As ilhas Gili

As ilhas Gili são um conjunto de três ilhas próximos à costa da ilha maior de Lombok. São um destino famoso de Lua de Mel, mas também de turismo-balada, especialmente a ilha maior de Gili Trawagan (ou Gili T). Não fui pras duas ilhas menores, Air e Menon, mas os relatos de outros viajantes dizem que são lugares mais tranquilos.

Gili T tem dois lados bastante claros. O lado leste, onde fica o atracadeiro dos barcos, é cheio de bares agitados, agências de turismo e uma molecada (Australiana, principalmente) de 18 a 25 anos, que estão ali pras festas que vão noite a dentro. Nesse lado também ficam as pousadas mais baradas (preço médio, U$ 18 por um quarto pra duas pessoas).

O lado oeste tem resorts mais sofisticados e bem cênicos pra pores de sol. Os resorts também têm seus bares, que vendem bem a localização privilegiada pra por do sol. Foi meu lugar predileto da ilha, já que não curto tanto a agitação. Aqui o espírito é de relaxamento e é tudo bem vazio (exceto, claro, na hora do por do sol).

Dar uma volta completa na ilha demora cerca de 2 horas à pé (ritmo tranquilo). E é bem comum na ilha o aluguel de bicicleta, algumas especialmente adaptadas pra andar nos trechos de areia.

Além disso há algumas escolas de surf e muitas de mergulho.

As praias são bonitas mas, pra mim, bem menos interessantes que as do Caribe. Ou seja, não gastaria muito do meu tempo em Gili, já que estamos mais perto de ilhas mais bonitas. Mas, repito, não sou tão “da balada”, e esse parece ser o principal motivo que traz as pessoas pra Gili T.

Perto do porto há um mercado noturno de comida, mas nada ali me parecia muito interessante. Não confio muito na higiene na Indonésia, então sempre fico meio receoso com essas comidas de rua. Aliás, em se tratando de comida, nada na ilha foi bom. Comi em alguns restaurantes mais “chiquetosos” e sempre saía com a sensação que teria sido melhor comprar um pacote de biscoitos no mercadinho.

Mas a hospedagem foi bem bem legal. Um lugar que me custou U$ 20,00 por noite, mas que cabiam umas 4 pessoas no quarto (uma cama de casal, duas de solteiro). Uma piscina bacana e, principalmente, uma equipe bastante simpática. A pousada chama Little Woodstock e é um tanto mais escondida. Apesar da caminhadinha até as praias, recomendaria esse lugar aos amigos.

Expedição a Komodo

Parti de Gili em direção às Ilhas de Komodo, onde vivem os famosos Dragões, répteis que chegam a 3 metros de altura e que só existem por ali. Me juntei a uma excursão organizada pela Perama, uma companhia onipresente nos lugares (e alguns menos) turísticos da Indonésia. Segundo as resenhas que li na internet, é a agência de turismo mais consolidada do país, o que me motivou a reservar com eles ainda no Brasil (pagamento por Paypal).

O Tour, que chama “Caçando os Dragões de Komodo com câmera” pode ser feito em 3 ou 5 dias. A diferença entre um e outro é que no segundo faz-se uma viagem de ida e volta de Lombok a Komodo. Fiz o primeiro, porque as resenhas que li na internet diziam que o retorno era “mais do mesmo”. Esse tour custa cerca de U$ 100,00 e inclui as refeições dos três dias de passeio, exceto bebidas que são pagas à parte (preços honestos).

Esse é o preço do pacote “mochileiro” que eu comprei. Nele você não tem direito a uma cabine, mas sim a um colchonete e um lençol, pra dormir no chão do deck superior do barco. O pacote pra ter direito a uma cama em cabine custa o dobro disso.

Em alta temporada talvez valha a pena comprar o pacote mais caro, porque o deck pode ficar apertado demais com o barco lotado. Estávamos com 26 pessoas na viagem e já parecia, pra mim, o limite. Mas a lotação teórica do barco é de 50 passageiros. Não sei muito bem como eles fazem pra caber…

Pra mim, esse número de 26 pessoas foi perfeito. Não lotou, mas também tinha um número suficiente de pessoas pra render conversas interessantes. Além disso, quem topa dormir num chão de barco, normalmente são viajantes mais aventureiros. Daí, as conversas normalmente rendem boas dicas de lugares “diferentes” pra visitar.

