O verde da grama do vizinho

Todos sabem que a grama do vizinho é sempre mais verde. Mas parece que o verde aqui é um tanto mais vivo, e não estou falando dessa mania bizarra de colocar abacate em qualquer coisa que se coma. Santiago, ou ao menos as regiões que visitei, tem um número muito razoável de parques públicos, áreas de lazer, ciclovias e áreas verdes em geral. Uma dor de cotovelo que não é a primeira vez que tenho, mas que parece dar pontadas mais fortes quando vem de um vizinho tão pobre e latino-americano quanto nós.

É tão claro que é possível ter uma forma diferente de viver a cidade: Há toda uma grandeza de desenvolvimento (humano) quando é natural que as crianças possam correr ao lado de crianças desconhecidas nas praças ao invés de ficarem trancafiadas em condomínios fechados. E não falo de uma questão de “segurança pública”. Esse tema parece ser tão sensível aqui quanto é em São Paulo. Mas sim de ter espaços propícios ao convívio espalhados pela cidade.

Em Santiago, margeia o principal rio da cidade (Mapucho) uma espécie de parque linear contínuo (que na verdade são muitos parques diferentes conurbados). Ao longo de todos estes parques, que cortam alguns bairros da cidade, trabalhadores fazem suas pausas de descanso, pais levam seus filhos e cachorros a passear, atletas correm ou andam de bicicleta e casais (muitos casais… quanto amor…) rolam na grama esbanjando calor latino. E esta faixa verde é apenas uma das muitas praças que vi espalhadas pela capital chilena, todas igualmente convidativas.

Isso faz as pessoas mais felizes? Realmente não sei. Todo mundo me diz que as pessoas de Santiago são mal humoradas (ouvi isso de locais, estrangeiros radicados aqui e turistas como eu). Senti um pouco isso também, na verdade. Mas não vejo como sair uma pessoa pior depois de uma caminhada vespertina ao redor de uma fonte. E não consigo achar desnecessário esse espaço de convívio, nem que seja para comer cachorro quente com abacate.

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Que petchuga de pojio esquissita

Como o Caetano, “Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”. Mas também a de Camus, de Neruda, de Dante, de Shakespeare e até, veja só, a de Paulo Coelho. Adoro os nós estranhos que a língua dá quando tento falar coisas em outros idiomas. Mesmo sem nunca ter tomado aulas de espanhol, alemão, japonês, chinês, em todas as viagens me aventurei a ensaiar algumas palavras básicas e, de vez em quando, até tentei me aprofundar em conversas mais longas.

Claro, quando a coisa fica séria eu tento ao máximo usar o inglês como ponte de conversação. Se eu quero ter certeza que me entenderam, não fico com firulas. Mas na hora de me divertir, “ah como é gostoso meu portunhol”. Amigos que já viajaram comigo riem dos erros bestas que eu cometo, de fazerem rir até o Luxemburgo, mas no fundo o esforço sempre arranca mais simpatia do que risos das pessoas com quem papeio.

Acho o espanhol especialmente divertido. Tanto na fonética quanto na semântica. Esses dias, cheguei a pensar em guardar um áudio do som ambiente de uma lanchonete em Punta Arenas. O cardápio era um só: Choripan com ou sem queijo e leche com plátano (sanduíche de linguiça e bananada). E a repetição frenética dessas palavras me fazia rir por dentro feito uma criança de vídeo do youtube. Choripan. Choripanes. Choriqueso. Queria aprisionar aqueles sons numa garrafinha, pra ouvir nas horas de mau humor.

A língua é um troço legal pra mim. Talvez por isso meu museu predileto em São Paulo seja o Museu da Língua Portuguesa, onde já fui como que 5 ou 6 vezes e sempre faço questão de levar as pessoas que gosto pra conhecer. Por isso às vezes sinto falta de uns museus parecidos pelo resto do mundo. Alguém conhece? Eu, sinceramente, nunca vi nada próximo. Nossa jabuticaba mais gostosa.

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Pôr do sol, Pôr do ano. Ou o Réveillon “de dia”

Gosto de organizar minhas fotos, não apenas na vida real mas também no Facebook. Essa coisa metódica de ordenar cidades facilita eu rever (reviver) e transmitir aos amigos determinadas coisas sobre aquele lugar. E também por isso adoro quando ouço de alguém: “Suas fotos me deixaram com vontade de conhecer aquele canto”.

