispensado a 5 Cubanos que foram presos nos EUA por terrorismo (não entendi direito, mas acho que eles não estão em Guantânamo. Dois estão em Miami, os outros já foram liberados).

Mas fiquei pensando em uma instalação artística desse tipo aqui no Brasil. Isso porque não foi difícil perceber que aquela cadeia deles era bem confortável perto da situação dos nossos presídios, inclusive em relação aos familiares que vão visitar seus parentes, submetidos a uma série de revistas humilhantes…

Enfim… só pensei…

 

“A grande Roubada”

Ou “Pequena crônica sobre esporte e sociedade cubana”, o que lhe parecer menos pretensioso.

Para a maioria de vocês, o que eu vou contar agora pode ser a maior “roubada” desta viagem (talvez de todas as viagens que eu já fiz). Um programa de índio dos mais desastrosos. Mas para mim, valeu cada minuto (e os poucos centavos) que gastei nessa aventura esquisita. Vou contar em texto, porque as fotos não conseguem explicar tudo.

Em Cuba pouco se joga futebol. Quando se fala do esporte, normalmente é para citar os times espanhóis. Aqui, a paixão nacional é um jogo que nunca entendi direito, o Baseball. E por uma sorte minha, cheguei aqui no começo do playoff final do “Cubanão”. Em lados opostos, Piñar Del Rio X Matanzas.

Assisti ao terceiro jogo dos playoffs em um bar no dia em que cheguei em Havana. Meu primeiro mojito foi assistindo a esta partida em um bar turístico, vazio por dentro, mas com cerca de 40 pessoas se engalfinhando na janela para ver a partida. Do lado de dentro, alguns poucos turistas e um segurança fanfarrão, torcedor do Matanzas, que fazia caras, bocas e danças curiosas a cada jogada. Venceu Matanzas naquele dia, perdeu os dois dias seguintes, e trouxe a reta final para o seu estádio com a desvantagem de 3×2.

Mesmo sem entender nada de Baseball, fiquei me coçando para se pagar alguns CUCs a um taxista que me levasse à província vizinha, cerca de 100Km de Havana. Durante o café da manhã, comentei com o dono da casa onde estou hospedado que andava com esse desejo. Ele, um senhor de cerca de 60 anos, militar aposentado, geógrafo de formação, contou que na verdade era nascido em Matanzas e que estava acompanhando apreensivo a série (já que aqui normalmente se torce pelo time da sua própria província natal).

Disse ainda que apesar de acompanhar diariamente os jogos de baseball (estamos falando de partidas de 3 horas de duração, que acontecem quase todos os dias), há muitos anos não via um jogo do Matanzas no estádio e que nunca tinha visitado o “recém” construído estádio do seu time.

Dali a um tempo me disse: Vamos juntos ao jogo? Tinha apenas dois poréns. O primeiro: o jogo final seria à noite, por volta das 19h. Assim, não seria possível voltar no mesmo dia. Teríamos que dormir na casa de seu irmão, outro Matanzero. O segundo: Não queria contratar um taxista para isso. Teríamos que fazer “como um cubano”, com todas as dificuldades que isso implica.

Explico: O Taxi nos custaria cerca de R$ 140,00, preço que não é barato, mas gastamos mais que isso em ingressos quando vamos a jogos bem menos importantes do Corinthians, certo? Ocorre que o salário médio de um Cubano é cerca de R$ 70,00. Nem mesmo o salário máximo chega a esse valor. Obviamente, portanto, essa opção seria somente para turistas.

Pois bem, aceitei, mesmo sem entender direito como seriam todas as dificuldades do “cubano” para ir a Matanzas. Deixei para descobrir no dia seguinte, um tanto quanto ansioso para assistir à final do campeonato cubano de baseball!

Saímos de casa por volta das 11 da manhã e tomamos um “Taxi coletivo” até o Parque central. Apesar do nome, esse transporte não tem muito de nobre. É como uma lotação. Particulares andam pelas ruas com uma placa de “Táxi”, seguindo o mesmo trajeto dos poucos e lotados ônibus municipais. Cobram algo como R$ 1,00 por passageiro, que são transportados nos seus carros-museu (uma parte considerável são carros americanos da década de 50, outros são Ladas russos da década de 60-70) ao som de umas salsas modernas, embriagadas da popice norte-americana. Para tomar um desses Táxis não se faz qualquer cerimônia: é só encostar na calçada e fazer sinal que em menos de 10 segundos uma frota inteira de carros pára para tentar ganhar um trocado.

