A perfeição do casal desconhecido

Quem acompanha minhas fotos há um pouco mais de tempo sabe que desde sempre existe um assunto que puxa minha atenção: O Casal. Mesmo apaixonado por viagens e tendo namorado por muito tempo com algumas pessoas muito especiais, a verdade é que raramente fiz viagens românticas. Talvez duas vezes com a primeira namorada, mais algumas poucas vezes com a última, e só. A agenda, o dinheiro ou a idade, estes nunca me foram lá muito generosos.

Mas nem por isso deixei de ver na viagem de par uma poesia. Uma mensagem de união em descobertas que é poderosíssima. Uma poesia ainda mais rítmica quando conseguimos deixar de lado toda a realidade e se concentrar só na fantasia do casal desconhecido.

O casal desconhecido que viaja é sempre perfeito, não tem desencontros, não tem frustrações. O casal estanque na foto é aquele desejo que temos de perfeição num relacionamento: a cumplicidade, o companheirismo, o compartilhamento de gostos e objetivos. Eles são íntegros, seguros, individualmente enormes, mas como casal gigantescos. São mais lindos que a própria paisagem.

E se assim não são, pior pra verdade. A nós sempre vai ser melhor fingir que são. Pois é isso que nos acende o desejo, e o direito, de também ser. De encontrar no nosso relacionamento presente, ou futuro, esse estágio de equilíbrio. De descobrir em nós o que falta pra ser elemento daquele conjunto tão sólido. E pra isso, o casal desconhecido nem precisa existir, quanto mais ser sólido.

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Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche

 

Trilha pelo Vale do Guatim

Passeio 2, parte 3

A terceira parte do passeio aos Geiseres se encerrou no vale do Guattin, um treking simples por entre pedras e cactus em busca de uma minúscula cachoeira e um gigantesco cactus de cerca de 4 metros de altura. O cenário perfeito pra eu fingir que sou da aventura.

Por conta da altitude nos trechos anteriores, uma garota do tour não aguentou fazer a trilha e ficou na van.

Os cactus do vale crescem, segundo o guia, cerca de 1cm por ano. O que significa que aquele gigantesco está lá há um bocado de tempo.

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O triste fim do Vicunhão

Passeio 2, Parte 2, Fauna dos Andes

O Passeio dos geiseres de Tatio (ao menos na agência Cosmo Andino que foi com quem contratei) não se resume aos fenômenos molhados. Depois do café da manhã e do banho no piscina termal, o motorista nos leva Andes abaixo, com inúmeras paradas no meio do caminho. Os descansos acontece, essencialmente, quando cruzamos com animais na estrada. Tempo para tirar fotos, admirar os bichos e seguir viagem.

A Fauna andina tem alguns tipos de “camelos”, o que inclui as Lhamas e um bicho que lembra um veado, as Vicunhas. Esse ser dócil, no fundo, é um malandro cruel e poligâmico, fadado a um destino melancólico. Cada bando é composto por um líder macho e seu harém (cerca de uma dezena de fêmeas), bem como as pequenas vicunhinhas.

Quando o pequeno Vicunha macho cresce o suficiente para deixar o bando, ele vai em busca do sonho do harém próprio, construído com sangue e turbação. A ideia é avançar em bandos sobre as outras matilhas, tentando roubar as fêmeas do rival. Essa batalha sangrenta tem uma consequência meio óbvia: mais cedo ou mais tarde, o Vicunhão não dá mais conta do recado e perde todas as suas fêmeas para os novatos.

No fim, as vicunhas macho morrem solitárias no meio do deserto.

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As Vicunhas
As Vicunhas

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Saindo do Cartoon

(Passeio 2, Parte 1, Tatio)

Geiser, pra mim, sempre foi algo de cartoon. Aquele monte de água que explode do chão de um jeito aleatório e põe pros ares os vilões do Pica-Pau. Era como a neve, as meias de natal ou o açúcar em cubos: esse monte de coisa que eu sempre achei que não existisse, que fosse criação de algum roteirista engraçado da Warner Brothers. O que é que há, velhinho?

Aí, ano passado, um amigo viajou para um país nórdico para ver, entre outras coisas, Geiseres. Fiquei cheio de curiosidade, tentando imaginar se tudo era tão caótico quanto nos desenhos animados. Se, de repente, você tá andando numa das ruas da Islândia e ele explode, como acontece normalmente com os bueiros aqui no Brasil.