Além das cidades, também tenho álbuns especiais em que compilo fotos de duas coisas que gosto bastante: Festas de ano novo (http://migre.me/nSd4X) e Pores de Sol (http://migre.me/nSd7l). E é aqui que entra minha viagem para a Patagônia.

Esse ano resolvi tentar passar a virada do calendário gregoriano em uma cidade em que pudesse ver AO MESMO TEMPO o por do sol e o início de uma nova translação. Para isso, algumas premissas: Deveria ser no hemisfério sul, por conta do Verão (que torna os dias mais longos); Teria que ser BEM ao sul, pra que anoitecesse de verdade depois da meia noite; Teria que ser uma cidade relativamente grande, já que não há queima de fogos na Antártica, por exemplo.

Achei Punta Arenas, a cidade mais ao sul do globo que preenche estes requisitos. Uma cidade tão nublada que quase impediu que eu conseguisse ver o “Fenômeno”. Assim, relativamente a mim, o lado pra onde foi a queima de fogos mesmo já estava completamente escuro, mas em direção à fresta nas nuvens via-se os navios de pesquisa lançando seus sinalizadores para celebrar o começo de 2015.

Enfim, checked.

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20 pra meia noite
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Diários de Bicicleta, Parte 2

Aprender a andar de bicicleta não é algo que você faz da noite pro dia. A cada vez que subo na magrela, sinto como se algo novo estivesse acontecendo. Mais equilíbrio, “ousadia & alegria”… Enfim, não faço nada de novo, é tudo uma questão de confiança. E se um dos objetivos do projeto era justamente conseguir aproveitar de um modo novo as minhas viagens, esse passeio chileno tem sido bastante sintomático da evolução. No meu último dia de Deserto, resolvi alugar novamente uma bicicleta e me mandar pra uma famosa trilha que existe perto de São Pedro. O caminho liga o vilarejo a dois pontos turísticos interessantes: Pukara de Quitor e a fantástica Garganta do Diabo.

Havia, porém, um “porém”. Alguns amigos um pouco mais experientes já tinham me dito que não conseguiram encontrar o capiroto, já que a sinalização trilhas é um tanto precária e nunca se sabe muito bem se o lugar está pra frente ou para trás. Mas a sensação de pedalar sozinho no meio do deserto (trepidando nas pedras, se molhando nas poças d’água do “Rio” que corta a região, entalando nos bancos de areia) foi a de um desafio pessoal sem tamanho. E, aos poucos, o medo ia cedendo espaço à confiança e, finalmente, ao prazer do vento no rosto, refrescando o calor intenso.

Errei o caminho algumas vezes; voltei ao sul, conheci um cardiologista mineiro que viajava no meio de um processo de reformulação da sua vida; vi ele ser sacaneado por alguma criança chilena e ter que voltar à pé pro pueblo; voltei a pedalar ao norte e, finalmente, lá estava eu no meio das pedras. Chegar à Garganta (ou Quebrada del Diablo) foi como um prêmio especial a todo esse processo de aprendizado, no Chile e, principalmente, no Brasil. Conhecida a “quebrada”, voltei ao sul como uma criança que se descobre superpoderosa. Acelerava, balançava a bicicleta, passava nas depressões com uma coragem nova e até imprudente. Me senti tão autoconfiante que parecia um veterano do pedal.

Aí eu caí.

Não consegui entender porque caí, mas foi o maior tombo que lembro de ter tomado na vida. Passei um tempo culpando a mim mesmo, depois a bicicleta, as pedras, o vento… Agora acho que não adianta buscar culpados, simplesmente me resignei. Cair nunca é bom, apesar dos conselhos hipócritas dizerem justo o contrário. Cair é fácil, dói, machuca, e é sempre melhor nunca ter caído. Especialmente quando se cai assim: De uma forma repentina, inesperada, sem conseguir entender o que você deveria ter feito de diferente para não ter caído. Levantar é difícil, mas é isso que realmente vale a pena.