Chegando ao Parque central, Baleiro me levou ao primeiro ônibus que tomei em Cuba. Me apresentou orgulhoso: Este é o transporte público mais barato que você vai andar em toda sua vida: 0,40 Pesos Cubanos (ou R$ 0,01, sim um centavo, é isto que custa o transporte público oficial em Cuba, o que ajuda a entender como se vive com um salário tão baixo).

O Ônibus, por si, é um conto inteiro. Desde o velho lendo o Granma, ao motorista que gritava insistentemente para os passageiros darem “um passinho pra trás”, para caber mais gente. O bi-articulado estatal, que levava cerca de 5 pessoas por metro quadrado, estava todo decorado com adesivos, que iam desde a Maçã da Apple (tem muitas aqui, curiosamente) a uma solitária bandeira brasileira acima do retrovisor. Tinha também algumas frases de duplo sentido, que só consegui entender porque o Baleiro me explicou, depois de uma longa discussão, com os passageiros que dividiam o mesmo metro quadrado que nós, sobre a morfologia e a etnografia da palavra “Kimba” (Sim, é impressionante como as pessoas aqui são cultas).

O Ônibus nos levou naquele pacote humano por cerca de 40 minutos até a saída da cidade de Havana. Ali descemos e fomos até a beira da estrada, tentar tomar uma carona paga. A primeira opção que apareceu foi uma espécie de “fretado” que levava trabalhadores para o turno da tarde em alguma cidade do Leste. Parou, contou quantos bancos vazios tinha e gritou para o aglomerado de “caroneiros” que estava naquele ponto estratégico da estrada: 8 sentados, 10 de pé.

Começou então a briga do povo para subir no ônibus. Havia muito mais que 18, por isso eu e Baleiro ficamos de fora. Mas deu pra perceber que ainda que o motorista não tenha falado em nenhum momento o valor do “transporte”, havia uma tabela de preços implícita, já que todos os que subiam no ônibus lhe davam como que R$ 1,00, dinheiro devidamente embolsado pelo “jofer”. (outra ajuda para entender como se vive com um salário tão baixo).

Decidimos nos adiantar à turma de caroneiros e andar cerca de 200 metros adiante, tentar pegar os carros antes que chegassem àquele aglomerado. Deu certo: Em 15 minutos apareceu um 4×4 russo, de uma companhia estatal energética cubana, conduzido por um baixo executivo acompanhado de sua esposa. Ocupamos 2 dos 3 lugares vagos (o terceiro ficou com um senhor de 50 e poucos anos, aparentemente músico) e partimos em direção a Matanzas.

O motorista viajava a trabalho no carro estatal, por isso recusou de pronto quanto tentamos pagar os R$ 2,50 cada (o valor implícito dos carros é maior que o do ônibus, obviamente). Mas não recusou porque não queria, recusou para que não vissem ele recebendo dinheiro por dar caronas. Tão logo nos afastamos daquele aglomerado, recebeu “con mucho gusto” a pequena propina. Vale lembrar: Em Cuba, o salário desse executivo de uma empresa estatal é muito parecido (cinco reais a mais, ou algo assim) com o do motorista de ônibus.

Foram cerca de 2 horas até Matanzas, discutindo matrizes energéticas cubanas dentro daquele chacoalhante carro soviético. A cidade, apelidada de “Athenas Cubana” por conta dos intelectuais que ali nasceram, parecia frenética (considerando a população local de cerca de 110.000 pessoas). Saímos caminhando pelas ruas da cidade em busca de algo minimamente seguro para comer (essa foi uma frescura que eu tive que exigir. Comer em Cuba me parece uma aventura um tanto perigosa. As noções de higiene aqui são um tanto quanto… churrasco grego na praça da Sé).