O primeiro dia, na verdade, é todo terrestre. Faz-se um corte de ônibus por dentro da Ilha de Lombok, fazendo uma parada no caminho para conhecer um templo ecumênico (Muçulmano, Hindu e Budista) e outra ao final, no porto oeste de Lombok. Nesse porto, eles organizam uma atividade de integração, com algumas gincanas um tanto bobas. Mas a graça dessa parada está no fato de as crianças do vilarejo local virem participar da brincadeira.

São um bocado mais tímidas que as crianças de Yogya, talvez por estarem mais acostumadas à presença habitual dos turistas, especialmente naquela festa (que deve acontecer duas vezes por semana, frequência de passeios deles). Mas depois de um tempo de música e jogos, elas acabam se soltando e interagindo bastante =).

Depois das brincadeiras, eles servem um jantar no próprio barco e iniciam a navegação noturna.

A noite no barco não é das mais confortáveis, mas melhor que eu esperava. Dormir no colchonete não é tão ruim quanto parece, mas o vento de madrugada é um tanto incômodo. E, principalmente, o balanço do barco, pode dar uns enjôos nos mais fracos.

Um “plus” dessa viagem de aventura são os nasceres de sol. Como o barco é aberto nas laterais, é difícil continuar dormindo quando começa a clarear. O que poderia ser um incômodo, vira na verdade um presente. Os nasceres de sol no meio do mar são especialmente bonitos (além de longos).

A primeira parada do barco é na ilha de Satonda. A ilha tem duas atrações interessantes: Uma lagoa de água salgada, formada pela ação de um tsunami, que compõe uma paisagem muito bonita no interior da Ilha. É possível fazer trilhas curtas na ilha para chegar a um bom ponto para fotos da lagoa.

A segunda atração da ilha são os corais. A Perama disponibiliza equipamento básico de snorquel pra explorar os corais. É absurdamente bonito, com muitos peixes multicoloridos, além da beleza própria dos corais de lá. Fantástico mesmo.

A viagem parte novamente e navega-se por cerca de seis horas até um novo ponto de viagem, uma pequena praia onde se assiste um belíssimo por de sol. Se o tempo estiver bom, um imenso vulcão compõe a cena.

Depois do por do sol, mais uma viagem noturna em direção às ilhas de Komodo, onde chegamos por volta das 8 da manhã.

O passeio pela ilha dura cerca de 3 horas e é acompanhado por alguns guias locais, de bom Inglês e bom conhecimento dos animais que vivem ali. Essencialmente os Dragões são o topo da cadeia alimentar por aquelas bandas, se alimentando essencialmente de porcos do mato e veados. Ao todo são cerca de 3.000 dragões vivendo nas quatro ilhas do arquipélago (apenas duas visitáveis), sendo os animais de natureza solitária.

Segundo os guias, pode acontecer de você passar uma manhã lá e não ver nenhum dragão. Assim como, em um dia de muita sorte, ele disse já ter encontrado mais de 6 dragões em uma manhã. Para facilitar a busca, os guias se espalham pelo parque e vão se comunicando por rádio, alertando os demais onde eles viram um dos répteis.

Vimos dois dragões. Um macho e uma fêmea, essa no alto de um morro, aquele na beira da praia.

Depois da ilha seguimos em direção à última parada da excursão antes de chegar a Labuan Bajo, em Flores. É a “Pink Beach”, que tem esse nome devido a um fenômeno das areias de lá que, em combinação com um processo que ocorre nos corais, pode ficar rosada dependendo da época do ano e da hora do dia. A praia também é boa pra praticar snorquel.

Por fim, atraca-se em Labuan, pequena cidade em Flores vocacionada para o turismo de mergulho e outros passeios de ecoturismo. O barco chega à cidade por volta das 16h e as pessoas que não estão no programa de 5 dias têm tempo para procurar um hotel pra se hospedar (eu já tinha reservado com antecedência, como expliquei antes. Paguei 3 vezes mais que quem buscou na hora).

Às 20h, um bote leva todos (incluindo pessoas que estão entrando no tour agora, pra fazer o trecho de 3 dias mas no sentido inverso ao que fiz) para um jantar de despedida/boas vindas no barco. Também fazem uma festinha no barco, e essa história eu contei aqui (XXXXXX).