Levantar não faz parar de doer. Até agora minha perna ainda tá doendo e eu não sei direito quando vai parar. Talvez nunca pare, como outras dores que sinto: O joelho operado depois de um jogo de futebol, o nariz que ainda sangra de vez em quando por conta de uma queda de infância. Mas levantar nos permite andar outra vez, voltar a pedalar. E me sinto confiante o suficiente pra dizer que levantei bem, confiante, e seguro de que posso pedalar mais. Aprendi que o corpo quente dói muito menos, e não é caindo que aprendemos, mas sim levantando e pedalando até a próxima queda. Sonhando, e se preparando, pra que ela nunca exista.

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Onde comi (e gostei) no Atacama

Tomei café da manhã por duas vezes no Roots Café (que também se chama Marley Café). Além da trilha sonora (Às vezes Jazz, às vezes new age, às vezes Raul Seixas), a comida também é interessante. Eles dizem ter o melhor café do Atacama (o que inclusive é a senha do Wi-Fi “elmejorcafe”), o que até onde eu consegui experimentar, é verdade.

Adobe: Talvez o mais “frequinho” dos restaurantes do Atacama. Uma fogueira no centro chama a atenção e protege do frio. A comida faz jus ao preço paulistano. Comi um peito de frango bem razoável e um “Camarão equatoriano a pil pil” fenomenal (eles te perguntam qual o ponto de picância que você quer. Fui de médio).

Delícias de Carmen (ou delícias de mercedes, como teimei em guardar): Recomendaram que eu comesse a Cazuela deles. Mas nas duas vezes que fui, havia acabado. Fiquei coma empanada (também recomendação) e fui feliz. A cerveja, como em praticamente todos os lugares que tomei no Atacama, é servida sem muita preocupação com o a temperatura.

Tierra Todo Natural: Tomei café da manhã um dia aqui. A lógica do restaurante é fiel ao nome: pães integrais, sucos de fruta gostosos, pratos saudáveis em geral.

Babalu Sorvetes: Uma sorveteria próxima ao Space Obs. Ali existem sabores “indígenas”, desde o clichê “Folha de Coca” até algumas (muitas) plantas e raízes locais. Vale experimentar.

La Plaza: Também me recomendaram a Cazuela deles, e também não tinha quando eu fui (tá osso). Mas tomei a sopa de tomate com umas Encilladas. Valeu a pena!

Blanco: Comi um salmão nesse lugar, com pêras e um molho meio adocicado. Bela pedida. O ambiente (os ambientes) é meio chiquetoso.

A gente do Atacama

Tá legal, eu aceito o argumento. Mas não me altere o samba tanto assim. Olha que a rapaziada está sentido a falta… Das conversas inesperadas com uma senhorinha no meio da rua, como aconteceu em Lisboa; Dos aprendizados com uma construção histórica, como aconteceu em Berlim; Das horas perdidas tomando café e lendo um livro, enquanto se ouve de canto de orelha as frustrações de um desconhecido, como aconteceu em Paris. Enfim: dessas coisas de gente.

Estou adorando o turismo entre montanhas, plantas e animais. Mas minha pegada de verdade ainda é ver gente e suas criações, que revelam no fim um monte de coisa sobre o seu criador. E assim tento espiar entre um passeio e outro, para além das onipresentes agências de viagem, a vida comum dos campesinos atacamenhos. O estilo pacato de andar na rua que se estende sob os olhos do vulcão. As crianças que parecem estar fantasiadas, mas na verdade vestem as cores das suas tradições. As senhoras, que parecem saídas de um filme indígena, com roupas e chapéus típicos.

Um aspecto bem curioso são os cães. A cidade é repleta de cachorros, a ponto de alguns a apelidarem de “San Perro do Atacama”. Muitos, grandes e gordos, que andam sujos pelas ruas de forma dócil e despreocupada. Alguns te seguem com as patas. Outros apenas com o olho. Uns, ainda, categoricamente ignoram sua presença (fazendo você ter que saltar quase três metros para entrar no restaurante). Oscilam, assim, entre o aspecto de cachorro sem dono e o de cão com todos os donos possíveis, já que toda a cidade parece ter um certo carinho pelos bichos.