Chegamos à casa de Seu Irmão, um professor de História, com Doutorado, que vive em uma casa de três cômodos que lembra (bastante) um barraco mais ajeitado na favela. Um dos três cômodos, a sala, era ricamente enfeitado com livros de história, pedagogia e psicoterapia (“su hija”). Conversamos por cerca de 2 horas sobre política internacional (Venezuela, onde trabalhou por alguns anos, Brasil, claro, Rússia, Estados Unidos, e alguns países latino americanos que, por estarem discutindo rápida e entusiasmadamente, não consegui entender do que falavam). Mostrou ainda sua criação de galinhas e seu grande orgulho: Um galo que ganhou o segundo prêmio nacional de beleza galinácea…

Comemos uma fruta bomba, tomamos um café e nos mandamos para o Estádio. Baleiro, que disse que nunca ia ao estádio, não o faz porque acha difícil acompanhar o jogo sem a narração e os comentários. Então, como forma de minimizar o problema, colocou mais esta condição: Teríamos que chegar ao estádio no mais tardar às 17h (duas antes de o jogo começar) para escolhermos um lugar privilegiado. E assim fizemos. Pus o boné que me emprestaram, com um “M” amarelo, bordado e colado à mão pela sobrinha do Baleiro sobre um desenho qualquer que estava ali antes (não existem muitos produtos “oficiais” em um país como Cuba, e também praticamente não existe pirataria em escala industrial… apenas estas pequenas imitações particulares pra uso próprio, como percebi no estádio mais tarde).

No caminho do estádio pude ver o transporte público de Matanzas: Alguns Táxis particulares e muitas carroças (não estou falando de carroças turísticas, como aquelas que se vê aqui ou acolá em Havana. Estou falando de carroças mesmo, com cavalos mal nutridos e bancos bem desconfortáveis). Vi também os torcedores chegando no estádio em caminhões balançantes, muito parecidos com aqueles em que se transportam boias frias. Baleiro me explicou que as empresas estatais (não todas, claro) do campo costumam trazer seus trabalhadores de graça para o estádio em ocasiões como esta. Então, o mesmo caminhão que os leva para cortar cana, trouxe ao estádio “Vitória de Giron”, para assistir à final do campeonato.

Conforme chegavam, amontoavam-se em uma “fan fest” montada na entrada do estádio. Muita salsa, cerveja, malta e frango frito, mas nenhuma garrafa de água mineral num raio de 3 Km. A festa parecia ser organizada de improviso por alguém do próprio estádio, usando como base uma lanchonete de alvenaria no pé da construção, e de som uma caixa solitária de média potência. Alguns torcedores que não tiveram tempo de almoçar corretamente comiam ali mesmo, de pé na balada, um prato de arroz com feijão (e só). Não tirei foto por respeito, mas até “o prato” aqui é exagero de expressão. Alguns comiam de dentro de um saco, como estes de supermercado, usando as mãos de talher. A cena que nós vemos com alguma frequência ali no centrão de SP (comer com as mãos, a partir de um saco plástico) tinha um elemento diferente: Ninguém ali era ou parecia mendigo. Pelo contrário, as pessoas estavam bastante melhor vestidas que o que se vê normalmente nos nossos estádios de futebol.

A entrada para o jogo (lembrando: é uma final de campeonato) custava R$ 0,10 para os Cubanos. Baleiro tentou comprar o meu, mas fiz questão de pagar o “preço de estrangeiro”. Não acho justo aproveitar a estrutura deles ganhando um salário consideravelmente maior… Paguei para entrar o mesmo que 100 cubanos (a fortuna de R$ 10,00). Na verdade paguei por 200 cubanos, já que o estádio tem uma maluquice: Não existe lanchonete na parte de dentro do estádio. Aqui e acolá aparecem alguns ambulantes, vendendo sanduíches de presunto (ao estilo Chaves) ou alguns produtos de origem duvidosa. Preferi não arriscar, sair do estádio para comprar algo industrializado (algo MUITO difícil de encontrar por aqui), e voltar a pagar o ingresso (já que chegamos 2 horas antes e a perspectiva era que o jogo durasse mais de 3 horas).

Dentro do estádio o clima era de festa. Uma minoria de Pinarenhos cantava, dançava e discutia (de um jeito brincalhão, absolutamente inofensivo) com os Matanzeros que dominavam o estádio. O espírito me lembrava os jogos jurídicos. Minto, até mesmo nossos JJEs têm mais rivalidade do que isto. O espírito era um pouco o do InterUSP, algo como San Fran e Farma. E reforçava essa ideia as provocações que eram trocadas: Entendi poucas, mas as poucas que entendi já foram engraçadas. Era o “Só sei falar cantando” levado a uma perspectiva bem diferente, meio salseira, e com todo conteúdo sócio-econômico das duas cidades.

