Qixi!

Hoje é dia dos apaixonados na China. Eles comemoram nessa data há alguns séculos, como forma de celebrar uma lenda antiga na qual um casal (uma fada e um campesino) vive um amor impossível e são obrigados a viver separados pela via láctea.

Mas uma vez por ano (sétimo dia do sétimo mês lunar do calendário chines) os gnomos se juntam para fazer uma ponte e ajudar os apaixonados a se encontrarem no céu. Segundo uma amiga que fiz aqui, é a data em que as garotas (rolou um machismo sim) vão ao prédio mais alto que conseguem pra louvar a lua, pedindo para encontrar o amor verdadeiro (ou fortalecer o amor que já encontraram)… Talvez daí venha aquela canção “Lua vai, iluminar os pensamentos dela…”.

Isso tudo só pra eu ter uma razão de compartilhar com vocês esse belo buquê de ursos =) Como já disse aqui: qualquer maneira de amor vale a pena.

Um mau mentiroso

Alguns amigos vieram me dizer que as fotos que tirei na China mostram um lugar calmo, paradisíaco, de contemplação… Não caiam nessa lorota. Sou um fotógrafo muito do mentiroso. Fico parado por muito tempo, esperando aquela fração de segundos em que as coisas parecem bucólicas e românticas. Não se deixem enganar…

A China é, sem sombra de dúvidas, o lugar mais caótico que eu já visitei. Uma imensa 25 de março, mesmo nos lugares mais remotos. Nada, absolutamente nada, lá é fácil. Cheio de coisas incríveis, mas só pra quem tem disposição pra muito (MUITO) perrengue.

Essa foto, que deixei pro final, é um resumo disso tudo. Cheguei na China e fui direto pra esse lugar: A estação de trem central de Pequim, de onde partia meu transporte pra Coreia do Norte. Voltei pra China e, por coincidência, fiquei hospedado na frente da estação. Durante 8 dias acordei e dormi vendo essa imagem e ela não foi diferente em momento algum.

A qualquer hora do dia ou da noite (das 5h à meia noite, horário de funcionamento da estação) as filas para entrar no lugar eram exatamente deste jeito. Soma-se a infinidade de chineses aos protocolos infindáveis de segurança (qualquer lugar tem detectores de metal tais quais aqueles de aeroporto, em que você põe sua mala no raio x: shoppings, metrô, prédios comerciais…).

Minha opinião final sobre a China é justamente essa: Seria um dos lugares mais bonitos do mundo… não fosse todo o resto.

Diferentes reações ao diferente

Acho que todo turista ocidental que te bateu perna por essas bandas já passou por algo parecido. Um asiático desconhecido que se aproxima e pergunta: posso tirar uma foto com você? O que pode parecer um golpe, é só encantamento com o diferente.

A gente tem muitas formas de dialogar com o esquisito: medo, preconceito, admiração, repulsa… e até transformar num troféu pra mostrar pros amigos. Não sei muito bem o que faz uma ou outra reação acontecer, mas tudo seria tão mais fácil se as pessoas sempre agissem com a doçura dessa criança (e principalmente do pai dele).

Já tinha acontecido uma vez em Taiwan. Um rapaz desceu do ônibus pra tirar uma foto com o ocidental de 1.88cm que tava andando na rua com cara de distraído. Aconteceu de novo na fronteira com a coreia e, agora, na muralha da China. Eu estava sentado, tomando uma cerveja, admirando a vista, ouvindo Chico César, e reparei que tinha um senhor um tanto encabulado, indo e voltando em círculos em em volta de onde eu estava.

Eu, que já achava graça daquilo, olhei e sorri: Nihao. Com mímica, ele pediu pra que eu tirasse uma foto com o filho dele. Respondi em inglês, porque sou tonto: Sure. E ainda ganhei essa foto de recordação de uma dessas muitas pequeninices que fazem as viagens valer qualquer perrengue.

A rigor, os Chineses fazem de tudo pra morrer.

O trânsito maluco das cidades chinesas, em que cidades com mais de 5 milhões de habitantes têm poucos semáforos e as pessoas, os carros, os tuctucs, as bicicletas, as motos, os ônibus, todos se empurram na rua em uma “lei do mais forte” para descobrir quem chega primeiro do outro lado. Quem de perto vê esse caos logo jura: Todo chinês morre atropelado antes dos 10 anos de idade. Não se morre.