Não explorei muito Flores, já que no dia seguinte peguei um Vôo pra Bali. Mas das poucas pesquisas que fiz, descobri dois passeios que gostaria de ter tido mais tempo pra ver. Um que eles chamam de “Raposas voadoras”, é um movimento coletivo de morcegos que voam no por do sol em busca de alimentos. Os morcegos saem de uma caverna, acessível por barco, e formam uma bela paisagem de por de sol. Vi algo parecido em Bali, mas parece que em Flores é um fenômeno maior.

Outro passeio possível em flores é um tour de 1 dia inteiro em direção a duas cachoeiras de grande porte que existem por ali, além de uma infinidade de escolas de mergulho que operam na cidade.

Fiquei hospedado no Komodo Lodge. Como todo hotel que fiquei na Indonesia, a internet era bem meia boca. O café da manhã era bacaninha (também servido no próprio quarto, conforme menu que você dita o que quer), a cama era bem confortável e o chuveiro não era ruim. Eles providenciam gratuitamente transfer para o aeroporto.

Bali

Bali é o coração turístico da Indonésia. A ilha tem essencialmente três tipos de turismo: turismo cultural, relacionado ao hinduísmo (religião majoritária por lá); turismo de aventura (dois grandes vulcões na linha, além de algumas trilhas e rios para rafting); e o turismo de praia. Para explorar todas essas facetas do turismo local, você precisaria de muitos muitos dias. Como só tinha 6, acabei ficando com o primeiro. Não fiz trilhas e visitei apenas rapidamente as praias mais famosas (região de Kuta e Semyaki).

Para aproveitar ao máximo o meu objetivo, que era visitar os 5 templos mais relevantes de Bali, além de ver as 3 formas mais tradicionais de dança local, fiquei hospedado em Ubud, cidade que fica no centro da Ilha.

Ubud propriamente tem alguns pontos de interesse interessantes, mas a localização geográfica é realmente o que conta. Como o trânsito e o transporte por ali não são dos mais simples, estar no centro da ilha facilita a ida a lugares de leste a oeste. A cidade gira em torno do turismo. Então, não é difícil achar seu caminho para as principais atrações. O difícil, mesmo, é fugir das “armadilhas de turista” que recheiam a cidade.

A cidade não é perigosa. Muito pelo contrário. É muito tranquilo circular por ali, a qualquer hora e independente de companhia. Mas as pessoas estão o tempo todo tentando ganhar algum dinheiro, te vendendo produtos e serviços que você não necessariamente precisa.

Nos templos da região é necessário usar o Sarongue para visitação. É uma espécie de canga que eles usam como saia, muito fácil de ser comprada nas ruas. Um preço justo é algo como 50.000 Rúpias, o equivalente a 4 dólares. Alguns templos te emprestam um sarongue básico, valor já incluído na entrada (Uluwatur e Caverna do elefante, por exemplo). Mas como outros tantos não fornecem, acho que é uma boa aquisição. Até porque vira um souvenir interessante =).

Fiquei hospedado no Puji Bungalows. Eles têm um hostel e um hotel no mesmo espaço, que é também uma plantação de arroz. Os dois compartilham uma piscina bem gostosa e cênica e está localizado a uma caminhada curta (cinco minutos) do centro de Ubud.

Falei que estava atrás dos 5 templos mais relevantes, certo? Pois bem, pelo que pesquisei, esses templos seriam: Caverna do Elefante, Beratan, Uluwatur, Tanah Lot e Besakih. Montem meu roteiro da seguinte forma.

No primeiro dia fui para a Caverna do Elefante e Besakih. A caverna do elefante fica próxima ao centro de Ubud (com disposição grande, caminha-se. Mas como já tinha contratado o motorista, fui de carro).

A caverna do elefante é um templo budista/hinduísta de tamanho médio. Dentro do templo, além de uma área de pequenas cachoeiras e jardins bonitos, há uma caverna cuja entrada é a boca de Ganesha (sinceramente, não vi Ganesha ali… mas essa é a razão do nome do lugar inclusive…). Dentro dessa caverna, que é bem pequena, há dois pequenos altares. Um dedicado a Ganesha (agora sim, bem claro Ganesha, a manifestação divina vocacionada ao conhecimento, além de três pedras de saia, nas cores das três maiores divindades hindus: Shiva, Brahma e Vishnu).

