Saindo do Cartoon

(Passeio 2, Parte 1, Tatio)

Geiser, pra mim, sempre foi algo de cartoon. Aquele monte de água que explode do chão de um jeito aleatório e põe pros ares os vilões do Pica-Pau. Era como a neve, as meias de natal ou o açúcar em cubos: esse monte de coisa que eu sempre achei que não existisse, que fosse criação de algum roteirista engraçado da Warner Brothers. O que é que há, velhinho?

Aí, ano passado, um amigo viajou para um país nórdico para ver, entre outras coisas, Geiseres. Fiquei cheio de curiosidade, tentando imaginar se tudo era tão caótico quanto nos desenhos animados. Se, de repente, você tá andando numa das ruas da Islândia e ele explode, como acontece normalmente com os bueiros aqui no Brasil.

Curiosidade matada. Em Atacama existe uma das maiores concentrações de geisers do mundo (na verdade, esse é o nome de uma das muitas formas desse fenômeno molhado), e saem tours diários de diversas operadoras para o meio do deserto, ver as águas rolarem.

Se não sofri com a aleatoriedade, sofri com o frio de -8ºC e o incômodo horário de acordar (4 da manhã). Mas o passeio valei a pena, especialmente pelo horário corujão. Chegar antes da horda de turistas é importante pra conseguir ver o fenômeno de verdade.

Nosso grupo, pequeno, tinha cerca de 8 pessoas, praticamente todos fotógrafos, o que gerou toda uma cumplicidade nas chatices do hobby: Sai da frente, espera um pouco, aguarda lá no carro que eu já vou…

Enfim, eis as fotos:

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Há piscinas termais e todos elogiaram bastante a temperatura da água...
Há piscinas termais e todos elogiaram bastante a temperatura da água…

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As companhias oferecem um café da manhã simples mas muito bem vindo durante o passeio.
As companhias oferecem um café da manhã simples mas muito bem vindo durante o passeio.
Chocolate quente: Um mimo essencial.
Chocolate quente: Um mimo essencial.
O sol nascendo no campo Tatio
O sol nascendo no campo Tatio

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Praia ou montanha? Os dois.

À exceção de alguns poucos programas no “pueblo”, meu turismo aqui em São Pedro (e o da maioria das pessoas) é centrado nos passeios oferecidos pelas dezenas de agências locais. Essencialmente, são tours guiados pelo deserto, mostrando a variedade absurda de paisagens que o lugar tem. Vou tentar, conforme for fazendo os passeios, traduzir um pouco nas imagens essa diversidade. O pacote com meia dúzia de tours (que você precisa de cerca de 5 dias pra fazer) custa U$ 300,00, aproximadamente.

O primeiro passeio que me aventurei foi à Laguna Cejar, e suas águas imensamente salgadas que teoricamente te impedem de afundar. A coisa mais espetacular da laguna é nadar tendo ao fundo as montanhas e vulcões, aproveitando para se esquivar da chuva de “pau de selfie” das pessoas ao seu lado. Tem um quê de farofa no ar, mas se você consegue chegar antes da hora de turistas (e eles sempre chegam juntos, na mesma hora) as paisagens são realmente impressionantes.

De lá para os Olhos do Salar, dois círculos idênticos (que ninguém explica direito a origem) no meio do deserto, cheios de água doce, bastante convidativos a um mergulho.

Por fim, o pôr do sol na Lagoa Tebinquinche, no qual as agências organizam uma espécie de “cocktail party” com pisco sour industrializado e alguns frios. A lagoa é repleta de pequenas trilhas que impedem o acesso dos visitantes às áreas de preservação, convidativas a um passeio romântico de fim de tarde.

Uma dica interessante: Não sei julgar outros quesitos, pois não foi a companhia que escolhi, mas a agência Grado Diez tem um caminhão bem interessante em que é possível subir no teto para ver o por do sol lá de cima. É uma vantagem competitiva pra quem gosta de se divertir com fotos.

Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Olhos do Salar
Olhos do Salar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche

Diários de bicicleta

A bem da verdade, fotografar com o celular não é a única reinvenção dessa viagem. A outra, porém, foi bastante programada. Como 2014 foi o ano que aprendi a andar de bicicleta, decidi que iria tentar experimentar algumas aventuras sobre rodas nessa primeira viagem. Por enquanto, tem sido melhor do que todo o esperado.

Como eu havia sonhado quando decidi aprender a andar, estar sobre rodas me abre algumas novas possibilidades. E em Atacama tem sido assim, podendo visitar lugares que são perto demais para um “tour guiado”, mas longe demais para ir a pé.

Hoje me enfiei numa auto-estrada e em algumas vias de terra batida, tentando ver com mais calma alguns pontos por onde o ônibus tinha passado na noite anterior. A paisagem lunar da estrada que liga Calama a São Pedro encanta pelas belezas e pelos detalhes. Ao longo da via, gigantescos reatores eólicos e milhares de postes com captação solar, as energias mais que abundantes no deserto chileno.