Também encanta o lado religioso. A cidade tem muitas cruzes sobre as casas, feitas de barro e pedra, como que pedindo para que não desabem. E, além daquela procissão carnavalesca à Virgem de Guadalupe, vi também uma outra festa (estava sem câmera), provavelmente celebrando o natal, mas que reunia elementos de tantas cultuas que dificultava até acreditar que aquilo era uma celebração cristão: Tambores, pandeiros, danças ciganas coreografadas, muito colorido e, claro, a santa.

Ao contrário de outras cidades majoritariamente turísticas (como Bruges ou Praga), San Pedro parece não perder sua originalidade indígena. Diversas pequenas manifestações de cultura local surgem sem que um chapéu se estenda em busca de um trocado. No fundo, são manifestações sinceras de valor aos próprios hábitos, que não podem se perder em meio à maré de turistas. Viva Pachamama.

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O salar de Tara

Passeio 5

O Salar de Tara é o segundo maior salar do planeta, atrás apenas do salar de Uyuni. Essa frase, repetida com orgulho por muitos guias de turismo, não resiste a uma olhada no google earth. Tara é tão pequeno perto de Uyuni que deveria haver outro nome a lhe dar.

De todo modo, se tomei minhas notas direito, os salares se formam da evaporação das águas. Antes das movimentações tectônicas que criaram a cordilheira dos Andes, tudo aquilo era mar. A elevação das montanhas fez concentrar a água em grandes regiões que, com as secas prolongadas provocadas pela geografia do lugar, evaporou. Vão se os laços, ficam os anéis, e o sal ficou no solo, em camadas de até 1km de profundidade.

Antes de conhecer o salar, achava que encontraria uma espécie de miniatura do Uyuni. Mas Tara não tem aquele branquinho plano que aparece em toda foto de turista. Lá se destacam mais as formações rochosas diferentes e a fauna, especialmente flamingos e vicuñas, que compõem uma paisagem viva e lindíssima, em contraste com o aspecto árido do deserto.

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Vale da Lua

Passeio 4

O Vale da Lua é uma formação rochosa impressionante. Seca e monotônica, mas com uma textura e volume de arrancar espantos. À exceção do azul do céu, nada parece fugir do “Marrom-Areia”. Porém, os picos e paredões prendem o olhar com a mesma facilidade das paisagens mais vivas das outras regiões.

O passeio talvez tenha sido o que mais exigiu condicionamento físico. Para alcançar os melhores mirantes, de onde efetivamente se tem a noção da grandiosidade do vale, é necessário algum tempo de subida na areia fofa, sob o torturante sol atacamenho. Mas o esforço é recompensado com vistas amplas e desimpedidas, perfeitas para pensar na vida ou no que melhor lhe parecer.

Ao final, depois de uma passagem pelo igualmente grandioso Vale da Morte, o passeio termina no Por do sol do Vale da Lua. Um espetáculo de cores que cobre os vulcões Licancabur e Juriques, além da cordilheira que lhes faz companhia. Aqui, disputando a tapa um espaço com algumas dezenas de turistas, é possível ver o entardecer tomando cerveja e comendo empanadas, na tentativa mais clara que vi até agora de deturpação capitalista do turismo em San Pedro.

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A lenda do vulcão sem cabeça

Passeio 3, Lagoas Altiplânicas

Me encantam as lendas. Gosto das histórias que tentam simplificar aquilo que não podemos ou não devemos entender. As lendas mostram uma certa criatividade científica. O que não se pode, ou não se quer demonstrar ganha contornos mais literários, emotivos, mais fáceis de serem comprados como verdade.

Quando crianças fomos convencidos de uma cegonha gigante que trás bebês, um jeito bem estranho que os pais encontraram de evitar a resposta mais evitada de todas. Quando navegadores, fomos convencidos de um gigante no Cabo da Boa Esperança, ou de monstros marinhos nos limites do quadrado da terra. Ao ver um eclipse, os chineses se convenceram de que um dragão estava comendo o Sol, e tocaram seus instrumentos para espantar a fera.