Curiosidade matada. Em Atacama existe uma das maiores concentrações de geisers do mundo (na verdade, esse é o nome de uma das muitas formas desse fenômeno molhado), e saem tours diários de diversas operadoras para o meio do deserto, ver as águas rolarem.

Se não sofri com a aleatoriedade, sofri com o frio de -8ºC e o incômodo horário de acordar (4 da manhã). Mas o passeio valei a pena, especialmente pelo horário corujão. Chegar antes da horda de turistas é importante pra conseguir ver o fenômeno de verdade.

Nosso grupo, pequeno, tinha cerca de 8 pessoas, praticamente todos fotógrafos, o que gerou toda uma cumplicidade nas chatices do hobby: Sai da frente, espera um pouco, aguarda lá no carro que eu já vou…

Enfim, eis as fotos:

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Há piscinas termais e todos elogiaram bastante a temperatura da água...
Há piscinas termais e todos elogiaram bastante a temperatura da água…

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As companhias oferecem um café da manhã simples mas muito bem vindo durante o passeio.
As companhias oferecem um café da manhã simples mas muito bem vindo durante o passeio.
Chocolate quente: Um mimo essencial.
Chocolate quente: Um mimo essencial.
O sol nascendo no campo Tatio
O sol nascendo no campo Tatio

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Praia ou montanha? Os dois.

À exceção de alguns poucos programas no “pueblo”, meu turismo aqui em São Pedro (e o da maioria das pessoas) é centrado nos passeios oferecidos pelas dezenas de agências locais. Essencialmente, são tours guiados pelo deserto, mostrando a variedade absurda de paisagens que o lugar tem. Vou tentar, conforme for fazendo os passeios, traduzir um pouco nas imagens essa diversidade. O pacote com meia dúzia de tours (que você precisa de cerca de 5 dias pra fazer) custa U$ 300,00, aproximadamente.

O primeiro passeio que me aventurei foi à Laguna Cejar, e suas águas imensamente salgadas que teoricamente te impedem de afundar. A coisa mais espetacular da laguna é nadar tendo ao fundo as montanhas e vulcões, aproveitando para se esquivar da chuva de “pau de selfie” das pessoas ao seu lado. Tem um quê de farofa no ar, mas se você consegue chegar antes da hora de turistas (e eles sempre chegam juntos, na mesma hora) as paisagens são realmente impressionantes.

De lá para os Olhos do Salar, dois círculos idênticos (que ninguém explica direito a origem) no meio do deserto, cheios de água doce, bastante convidativos a um mergulho.

Por fim, o pôr do sol na Lagoa Tebinquinche, no qual as agências organizam uma espécie de “cocktail party” com pisco sour industrializado e alguns frios. A lagoa é repleta de pequenas trilhas que impedem o acesso dos visitantes às áreas de preservação, convidativas a um passeio romântico de fim de tarde.

Uma dica interessante: Não sei julgar outros quesitos, pois não foi a companhia que escolhi, mas a agência Grado Diez tem um caminhão bem interessante em que é possível subir no teto para ver o por do sol lá de cima. É uma vantagem competitiva pra quem gosta de se divertir com fotos.

Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
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Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
Laguna Cejar
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Olhos do Salar
Olhos do Salar
Laguna Cejar
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Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche
Laguna Tebinquinche

Diários de bicicleta

A bem da verdade, fotografar com o celular não é a única reinvenção dessa viagem. A outra, porém, foi bastante programada. Como 2014 foi o ano que aprendi a andar de bicicleta, decidi que iria tentar experimentar algumas aventuras sobre rodas nessa primeira viagem. Por enquanto, tem sido melhor do que todo o esperado.

Como eu havia sonhado quando decidi aprender a andar, estar sobre rodas me abre algumas novas possibilidades. E em Atacama tem sido assim, podendo visitar lugares que são perto demais para um “tour guiado”, mas longe demais para ir a pé.

Hoje me enfiei numa auto-estrada e em algumas vias de terra batida, tentando ver com mais calma alguns pontos por onde o ônibus tinha passado na noite anterior. A paisagem lunar da estrada que liga Calama a São Pedro encanta pelas belezas e pelos detalhes. Ao longo da via, gigantescos reatores eólicos e milhares de postes com captação solar, as energias mais que abundantes no deserto chileno.

Entre uns e outros, algumas dezenas de memoriais às vítimas de acidentes de trânsito. Porém, ao contrário da sobriedade daqueles que vemos no Brasil, aqui os jazigos de alerta são bastante coloridos e invariavelmente acompanhados de uma bandeira chilena. Em alguns casos, descansa ali também o carro que levou o defunto embora.