As músicas (e mascotes) de ambos os times realçavam a importância econômica e/ou cultural de sua província para o país. Do lado leste, os grandes criadouros de “cocodrilos” do Sul da Província (segundo Baleiro, apenas para preservação da espécie). Do lado Pinareño, o Tabaco. A torcida deles chegou a trazer uma grande muda curiosa de tabaco (cerca de 1,5m de altura, e eu nem sabia que isso dava daquele jeito), que ficavam balançando para provocar a torcida adversária.

Fato curioso: Em um campeonato comunista, no fundo todos os times são do Estado. Então, não existem diferenças no salário dos jogadores que, em consequência, passam a vida toda jogando no mesmo clube… o time de sua terra natal. Por isso, existe toda uma cultura de torcer pelo time da sua cidade e envolver-se apaixonadamente com essas ocasiões.

Entre uma risada e outra com as provocações das torcidas, Baleiro me explicava o beabá do baseball, já que sequer sabia como se organizavam os “inings”. E me explicou também a respeito do nome do estádio: “Vitória de Giron”. Giron foi uma das duas batalhas que marcaram a invasão da Baía dos Porcos por exércitos mercenários, financiados pela CIA como uma contrarrevolução em Cuba. O nome do estádio já diz tudo: Venceram os Cubanos, ao que parece em 16 de Abril (não lembro o ano). Essas coisas todas surgiam de cabeça, entre uma conversa e outra, na expectativa de que os Matanzeros ganhassem o primeiro título nacional de sua história no “Vitória de Girón”.

Mas quis o destino ser irônico. A chuva veio, molhou o campo e, depois de toda essa aventura, não vi jogo algum. A partida foi adiada para o dia 16 (se a informação do Baleiro está correta, a mesma da “vitória de Girón”) e eu não poderia ficar mais um dia em Matanzas para ver o jogo. Vimos pela TV, e desta vez os visitantes (ou invasores) levaram a melhor. O maluco que levou o pé de tabaco invadiu o campo balançando a muda (junto com outras centenas de Piñarenos, que foram abrigados em uma escola municipal de Matanzas e receberam alimentação gratuita do governo). Mais um detalhe que faz do fato de eu não ter visto a partida um mero aborrecimento sem relevância.

Avareza

Posso te mostrar meu brinquedo de infância? Seu nome é Tomas, e ele me disse que os meninos riam dele porque seu nome era estranho. Correu nos arbustos e trouxe planta. Quebrou o graveto no meio e soprou meia dúzia de bolas de sabão. Riu dos meus olhos espantados.

Tomas é um garoto do interior da Indonésia que cresceu em Pindul. Aprendeu inglês vendo filmes na TV e disse que sonha em conhecer outro país. Mas tem medo das leis estranhas… Por exemplo, uma vez foi pra capital e conheceu uma garota linda que não usava véu. A garota deixou ele pegar nos peitos dela. Mas depois falou que ele tinha que pagar por isso! Ele traumatizou.

Perguntei pro Tomas o que ele gosta de comer. Da Indonésia? Sim. Da Indonésia ele gosta de pato. Mas do mundo todo ele ama McDonalds.

Ele disse que era bom que eu não era cristão. Assim era mais fácil eu virar muçulmano. Mas não se alongou muito no assunto… Preferimos rir das folhas que faziam bolhas e das mulheres que não usam véu.

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Soberba

A festa prometia ser um fracasso de gente grande. Duas dúzias de viajantes sem perfil pra isso, num convés de navio pequeno, exaustos de 3 dias de navegação e sol. Um setlist de músicas antigas, um estrobo especialmente cafona e um tanto de bintangs quentes, a horrenda cerveja indonésia. Todo mundo um tanto acabrunhado, nesse jeito adulto de ter medo de se achar ridículo, sentado de canto, como que ali estivesse apenas por educação. Até que ela começou suas gracinhas.

Sou um sem jeito pra crianças. Desengonçado de corpo e alma, nunca sei o que falar ou como agir com um pequeno. Mas me divirto olhando, meio gauche, suas brincadeirinhas. Filhinha de um casal francês, que viajava com toda família (incluindo vó e tios) no barco pra Komodo. Atarantadinha, corria entre um deck e outro por todo o dia e, como se sua energiazinha não pudesse ter cabo, passava cada minuto das paradas dando suas nadadinhas nos corais, jogando seus joguinhos de bola ou brincando com as conchinhas do mar.