Mas, principalmente, gosto daquelas que tentam jogar um pouco de lirismo na história burocrática das coisas. Por exemplo: Estes são os irmãos Licancabur e Juriques. Ambos se apaixonaram pela mesma vulcôa, Kimal, o que causou intriga entre os dois. A briga foi tão intensa que Licancabur, mais velho e mais forte, decaptou o irmão mais novo para ficar com o seu amor. O pai dos dois, Laskar, para castigar Licancabur, mandou Kimal para bem longe dos dois. Os quatro vulcões povoam o horizonte do atacama, e essa história indígena é muito mais interessante que a contada pelos geólogos do lugar.

Os índios, aliás, são mestres nessa arte. O pássaro Uirapuru, por exemplo, é a materialização do espírito apaixonado de um índio que se apaixonou pela bela Mayná. E essa é só mais uma das muitas lendas românticas que pontuam os muitos elementos da natureza para índios brasileiros.

Os cientistas que me desculpem, mas tenho pra mim que viveríamos muito mais se simplesmente não soubéssemos a origem real de diversas coisas. Essas lendas, confirmadas que realmente são verdadeiras, trazem um pouco mais de poesia para o banal do dia-a-dia. E se alguém de jaleco provar que são falsas, pois bem, pior pra verdade.

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O passeio às Lagoas Altiplânicas organizado pela Cosmo Andino passa pelo Parque Nacional de Flamingos, Chaxa, o Tallar (ou Piedras Rojas) e as lagoas Miniques e Miscante, onde acontece um almoço com vista espetacular.

Ao longo de todo o trajeto, os vulcões Liscancabur, Juriques, Laskar e Kimal compõem a paisagem.miniques 1 (1) miniques 3 (1) miniques 4 (1) miniques 5 (1) miniques 1 miniques 8 (1) miniques 8 (1) miniques 7 (1) miniques 6 (1) miniques 2 miniques 3 miniques 4 miniques 5 miniques 6 miniques 7 miniques 8 miniques 9

Uma mensagem de Natal

Costumo dizer que sou Ateu pra facilitar as coisas. Explicar minha relação com “Deus” talvez seja um tanto complexo pra família ou algumas pessoas dos meus círculos. Mas o fato é que não consigo desacreditar por completo.

Já fui católico, evangélico, flertei com algumas religiões orientais e tentei me envolver com as africanas. Mas, à exceção do tempo em que fui evangélico, nunca consegui me entregar verdadeiramente de coração a nenhuma dessas religiões. E religião é questão de realmente sentir.  E mesmo nos meus tempos de protestante, houve um dia em que a ficha caiu e percebi que estava ali muito mais pelo carinho imenso que eu tinha por alguns amigos da igreja do que propriamente pela crença em Jesus. A ideia de um “caminho único” nunca me convenceu, e sempre me deu certa repulsa à doutrina cristã (apesar de todos os outros inúmeros e valiosos valores que eu acabei internalizando).

Mas mesmo sem efetivamente acreditar em nenhuma religião, toda vez que me deparo com algumas criações do “inexplicável” reafirmo uma certeza quase inabalável na existência de um algo por trás de tudo. No fundo, as religiões existem para explicar o que não conseguimos compreender, e cada vez mais parecem “dispensáveis” diante do avanço da ciência. Mas sempre chego a um ponto em que a mera explicação matemática já não me convence mais.

O Atacama tem sido uma reafirmação disso tudo. As rochas, as águas, os animais, as plantas… tudo se organiza daquela maneira arrebatadora, harmônica, de modo que não consigo aceitar que não exista um engenheiro por trás disso tudo.

Não acredito no Deus interventor, aquele que ouve nossas orações ou traz de volta a pessoa amada em 3 dias. Não acredito no Deus professor, que nos traz boas coisas se agirmos como fiéis cordeiros. Não acredito no Deus recompensador, que garante a vida eterna se seguirmos seus preceitos, ou no Deus cruel, que nos joga no poço profundo por toda eternidade se agirmos contra estas regras durante esse nossa curta passagem na criação.

Mas acredito em Algo. Alguém que projetou essa harmonia toda, e preservar a harmonia (seja em nossa relação com os outros ou com a natureza) é uma forma de agradecer o fato de existirmos. Mas sempre com aquele pé atrás, de quem sabe que a verdade pode estar até mesmo naquela pequena tribo da Polinésia, que não manja tanto assim de marketing.

Enfim, feliz natal pra vocês. Comemorem o nascimento de Jesus Cristo ou o que melhor lhes aprouver.

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