O templo tem muitos guias tentando ganhar um trocado, além de uma espécie de sacerdote budista que tá ali claramente pra fazer um troco e não pra qualquer fim religioso. Mas, fora esse aspecto (que te acompanha por todo canto em Ubud) é um lugar bonito, e um excelente começo pra viagem.

Fomos em seguida ao templo de Kerta Ghosa. Fica ao lado de um museu que não visitamos, mas o templo em si, apesar de pequeno, tem um detalhe interessante: No teto estão pintadas representações das escrituras sagradas hindus, explicando o pós-morte em diversas imagens razoavelmente auto-explicativas. Para os hindus o inferno é um local temporário, em que sua alma vai sofrer proporcionalmente às coisas erradas que você fez em terra. As imagens explicam cada um dos castigos destinados a quem, por exemplo, se dedicou à luxúria ou à gula no plano material.

De lá partimos pra Besakih, o templo maior, o mais impressionante da viagem a Bali. É um complexo que mais parece uma cidade, lotado de pequenos templos, “públicos” e familiares. Logo na entrada há uma espécie de cooperativa de guias de turismo que vai te cobrar valores extorsivos para uma visita guiada (U$ 25,00). É possível que tentem te enganar, como tentaram me enganar, dizendo que só é possível entrar com guia, ou que há lugares que só é possível visitar com auxílio do guia. Não caia nessa. É perfeitamente possível visitar quase todos os lugares sem auxílio de guia. Alguns, você não pode entrar nem mesmo com guia. Outros (poucos) os guias dão um “jeitinho” de te colocar pra dentro. Mas o essencial você consegue explorar sozinho.

Agora, obviamente, contar com o apoio de um guia pode te ajudar a entender a grandeza daquilo tudo. E o preço cobrando na porta é completamente irreal. Então, recomendo que você caminhe um pouco pelo templo e, mais cedo ou mais tarde, algum guia vai se oferecer por um preço decente. Outra coisa que fiz, e que recomendo, é testar um pouco o inglês do guia antes de fechar. Tem muitos guias com inglês sofrível. Daí, não vai adiantar muito ter apoio profissional… por mais que ele conheça o lugar, se não consegue te passar o que sabe, não serve pra muita coisa, certo?

Acabei contratando um guia que me cobrou 1/6 do valor que tinham me cobrado na entrada (U$ 4,00). Fiz questão de pagar o dobro do que ele pediu, ao final, pois além de bastante honesto (não tentou mentir sobre a necessidade de guia) foi um guia atencioso e dominador do assunto.

O ponto mais impressionante do templo é a escadaria da entrada. Toda decorada com flores e guardiões. À esquerda, os guardiões do bem. À direita, os guardiões do mal. Compondo o equilíbrio que é inerente à filosofia-religião deles.

Saímos de Besakih em direção ao templo das águas sagradas. No caminho, paramos em um produtor de cafés chamado “Sátria”. Lá é possível fazer uma degustação dos 16 tipos de café e chá que produzem lá, sem qualquer custo. Óbvio que esperam que você compre algo ao final (preços altos), mas isso em nenhum momento é imposto. Aliás, o tempo inteiro os motoristas vão tentar te levar nesses lugares (madeira, cobre, esculturas em osso, produtores de arroz e café, barracas de frutas… eles ganham comissão em cada compra que você faz nesses lugares… se isso não te agrada, é só dizer que não quer e tudo está resolvido…).

No templo das águas sagradas, muitos balineses vão para lavar o corpo (e a alma) nas águas sagradas do encontro de dois grandes rios locais. É também nestas fontes que são coletadas as águas para algumas das cerimônias religiosas mais importantes de Bali. É possível entrar nos tanques de água e purificar-se você também… eles têm vestiário e guarda-volumes.

O Sarongue é obrigatório e, para as mulheres, tal qual outros templos hindus, é proibido entrar “no seu período”.

Macacos me mordam

Segundo dia de tour começamos pelo templo do macaco sagrado (!?!?). Não confundir com a floresta dos macacos, que fica no centro de Ubud, apesar das muitas semelhanças. Toda a estrutura de estátuas e templos parece um tanto abandonada nesse templo, o que dá um charme interessante pras coisas. Parece um templo perdido, repleto de macacos dóceis que pulam em você (sem agressão) em busca de comida. Ao contrário de Uluwatur, e tal qual a floresta dos macacos, eles não roubam suas coisas. Mas é melhor não dar bobeira, certo?