E como quem não aprendeu ainda o que é ser ridículo, começou suas dancinhas sob o colorido das luzes improvisadas. Imita um robozinho. Sai de pulinhos de ponta a ponta. Se repete infinitamente em seus truquinhos de mímica. Monopoliza a pista e os olhares da gente sem jeito. Tira pra dançar a amiga que fez durante a viagem.

As duas tinham uma química tão cativante que olhos desatentos podiam até achar que eram mãe e filha. A suíça (que encontrei ainda em Gili, num primeiro contato de certa antipatia) se mostrou um dos personagens mais iluminados da viagem. Uma mulher de doçura só comparável à de sua companheira de viagem, cuja leveza cativou os carinhos da pequenininha.

Dançavam ridículas, mas divertidas, até criarem uma coreografiazinha bobinha, que fez questão de ensinar a todos os que estavam sentados. E o pedidinho de uma criança sorridente é sempre mais forte que a soberba dos que se acham mais fortes que o ridículo: um a um todos se levantaram e puseram a fazer a coreografia. Os braços em ondas iam e vinham, destravando sorrisos até que os gestos virassem gestinhos. Pois pronto, já estavam todos desarmados.

Aí, até que aquelas musiquinhas já não eram tão ruins. O barquinho de inadequado virou exótico. E as Bintangs… bem, essas continuaram sendo bintangs. Mas a festinha, essa foi fantástica, mesmo que poucos minutos depois de dar início a tudo a pequenininha, como cabe aos pequenininhos, tenha ido dormir.

Como é minúsculo quem tem medo de se achar ridículo.

Por que Indonesia?

A ideia de viajar para a Indonesia surgiu depois de muitas conversas com viajantes mais experientes que eu. Quando se vaga pelos países alheios a gente sempre encontra com pessoas que estão dedicando a vida exclusivamente a viajar. Às vezes por pouco tempo, às vezes sem prazo certo pra terminar. É um tipo de viajante muito peculiar, normalmente gente que surta com o trabalho ou que acabou de terminar a faculdade, e que decide sair sem rumo pelo mundo.

Essas pessoas normalmente tem um portfólio de países tão grande no currículo, que consegue comparar experiências e chegar em peculiaridades que podem fazer uma viagem especial.

Nas conversas de mesa de bar que tive com gente com esse perfil, sempre perguntava: Qual o melhor lugar pelo qual você já passou? Claro que as respostas eram difusas, e que a experiência de cada um é diferente da do outro. Mas a Indonésia sempre aparecia com uma frequência grande nesses papos de boteco. Isso me encorajou a pesquisar mais sobre esse país que, confesso, nunca tinha pensado antes em visitar.

Pois bem, ao mesmo tempo que recebia boas notícias vindas da Indonésia, também recebi muitos desestímulos. As pessoas apontam uma série de problemas no país, especialmente relacionados às dificuldades de mobilidade. Muita gente reclamou dos horários caóticos dos transportes; o trânsito insuportável; a escassez de opções… Não posso dizer que as pessoas estavam mentindo, mas na prática, olhando agora em retrospectiva, tenho certeza que o Diabo não é tão feio como se ponta. Os elogios se mostraram bem mais verdadeiros que as críticas e os perrengues, com certa dose de paciência e/ou uns trocados a mais, são facilmente superados.

Preços ridiculamente baratos

Noves fora, a Indonesia foi uma das viagens mais baratas que já fiz na vida. Tive, claro, uma vantagem competitiva: Consegui pegar as passagens numa promoção de milhas, e os bilhetes do Brasil até a Indonésia não são exatamente baratos. Mas fora os vôos de cá pra lá, tudo no país é ridiculamente barato.

Por exemplo: Não é difícil encontrar um bom hostel por algo como R$ 30,00 por noite. E mesmo pra pessoas mais frescas (como a idade me tornou), um quarto individual simples pode sair por algo como U$ 17. Uma dupla de amigas conseguiu em Flores, próximo à Ilha de Komodo, por algo como U$ 12, um quarto para duas pessoas, em um hotel que não era dos piores. O hotel mais caro que fiquei, que tinha uma piscina bem bacana, de frente pra uma pequena plantação de arroz bastante cênica, me custou U$ 30. Esse quarto, que tinha ar condicionado e um belo café da manhã servido na varandinha do quarto, comportava facilmente três amigos (uma cama de casal tipo king e uma cama de solteiro).