Entre uns e outros, algumas dezenas de memoriais às vítimas de acidentes de trânsito. Porém, ao contrário da sobriedade daqueles que vemos no Brasil, aqui os jazigos de alerta são bastante coloridos e invariavelmente acompanhados de uma bandeira chilena. Em alguns casos, descansa ali também o carro que levou o defunto embora.

Na entrada de São Pedro, uma quadra de tênis  de terra batida, construída de improviso como são de improviso nossos campos de futebol. Fiquei me perguntando se eles também faziam bola de meia pra jogar tênis. Andar de bicicleta me faz rir até das piadas sem graça que eu mesmo invento.

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No alto do morro, uma homenagem a João Paulo II
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Carabineiros – Siempre un amigo

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Quem não tem cão caça com Lhama

Ao que me parece, essa viagem será mais uma etapa do processo de reinvenção . Estava totalmente preparado para esta viagem: Comprei um tripé novo, um cartão de memória especial, mandei limpar as lentes e arranjei um disparador remoto. Tudo pra poder tirar as melhores fotos dos pores de sol e estrelas do Atacama. Infelizmente não vai ser dessa vez…

Mas estou encarando a toupeirice de ter esquecido o carregador muito mais pelo lado cômico da coisa que pelo trágico. É uma chance de reinventar meu processo de tirar fotos. Agora muito mais informal, menos técnico, com uma câmera simples de celular. Realmente gosto de guardar retratos, colecionar figurinhas dos lugares que vou e, no final, quem não tem cão caça com lhama.

Acho que no fundo isso tem tudo a ver com o que tá rolando, certo? Ter decidido parar no Atacama também foi um processo de reinvenção. Eu, menino amarelo de apartamento, nunca fui lá muito adepto de turismo natural. Encarar algo com menos “valor agregado” e mais “in natura” é uma descoberta curiosa.

Encare-se, pois. Se as fotos não serão tão boas, pelo menos a experiência será integralmente nova. E a desculpa para voltar ao deserto já existe: dessa vez, com o carregador.

Já estou abanando o rabo no Chile

Os donos de gato vão ter de me desculpar, mas o que me encanta mesmo é quem sabe abanar o rabo. Tem, inclusive, aquela piada gostosa do diário do gato e do cachorro ( https://o505.files.wordpress.com/2013/03/diarios.jpg?w=593 ) que, pra mim, é uma espécie de argumento definitivo na discussão eterna: Nada melhor que alguém que sabe ser reiteradamente apaixonado. Gosto nos outros, gosto em mim mesmo.

Hoje, no avião, mergulhado em 4 horas de vôo sem nenhum tipo de filminho (companhias low cost, um dos segredos pra viajar mais), acabei puxando papo com uma guria ao lado de quem sentei. Era a primeira vez que ela batia asas pra fora das fronteiras de Pindorama e eu acabei me perdendo nas conversas sobre como viajar é um negócio sensacional. Uma coisa puxa a outra, acabei falando sobre fotografia, sobre pessoas e, por algum motivo, falei sobre carnaval também. A esta altura ela, provavelmente já não me aturando mais, disparou um: Espera, a paixão da sua vida é viajar, fotografar, conversar com as pessoas ou o carnaval? Tô confusa. Eu não tinha percebido, mas usei a mesma frase todas as vezes: X é a paixão da minha vida.

O que pode parecer uma falsidade, na verdade é um excesso de sinceridade. Noves fora, sou como que um cachorro. E ninguém duvida da sinceridade de um rabo que abana quando vai buscar um graveto, ou uma bola, ou quando rola na grama, ou quando corre atrás do carro… no fundo, tudo é sua brincadeira predileta, como ele disse no diário. E acho que isso faz o cachorro (e a mim) muito mais feliz.

Me incomoda um pouco os obcecados, aqueles que abanam o rabo pra uma coisa só. São cansativos, monótonos, mesmo que eu também abane o rabo pra mesma coisa. Mas pior que eles, só quem nunca abana o rabo pra nada. Essa vida desinteressada, que torna as pessoas tão desinteressantes. Por outro lado, ter muitas paixões da sua vida, faz crescer mais vidas pras suas paixões. E é por isso que eu estou aqui, ouvindo o Cd de Sambas de Enredo 2015, lendo os livros que meus amigos me indicaram e com a câmera a postos para tentar fazer meu próprio ponto de vista de um lugar novo a conhecer.

Já estou abanando o rabo no Chile. Todos os líquidos estão devidamente acondicionados em embalagens transparentes de menos de 100ml e não há nenhuma tesoura ou objeto cortante em minha mala de mão.

 

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