Outra vantagem que vi em relação à floresta dos macacos é que, como é fora do circuito turístico mais tradicional, o volume de turistas é muito menor. A maior parte do tempo, na verdade, eu estava sozinho. E há diversos guias públicos (já incluídos no preço do ticket) espalhados pelo parque.

De lá partimos pra Pura Ulun Beratan, o templo das águas, no norte de Bali. O templo é famoso e estampa a nota de 50.000 Rúpias. Além disso, foi meu papel de parede de computador durante alguns meses antes da viagem pra Indonésia… Resultado… a grande decepção da viagem…

Como é cheio, a experiência tá longe de oferecer a paz que as fotos sugerem. Além disso, por ficar em uma região montanhosa, a chance de tempo ruim é bastante grande…

Tudo no templo parece um tanto artificial, o que estraga um bocado a experiência.  Além disso, o templo fica muito muito longe de Ubud. Sinceramente, foi o passeio-que-não-vale-a-pena da viagem.

Terminamos o dia com o por do sol em Tanah Lot. Devido ao trânsito e à distância imensa do templo de Beratan para Tanah Lot, acabei chegando em Tanah muito perto da hora do por do sol. Resultado: não tive tanto tempo pra explorar a região, que pareceu muito mais cênica que o outro templo. Uma imensidão de pessoas vem pra este templo exclusivamente pro por do sol, um dos mais bonitos que já vi.

São alguns templos situados em penínsulas na costa recortada, em uma praia frequentada por surfistas em busca das boas ondas do lugar. O mais cênico, na minha opinião, é o que fica ao final de uma península-falésia, no meio do qual tem um furo imenso causado pela erosão de milhares e milhares de anos.

Ali vi um dos espetáculos naturais mais bonitos da viagem. Como eu falei de Labuan Bajo, ali também acontece um fenômeno de morcegos que saem de sua caverna em busca de alimentos tão logo o sol se põe. É um movimento único, conjunto, impressionantemente bonito. Milhares e milhares de morcegos voando juntos no por do sol, em uma nuvem assustadora e linda.

Sem cerimônias

No terceiro dia dispensei o motorista. Estava muito cansado pra passar o dia inteiro no carro. Queria ficar mais tempo na piscina e caminhar apenas por perto do hotel. Queria também achar meu caminho para o Palácio de Peliatan.

Queria encontrar esse palácio porque li na internet que li era um dos lugares que ainda cultivavam o “Legong-de-Raiz”. Encontrei, mas explico isso um pouco mais adiante. Na peregrinação, acabei dando a sorte de trombar com uma cerimônia muito singular. Além dos templos públicos maiores, os nobres de Bali costumam ter seus templos familiares, onde celebram cerimônias relativamente privadas em algumas ocasiões especiais.

Caminhando em busca do palácio de Peliatan, encontrei um desses templos familiares, com a entrada completamente decorada e diversas pessoas formalmente vestidas na porta. Acanhado, fiquei circulando em volta do templo por alguns minutos, até que resolvi ter a cara de pau de perguntar (em mímica) se poderia entrar. A primeira resposta foi não, pois eu não estava de Sarongue. Mas, por algum motivo que não lembro, eu tinha colocado meu saiote na mochila. Mostrei pros homens da entrada que, então, me deixaram entrar.

Lá dentro havia uma orquestra de instrumentos locais além de um jardim central onde estava acontecendo o culto propriamente dito. Fiquei cerca de 2 horas por ali sem entender muito bem o que estava acontecendo (ninguém falava inglês…). Mas percebi que alguns trechos da cerimônia eram só com mulheres, outros só com homens, que havia muitas oferendas envolvidas e que tinha uma espécie de “dress-code”. Além disso, no salão dos fundos, serviam comidas variadas, já que a festa parecia se estender pelo dia adentro.

As pessoas não pareciam incomodadas com minha visita, mas em alguns momentos pontuais me tiraram o jardim central (algo claramente relacionado à cerimônia, já que eu podia continuar observando pelo lado de trás do portal).

No resto do dia perambulei por Ubud. Fui até a Floresta dos Macacos, caminhei pelo mercado local, os restaurante e lojas da rua central etc. Como já disse, a culinária de Bali não me impressionou e as compras não são exatamente um programa turístico pra mim… Mas tem bastante artesanato bonito espalhado pelas infinitas ruas do mercado.

Dança

Quarto dia começou com dança.