A comida também, em geral, é bastante barata. Tirando os restaurantes estrelados, em que se paga o mesmo que um restaurante mediano em SP (e come-se pior, na minha opinião, apesar de ter o lance cultural de experimentar os temperos diferentes deles), os restaurantes comuns vão te cobrar valores bastante acessíveis. Um prato de comida num restaurante comum custa cerca de 7 reais (minhas pedidas seguras normalmente eram o “risotto” deles e um negócio chamado Gado-Gado, que são vegetais cozidos com molho de amendoim).

Uma história curiosa aconteceu em um dos tours que tava fazendo em Bali: Eu vi um restaurante na estrada que era um dos poucos que tinha resenha no Trip Advisor por perto de onde estávamos. Pedi ao motorista pra pararmos ali, ele disse que era um restaurante caro, se isso não era um problema? Falei que não e ficamos por ali mesmo. Quando veio a conta, vi que o caro para ele significava algo como R$ 25,00 (detalhe: estamos falando de almoço com bebida e café para DUAS pessoas).

Por falar em motorista, isso também tem que ser colocado nesse capítulo de preços. De fato, como as pessoas tinham me dito, o sistema público de transporte aqui em Bali não é dos melhores. Então, o ideal é meter a mão no bolso e recorrer a um tour, privado ou coletivo. Como minha viagem foi um tanto mais apressada, fiquei com a primeira opção. Mas daria pra gastar um terço do que gastei se optasse pelos coletivos.

E mesmo “chutando o balde”, estamos falando de gastos relativamente modestos. Eu contratei um motorista que falava um inglês “ok”, um carro confortável com ar condicionado, gasolina, estacionamento e pedágios, tudo por cerca de R$ 175,00 por dia. Se eu estivesse acompanhado, daria pra dividir esse valor com até 6 pessoas, já que o carro comportava 7. O motorista me disse que o preço seria o mesmo, ainda que o carro estivesse cheio. O valor me dava direito a tantas horas quanto eu aguentasse, o que, no último dia, significou algo como 14 horas.

Os vôos internos são mais caros do que reza a lenda. Mas ainda assim é possível conseguir transporte entre as cidades por preços que não são extorsivos.

Idioma, cordialidade e barganha.

Ninguém que encontrei na Indonésia falava um inglês decente. Mas todo mundo falava algo, o que é bem fantástico. Você pode não conseguir os melhores guias pra te explicar as coisas locais, mas qualquer pessoa aleatória na rua vai ajudar você pras coisas simples.

Aliás, baita povo simpático. Mesmo nos centros mais turísticos, como Ubud, todo mundo é bastante receptivo e carinhoso.

É chato, é verdade, a insistência das pessoas em tentar ganhar dinheiro de alguma forma. Taxistas, principalmente, mas outros serviços voltados a turistas também são bastante insistentes. Outra coisa insuportável é a cultura da barganha: A maioria dos lugares de comércio vai te dar como primeiro preço algo que é 10 vezes mais caro que o valor de fato do produto. Pra quem, como eu, não gosta de dar preço no trabalho alheio, isso é realmente insuportável. Mas, se não quiser bancar o trouxa, vai ter que gastar um tempinho discutindo preço com o vendedor.

Reservar antecipadamente ou não?

Por conta do terrorismo que alguns amigos fizeram, resolvi me preparar pra essa viagem com bastante antecedência. Reservei tudo ainda no Brasil pra ter certeza que nada seria perdido, evitando perrengues. Bem, me arrependi.

Não sei se em alta temporada seria diferente, mas agora, em Abril/Maio, foi algo totalmente desnecessário. Tudo poderia ser comprado na hora e, principalmente, pagando muito menos. Paguei, em média, 25% a mais que as pessoas que chegavam nos lugares com a cara e a coragem. Estou falando de hoteis, passeios, tours etc.

Yogyakarta – O começo do roteiro

Minha viagem pela Indonésia começou pela cidade de Yogyakarta (ou Yogya, pros íntimos). Curiosamente, muitos (muitos mesmo) dos que conheci ao longo da viagem, nunca pensaram em visitar a cidade. Pois pra mim foi talvez o trecho mais interessantes.