Na entrada de São Pedro, uma quadra de tênis  de terra batida, construída de improviso como são de improviso nossos campos de futebol. Fiquei me perguntando se eles também faziam bola de meia pra jogar tênis. Andar de bicicleta me faz rir até das piadas sem graça que eu mesmo invento.

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No alto do morro, uma homenagem a João Paulo II
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Carabineiros – Siempre un amigo

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Quem não tem cão caça com Lhama

Ao que me parece, essa viagem será mais uma etapa do processo de reinvenção . Estava totalmente preparado para esta viagem: Comprei um tripé novo, um cartão de memória especial, mandei limpar as lentes e arranjei um disparador remoto. Tudo pra poder tirar as melhores fotos dos pores de sol e estrelas do Atacama. Infelizmente não vai ser dessa vez…

Mas estou encarando a toupeirice de ter esquecido o carregador muito mais pelo lado cômico da coisa que pelo trágico. É uma chance de reinventar meu processo de tirar fotos. Agora muito mais informal, menos técnico, com uma câmera simples de celular. Realmente gosto de guardar retratos, colecionar figurinhas dos lugares que vou e, no final, quem não tem cão caça com lhama.

Acho que no fundo isso tem tudo a ver com o que tá rolando, certo? Ter decidido parar no Atacama também foi um processo de reinvenção. Eu, menino amarelo de apartamento, nunca fui lá muito adepto de turismo natural. Encarar algo com menos “valor agregado” e mais “in natura” é uma descoberta curiosa.

Encare-se, pois. Se as fotos não serão tão boas, pelo menos a experiência será integralmente nova. E a desculpa para voltar ao deserto já existe: dessa vez, com o carregador.

Já estou abanando o rabo no Chile

Os donos de gato vão ter de me desculpar, mas o que me encanta mesmo é quem sabe abanar o rabo. Tem, inclusive, aquela piada gostosa do diário do gato e do cachorro ( https://o505.files.wordpress.com/2013/03/diarios.jpg?w=593 ) que, pra mim, é uma espécie de argumento definitivo na discussão eterna: Nada melhor que alguém que sabe ser reiteradamente apaixonado. Gosto nos outros, gosto em mim mesmo.

Hoje, no avião, mergulhado em 4 horas de vôo sem nenhum tipo de filminho (companhias low cost, um dos segredos pra viajar mais), acabei puxando papo com uma guria ao lado de quem sentei. Era a primeira vez que ela batia asas pra fora das fronteiras de Pindorama e eu acabei me perdendo nas conversas sobre como viajar é um negócio sensacional. Uma coisa puxa a outra, acabei falando sobre fotografia, sobre pessoas e, por algum motivo, falei sobre carnaval também. A esta altura ela, provavelmente já não me aturando mais, disparou um: Espera, a paixão da sua vida é viajar, fotografar, conversar com as pessoas ou o carnaval? Tô confusa. Eu não tinha percebido, mas usei a mesma frase todas as vezes: X é a paixão da minha vida.

O que pode parecer uma falsidade, na verdade é um excesso de sinceridade. Noves fora, sou como que um cachorro. E ninguém duvida da sinceridade de um rabo que abana quando vai buscar um graveto, ou uma bola, ou quando rola na grama, ou quando corre atrás do carro… no fundo, tudo é sua brincadeira predileta, como ele disse no diário. E acho que isso faz o cachorro (e a mim) muito mais feliz.

Me incomoda um pouco os obcecados, aqueles que abanam o rabo pra uma coisa só. São cansativos, monótonos, mesmo que eu também abane o rabo pra mesma coisa. Mas pior que eles, só quem nunca abana o rabo pra nada. Essa vida desinteressada, que torna as pessoas tão desinteressantes. Por outro lado, ter muitas paixões da sua vida, faz crescer mais vidas pras suas paixões. E é por isso que eu estou aqui, ouvindo o Cd de Sambas de Enredo 2015, lendo os livros que meus amigos me indicaram e com a câmera a postos para tentar fazer meu próprio ponto de vista de um lugar novo a conhecer.

Já estou abanando o rabo no Chile. Todos os líquidos estão devidamente acondicionados em embalagens transparentes de menos de 100ml e não há nenhuma tesoura ou objeto cortante em minha mala de mão.

 

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