Bali tem uma infinidade de danças diferentes no seu repertório cultural. Entre as mais importantes estão o Barong, uma dança que representa a luta entre o bem e o mal, o Legong, aquela dança tradicional balinesa, com muitos movimentos de dedos e olhos, o kekak, feito com fogo e roupas tribais, e o teatro de sombras (que também funciona tal qual uma dança).

Encontrar lugares que apresentam essas danças não é nada difícil. Pelo contrário, caminhar pelas ruas de Ubud no entardecer é certeza de tentarem de empurrar um dos muitos espetáculos que acontecem nos templos e palácios de lá. Mas eu não queria cair numa dessas muitas armadilhas de turista. Pesquisei um bocado pra tentar achar os mais tradicionais de cada estilo, e foi assim que cheguei na seguinte lista: Barong em Balutan, Legong em Peliatan, Kekak em Uluwatur.

Pois bem, a escolha do Barong em Balutan foi um tanto fotográfica. Como era o único grupo tradicional que se apresentava de dia (hora melhor pra fotos) optei por ver o espetáculo deles. Achei bom, mas não mais que isso. Alguns trechos pareciam descambar demais pro pastelão, o que não me pareceu estar na origem da dança (que é quase religiosa).  Mas a experiência é interessante.

Partimos dali pra Seminyaki, praia famosa de Bali. Originalmente eu passaria dois dias nessa praia, me hospedando ali na última noite de viagem. Mas descobri que no último dia da minha programação haveria uma cerimônia especial de cremação de um membro da família real de Ubud. Como é um evento bastante singular (o último foi há dois anos atrás, o próximo só Shiva sabe), achei que podia deixar a praia de fora do meu roteiro.

Para não ficar completamente alheio às praias de Bali, incluí uma tarde em Seminyaki no meu roteiro. Serviu pra eu ter certeza que fiz a escolha certa: Não consegui ver nada demais nas praias do sul de Bali. Praias comuns, sem charme, lotadas de turistas e expatriados. Nada que traga identidade pro lugar…

Partimos dali pra Uluwatur, o último dos 5 templos principais que queria conhecer. Aproveitei pra conhecer o trânsito infernal de Bali…

Como queria ver o show de Kekak de uluwatur, que acontece às 18h, saí de Seminyaki 2:30 da tarde, já que o google apontava um tempo de trânsito de 1:30. Chegando às 16h, teria tempo suficiente de conhecer o templo, comprar ingressos pra dança, fotografar o por do sol, assistir a dança… enfim, tudo muito bem planejado. Faltou combinar com os outros milhares de turistas que foram pra Uluwatur naquele dia, se espremendo na estrada de pista única que leva ao templo.

Demoramos 3:30 para chegar a Uluwatur. resultado, não consegui conhecer o templo e ainda, de quebra, acabaram os ingressos pra dança. Com muita insistência (e propina) acabei conseguindo entrar para os 20 minutos finais do espetáculo, só pra não passar completamente em branco… Mas como já tinha escurecido, perdi o maior charme da coisa que é a apresentação sincronizada com o por do sol.

De todo modo, pude ver um dos pores de sol mais bonitos da viagem, acompanhado dos agressivos macacos do templo. E os macacos aqui merecem um parágrafo à parte.

Os macacos de Uluwatur aprenderam a arte da extorsão. Já tinha lido que eles roubavam itens pessoais e trocavam por comida, mas achei que fosse lenda. Pois bem, lá chegando pude ver que não apenas é verdade como também os macacos aprenderam o valor das coisas. Por exemplo, um deles roubou uma garrafa d’água e trocou por um punhado de amendoins. O mesmo macaco, minutos depois, roubou os óculos de um chinês. Oferecido o mesmo punhado, o macaco recusou, e só trocou por um pacote bem grande da sua comida.

Câmera firme na mão, bolsos muito bem fechados, é possível tirar curtir um por do sol fantástico lá de cima.

Uluwatur significa templo do alto, e tem esse nome porque o templo, em si, fica na ponta de um penhasco imenso, criando uma passagem bastante cênica.  A dança do Kekak acontece na outra ponta da costa, aproveitando essa atmosfera cênica do Por do Sol. 

A Cremação

O momento mais singular da viagem foi meu último dia em Ubud, cidade no interior de Bali. Isso porque, por uma dessas serendipidades de viajante que tanto me acompanham, calhou de eu estar por ali durante a cerimônia de cremação de um membro de uma das muitas famílias reais do lugar.