A principal atração de Yogya são os dois maiores monumentos da Indonésia: Prambanam e Borobudur. Ambos construídos por volta do século nove, tempo em que viviam em aparente harmonia Hindus e Budistas.

Borobudur é o maior monumento budista do mundo. São 504 estátuas espalhadas pelos andares superiores do monumento, 72 dos quais enclausurados em “stupas”. O monumento fica a cerca de duas horas do centro de Yogya e a melhor hora do dia pra visitar é no nascer do sol. Aliás, em Yogyakarta eles exploram muito bem o aspecto comercial do nascer e do por do sol. Diversos templos e/ou monumentos têm programas especiais pra essas horas, inclusive com tickets diferenciados, como é o caso de Borobudur.

Contratei um tour especial para Borobudur que me custou 8 Dólares de transporte + a entrada do monumento, que, para o nascer do sol, tem o salgado preço de R$ 100,00. Mas é um dinheiro muitíssimo bem investido. É uma daquelas experiências de “uma vez na vida”. Apesar de relativamente cheio (cerca de 50 pessoas quando fui), é uma experiência de paz imensa. O horizonte sendo cortado pelos cânticos muçulmanos matinais; os pássaros ensaiando os primeiros vôos da manhã; o sol nascendo vagarosamente e iluminando as “stupas”. Momentos realmente inesquecíveis.

Passado o nascer do sol, começam a chegar as hordas de visitantes. Aí o lugar perde toda a paz inicial. São muitas e muitas excursões de estudantes, além do volume normal de turistas. Uma coisa curiosa é que, como a cidade recebe muito menos turistas que Bali, por exemplo, as pessoas são muito menos acostumadas com estrangeiros. Eu parei de contar quando tirei a 45ª foto com adolescentes (e até alguns adultos) que queriam mostrar nas redes sociais o estrangeiro que eles conheceram. Já tinha passado por situação parecida na China. Mas em Yogya foi muito mais frequente.

Na saída do monumento tem alguns jardins imensos onde é possível se esconder e relaxar um pouco. Daí, minha dica pra uma visita tranquila a Borobudur é chegar para o nascer do sol e, por volta das 8 da manhã, ir lagartixar nos jardins.

Não fiz isso, mas é possível se hospedar ao lado do monumento. Há um hotel dentro de Borobudur. Mas como o lugar é longe de tudo, acho que só vale a pena se vc tiver muitos dias de férias e resolver passar o dia todo por lá (por do sol de um dia, nascer do sol do outro… parece uma boa). O mesmo hotel também oferece um belo buffet de café da manhã, que pode ser comprado à parte.

Para o por do sol, um lugar bem bacana é o outro monumento, Prambanam. Como eu disse, construído na mesma época de Borobudur, segundo o guia tratou-se de uma competição de vaidade entre as lideranças religiosas de budistas e hinduístas. Mas, ao contrário de Borobudur, os terremotos de 1100 destruíram quase que completamente Prambanam. Originalmente eram 240 torres, hoje menos de 20 estão de pé. Mesmo estas, reconstruídas, como um imenso quebra cabeças. É impressionante imaginar eles juntado os cacos daquelas construções para montar, sem nenhum modelo prévio, o que se imagina ser a estrutura original.

Ao contrário de Borobudur, eles não têm um programa especial de visitação no por do sol. Acontece que o por do sol lá é também muito bonito e, absurdamente, o templo fecha 30 minutos antes do por do sol. O truque é (e muitos “sunset-hunters” fazem isso) ficar driblando a segurança, já que o templo é gigantesco.

Tanto Borobudur quanto Prambanan parecem saídos de outro planeta. São estruturas imensas, de formas completamente atípicas pra quem, como eu, não está acostumado às religiões asiáticas. E inspiram uma paz incrível.

Para quem está com muita muita pressa, é possível ver os dois em um único dia. Mas acho que isso tende a minimizar a experIência. Eu recomendaria ficar 3 dias em Yogya, um para cada templo e um terceiro para rodar a cidade. E aí, combinar os dias dos templos com outros passeios.

Fui em um passeio de caverna chamado “Goa Pindul”, achei bastante sem graça.

Há alguns outros templos e monumentos espalhados pela cidade, especialmente ao redor de Pranbanam. Alguns rendem, pelo que li, pores de sol bastante bonitos.

