Maracatu Rural em Nazaré da Mata

Uma festa pelo povo e para o povo. A fantasia e a brincadeira dos cortadores de cana da Zona da Mata pernambucana foi a memória mais marcante de meu carnaval desse ano.

 

Escapando um pouco das ladeiras de Olinda, optei por dedicar um dia da viagem carnavalesca ao Pernambuco na cidade de Nazaré da Mata, coração fervente do baque solto, seus mestres de apito e coloridos personagens. Cerca de uma hora de estrada a partir do Recife, a cidade é um caldeirão fumegante de calor no meio da região canavieira. Ali se reúnem no carnaval algumas dezenas de grupos de maracatu rural, com seus brincantes que sofrem nos 40ºC pra celebrar suas tradições.

Já no caminho pela Zona da Mata uma cena me encheu de água os olhos. Na beira da estrada, debaixo de uma árvore, um caboclo de lança se vestia para a festa de frente ao canavial. Calçava a cabeleira, como que para testar os movimentos, e aquilo foi uma dessas cenas fantásticas que não cabe tempo de fotografar, mas que fica registrada por todo sempre na lembrança. 

O símbolo mais vistoso do Maracatu Rural é o Caboclo. Mas a festa, na verdade, é cafuza. Uma mistura de tradições indígenas com festejos negros, criada provavelmente nas senzalas da Zona da Mata pernambucana. Como tudo de tradição oral, é bem difícil encontrar informação precisa sobre as origens e personagens do cortejo. Alguns textos que li indicam, inclusive, que diversos daqueles que vi em Nazaré foram introduzidos nas últimas décadas, não fazendo parte da celebração original. 

De todo modo, o que vimos circulando na Sé de Nazaré da Mata foi uma festa de poesia sertaneja comandada por um Mestre de Apito (algo que lembra um repentista) que cantava versos próprios amarrados em um tema central. Cada grupo trazia seu mote, que ia de mensagens de apoio à Presidenta Dilma a uma retrospectiva dos grandes acidentes aéreos da história da aviação no Brasil (do Vôo da TAM à Chape). Uma salada geral, especialmente porque para cada 30 segundos de poesia se seguiam outros 60 de uma das danças mais frenéticas que já vi na vida.

E é aqui que entram os caboclos de lança. Eles são personagens de guerra que tem como função dançar em volta da banda protegendo os tocadores (e os outros personagens) dos ataques dos maracatus rivais. Dançam como que possuídos, agitando freneticamente a lança e circulando. E se a proteção física não é suficiente (eu tomei duas lançadas na cabeça fotografando… posso dizer que elas bastariam), eles também trazem a proteção espiritual em uma rosa na boca, além dos caboclos de pena, personagens responsáveis pela defesa sem armas. 

Ser um caboclo de lança é um ato de fé. Dançar sob aquele sol escaldante, coberto em roupas pesadíssimas, já seria por si um esforço sobrehumano. Para poupar energias, inclusive, recomenda-se que o caboclo não tenha contato (SEQUER ESPIRITUAL) com mulheres nos 15 dias que antecedem o carnaval. Pra que não lhe tome as energias. E além desse esforço no “dia D”, reza a tradição que o caboclo é o responsável pela confecção da sua própria gola, esse manto pesado que lhe cobre o corpo. 

Se somam no cortejo outros personagens, como a corte real, suas damas de honra, o Matias (espécie de abre alas do Maracatu), burra e o porta estandarte. Todos dançando em círculo na frente da Sé de Nazaré, ajoelhando para ouvir os versos do mestre de apito e pulando desembestadamente ao som da banda. 

Os maracatus variam mais de tamanho que de nome. Trazem, em regra, nomes de animais (águia, leão, carneiro…) com algum adjetivo esquisito (mimoso, curioso, altaneiro…). Já os tamanhos, esses são absolutamente heterogêneos. Desde alguns bastante pequenos (20 integrantes) até alguns que beiravam a centena.