Não consegui entender direito até agora a organização político-social de Bali, mas apesar de a Indonésia ser uma República presidencialista, no correr da vida há uma infinidade de nobres, numa sociedade também dividida em castas e classes bastante rígidas: campesinos, comerciantes, clero e nobreza, resumindo porcamente.

Não vou me arriscar a pitacar sobre o que vi: princesas sendo carregadas em andores, súditos arrastando sarcófagos pelas ruas irregulares da cidade, sacerdotes abençoando estes carregadores, mulheres desfilando com oferendas… Tudo era tão complexo, assustador, intrigante, lindo…

A cerimônia foi preparada ao longo de toda a semana, construindo-se um boi sagrado, responsável por levar o corpo da falecida realeza em direção ao paraíso (com uma rápida passagem pelo inferno). O passamento já tinha acontecido há alguns meses, mas os líderes religiosos escolheram o dia 08 de Maio como o mais propício a uma travessia mais curta e tranquila em direção ao além.

Listas: 10 cidades que mais gostei de conhecer

Sempre fiquei um tanto receoso de plastificar assim uma lista. Um pouco por sempre mudar de opinião. Um pouco por achar meio presunçoso querer montar rankings quando se conhece um pedaço tão pequeno do mundo.

Mas depois de muito pensar (e de viajar também), cheguei à conclusão que listas não se pretendem definitivas, mas são um exercício pessoal tão gostoso: um jeito de organizar o passado nas ideias e as ideias no passado. Além disso, acredito que já posso me considerar um viajante experiente sem que isso soe pedante…

Acho que já dá pra começar a compartilhar um pouco mais minha opinião comparativa entre elas, sem medo de parecer ridículo. No fundo, o que espero é que essa lista inspire algum de vocês a visitar esse ou aquele destino. Ou até a montar sua própria lista e compartilhar comigo.

10. Amsterdam

O povo mais legal que conheço na Europa é o Holandês. Gente tranquila, educada, alegre, liberal, culta… Para além dos preconceitos e do turismo adolescente, gosto bastante das vielas do Red Light, além dos inúmeros museus e bons parques de lá.

DSC02476

9. Berlim

Uma cidade jovem, artística mas, principalmente, histórica. Ao contrário do resto da Europa, em que no mais das vezes a história é longínqua, milenar, Berlim guarda uma história próxima que dialoga muito com nossa vida: A segunda guerra mundial, a guerra fria, a nova Europa…

1025603_544018745634091_506869321_o

8. Havana

Não me marcou apenas por ser a capital comunista das Américas. Mas principalmente pela musicalidade e o sorriso aberto dos cubanos. A arquitetura e os muitos “jeitinhos” que os cubanos arrumam pra se virar também brilham.

1518329_668897853146179_1328960801936018548_o

7. Yogyakarta

Jogya foi a maior surpresa da minha viagem à Indonésia (o País que mais gostei de conhecer até hoje). O turismo por ali é relativamente pouco, perto das cidades mais famosas da Indonésia. Talvez por isso o povo seja especialmente provinciano, alegre e receptivo. Mas, óbvio, o que realmente impressiona ali são os dois gigantescos monumentos: Borobudur e Prambanam.

DSC02808

6. Los Roques

Acho difícil encontrar no mundo praias mais bonitas que as do Caribe. Mas o preço disso, muitas vezes, é um turismo maluco, de resorts e cruzeiros, que tá longe de ser o que curto em férias. Mas Los Roques, por ficar na problemática Venezuela, e ainda assim não ser um destino tão turístico quanto “Isla Margarita”, consegue reunir toda a poesia azul do mar de lá com a tranquilidade de uma ilha deserta. É o mais perto que cheguei do paraíso, com certeza.

884555_517257791643520_788543973_o

5. Seul

Muito “Jeong” envolvido.  Eles são simpáticos e prestativos como os japoneses, mas muito mais carinhosos e abertos a boas conversas. Valorizam bastante a cultura própria, apesar de estarem abertos também ao que vem de fora. Têm uma comida fantástica e prédios impressionantemente bonitos, tanto modernos quanto tradicionais.