O palácio das águas, a julgar pelo trip advisor, é uma daquelas atrações do tipo “ame ou odeie”. Eu fiquei com o primeiro time. Um lugar simplório, é verdade, mas que encanta pelas cenas de vida comum. Os adolescentes brincando, as vilas do entorno, os artistas trabalhando… Gosto disso.

Uma rua bastante famosa de lá (Majoboro) lembra uma espécie de 25 de Março. Achei um bocado Jeca a forma de as pessoas exaltarem aquilo como uma atração turística. Mas a verdade é que 9 entre 10 guias colocam aquela região como uma atração especial da cidade.

Rodar pela cidade é especialmente interessante. Ao contrário das outras áreas mais turísticas da Indonésia, Yogya é de maioria muçulmana. Mas de um islamismo meio mestiço, sincretizado com elementos do hinduísmo. Além disso, os hábitos são bastante provincianos, e é uma delícia ver os adolescentes com seus violões pelas ruas e vilas.

O transporte da cidade é comummente feito por umas bicicletas chamadas becaks. São bikes com um sofazinho pra duas pessoas na frente, que podem te transportar por alguns kilômetros (algumas poucas são motorizadas). Mas o meio de transporte mais pitoresco são uns carros curiosos que circulam por próximo ao palácio central de Yogya. São como fuscas (tem alguns outros modelos também, mas a maioria é de fuscas) adaptados. Substitui-se os pneus por rodas de bicicleta, o motor por correias. Ilumina-se por uma infinidade de neons e motivos de desenhos animados… Voilá… o carro mais brega que já vi na vida.

Da primeira vez que vi, achei que fosse algo pra agradar as crianças. Mas passeando à noite pelas ruas de Yogya, vi que a grande maioria dos que andam nos fusquetas são jovens casais de adolescentes. Especialmente ao redor de uma praça bem peculiar chamada Alun Alun. É uma praça com duas árvores no centro, na qual as pessoas jogam um jogo no qual você tem que vendar os olhos e atravessar a praça pelo meio das árvores. Visto de fora, as árvores estão tão distantes uma da outra, que parece estupidamente fácil. Mas quase ninguém consegue!

Ao redor das árvores, dezenas de barraquinhas simplórias de comida servem coisas locais. As pessoas sentam no chão e comem sobre pequenos tabuleiros. 

Gastronomicamente, não comi nada digno de nota em Yogya. Mas disseram que o Gudeg é o prato típico de lá… Não comi por um motivo bom: No dia em que fui no restaurante que, segundo os guias, servia um bom Gudeg, ele tava fechado para um casamento de uns figurões importantes da cidade. Pincelei a situação aqui (https://404destinos.com/2016/04/24/casamento/)

As crianças em Yogyakarta são especialmente simpáticas. Menos habituadas a turistas, elas não se acanham e puxam papo com você o tempo todo. Muitas pedem que vc fotografe elas (“mister, mister, photo, photo”), outras se escancaram em risadas largas por ver um estrangeiro.

Yogyakarta é também uma região produtora do chamado “Kopi Luwak”, também conhecido por “Cat-Poop-Cino”, “Cafezes” ou Café de cocô de gato. É famoso por ser o café mais caro do mundo. Isso porque a produção é necessariamente bastante pequena. Os grãos são colhidos no chão das florestas do sudeste asiático, depois de comidos e cagados por pequenos gatinhos (Civet). Como o grão é “digerido” junto co outras frutas comidas pelo gato, ele ganha um aroma meio diferente. E como o grão não é efetivamente processado no estômago do gato, ele sai quase como entrou. Depois de limpar e descascar os grãos, passa-se ao mesmo processo de torra de todo café. No Brasil, sei que uma xícara desse café é vendida por uns R$ 40,00. Aqui, consegue-se por algo como R$ 5,00, ainda assim caro pra um café, né?

E, sinceramente, nem achei tanta coisa assim. É um bom café, mas só.

Em Yogyakarta fiquei hospedado em um hotel chamado Adhistana. Um quarto com ar condicionado, duas camas de solteiro bem confortáveis. Café da manhã bem razoável. Chuveiro mediano, de água quente e fria. O hotel tem uma piscina bem bonita e a decoração das áreas comuns é bacana. A localização poderia ser um pouco melhor, mas não é ruim. Paguei U$ 20,00 por noite.