DSC08761

4. Sidney

Ainda estou me perguntando qual a cidade mais bonita do mundo: Sidney ou Rio. Se os cariocas têm as montanhas, Sidney tem a beleza de um país desenvolvido, que cuida da qualidade ambiental das praias e do verde espalhado por todo canto. A costa recortada, os passeios de barco, os pubs…

DSC03152-HDR

3. Londres

O British, o West End e os fantásticos castelos… Acho que Londres é a primeira cidade da lista (parelho com Sidney) das cidades nas quais eu moraria se um dia tivesse que sair do Brasil. Aprendi lá a verdade de uma frase: “Quando um homem se cansa de Londres, ele está cansado da vida; porque há em Londres tudo que a vida pode trazer”.

278617_225892094113426_4140564_o

2. Istambul

Istambul me recebeu com a caótica Instikal às 2 da manhã, me conquistou com o por do sol no Bósforo e se despediu com a impressionante beleza de suas igrejas e mesquitas (principalmente Hagia Sofia). A culinária de lá talvez seja a melhor que já experimentei.

DSC03137

1. Tókio

Não tive nenhuma dúvida pra escolher a primeira cidade dessa lista… Tão exótica quanto moderna. Tão conservadora quanto maluca. Tókio diverte e assusta com os mesmos elementos. O silêncio absoluto no metrô, quebrado pela música infantil do sistema oficial de som… As imensas lojas de departamento com tudo o que você não imaginava que existe… As fantasias dos jovens, a delicadeza de plantas e flores…

478919_470479122988054_511819844_o

Casamento

Por essas sortes do acaso, mal cheguei à Indonesia e já fui parar em uma cerimônia de casamento. O mais curioso é que, tal qual fazemos nos velórios, descobri que as pessoas mandam coroas de flores (e placas bastante decoradas) para celebrar os noivos. Fui recebido pela família da noive com sorrisos largos, como largos são os sorrisos por aqui. De adultos, adolescentes e crianças… tudo aqui se abre num sorriso tão fácil que, a princípio, deixa seu cinismo receoso. Mas não tarda a te desarmar e receber, igualmente alegre, a leveza de Yogyakarta.

DSC02595-HDRDSC02666DSC02662DSC02656DSC02646DSC02637DSC02619DSC02618DSC02612DSC02611DSC02605DSC02599

Inveja

Abro essas páginas azuis entre um e outro gole de café e invariavelmente encontro alguma certeza. Alguma segurança categórica sobre política, o último filme do Woody, os rumos do carnaval de São Paulo ou o meio campo do Corinthians. Muitos dos meus colegas cravam revisões fundamentadas do passado, e profecias consistentes sobre o futuro. Tudo tão sem medo. Como eu invejo essas coragens….

Faz um ano que vi “Últimas Conversas” do Eduardo Coutinho. Um filme que fala sobre ter pelos seus 16 anos, aquela coisa estranha que já não é infância, mas que a vida mostra ser a mais imatura das fases da vida. E pelo fim do filme eu me vi em um garoto. Eu, que aos 16 sentava com aquela pose, argumentava com aquela classe, gesticulava com aquelas mãos e tinha as mais genuínas garantias. Sobre tudo. Hoje, acho que discordo de quase tudo o que aquele Judson dizia. E tenho menos vergonha dele do que ele teria de mim.

Porque isso não é uma crítica à arrogância. É um elogio à coragem. À coragem de quem, depois dos 30, ainda tem a firmeza de defender uma opinião, qualquer opinião. Hoje, que claramente tenho mais experiência, mais informação, mais malícia e, principalmente, mais espaço pra expor minhas ideias… já me faltam certezas. Tudo é um imenso talvez, recheado dessa insegurança em compartilhar meus quiçás.

Aprendi a gostar da ostentação alheia (Gostar da própria é bastante fácil. Difícil é ver valor na dos outros). Essa coisa de mostrar pro mundo as coisas de que gostamos e as qualidades que gastamos tempo cultivando. O maluco que quer mostrar o carro do ano que ele trabalhou muito pra comprar. A menina que tira selfie no espelho da balada pra mostrar como ela se vê linda. A foto da capa da tese de douturado… A gente quer (e tem direito) de celebrar nossas conquistas. E acho especialmente empolgante acompanhar aqueles que conquistaram uma certeza, qualquer certeza, esse tesouro mais difícil que a tese, o carro e as formas.

 DSC02541DSC02525DSC02489DSC02485DSC02456DSC02448DSC02431DSC02427DSC02416DSC02401DSC02390DSC02381DSC02343