A higiene precária no preparo dos alimentos: Os restaurantes chineses são normalmente sujos, e espanta quando se tem a sorte de encontrar um mais ajeitado. Lavar as mãos, qualquer um que frequenta um banheiro na China logo percebe, é um luxo. A água, que mesmo mineral tem um gosto suspeito, põe em dúvida a qualidade dos alimentos. Quem de perto vê esse caos logo jura: Todo chinês morre de cólera antes dos 20 anos de idade. Não se morre.

A sinfonia de escarros nas rrrrruas: Basta parar por alguns instantes em qualquer esquina e não vai demorar a ouvir o gutural e tradicional som da China. Em uma acepcia peculiar, @s chines@s limpam seus pulmões profundamente e com frequência. E pra essa higiene bastante íntima, não tem hora nem lugar: Deu vontade, lança-se o que há de mal no corpo pra fora em direção à calçada. É tanto catarro que quem de perto vê esse caos logo jura: Todo chinês morre de tuberculose antes dos 30 anos de idade. Não se morre.

Os pulmões, por sua vez, são bem treinados. Os homens chineses (e algumas poucas mulheres) parecem fumar desde muito cedo. Vi um garoto chinês de 10 anos (que trabalhava em um restaurante, por volta das 2 da manhã) fumando. 1 bilhão de fumantes, ativos ou passivos. Quem de perto vê esse calos logo jura: Todo chinês morre de câncer no pulmão antes dos 40 anos de idade. Não se morre.

E se os pulmões se exercitam com frequência, o coração, esse é um guerreiro. Quem acha que americano come muita gordura, deve conhecer pouco da culinária chinesa do dia-a-dia. Em meio aos mercados noturnos das grandes e pequenas cidades da china, uma infinidade de gororobas fritas: Animais, vegetais, plantas, insetos… tudo que se possa jogar no óleo quente, vira um “”delicioso”” quitute. Quem de perto vê esse caos logo jura: Todo chinês morre de enfarto antes dos 50 anos de idade. Não se morre.

E aos domingos, perdido nos parques e praças de Pequim, pude constatar o inexplicável. Ali, em meio a árvores, lagos e a famosa poluição chinesa, senhores e senhoras praticam seus esportes, jogam seu carteado e esbanjam uma vitalidade que muito ativista de “Fora-Glútem” aí não tem… Quem vai entender a China?

Os Hutongs

Os hutongs são zonas residenciais construídas nos tempos imperiais da China em volta do palácio real. Com o tempo, a revolução comunista e a abertura de mercado, eles passaram por uma evolução paradoxal, em que mantém certa característica comunista (as casas são habitadas pelo povo, mas pertencem ao Estado).

Isso gera um paradoxo curioso. No centor de Pequim, região turística e imobiliariamente MUITO VALORIZADA (falamos de 30 mil reais o m2), moram pessoas bastante pobres, levando uma vida quase interiorana.

Tirei o domingo pra andar sem rumo por esses becos e vielas.

7×1, pra nós

Segundo a nova tradição, também fiz um passeio de bike quando cheguei em Pequim. Segui um tour e fomos pedalando por entre os Hutongs ao redor da cidade proibida, conhecendo um pouco dos lagos antes que as multidões ocupassem eles à noite. O passei em si foi bem bacana, mas a cena que eu vou guardar veio um pouco depois. Ao final do passeio, a guia nos levou pra almoçar em uma instituição que cuida de jovens com necessidades especiais, auxiliando a inseri-los na sociedade por meio de pequenos trabalhos e atividades.

Quando cheguei, os olhares de estranhamento com o estrangeiro foram ainda mais sinceros e escancarados que o normal. Os assistidos queriam tocar, falar e conhecer o diferente, tentando (em chinês) me fazer perguntas. Uma das primeiras: De onde você vem. Uma das poucas palavras que aprendi em Chinês: Ba Si. O lugar virou um estádio de futebol em comemoração de gol. De boca em boca os mais próximos gritavam pros mais distantes, pros que estavam em outras salas, pros que estavam na rua: Ba Si. Na cabeça deles, o Brasil é uma terra fantástica onde todos jogam futebol da hora que acordam à hora que dormem.

Em outra proporção, já tinha acontecido na imigração da Coreia do Norte. O processo de investigação é quase inquisitorial, com guardas sisudos e brutos que recolhem passaportes e formulários, enquanto vasculham sua mala. Nesse ambiente hostil, quando o fiscal pegou meu passaporte viu: Brasil. A testa franzida se desfez e se abriu, ainda que por poucos segundos, em um sorriso largo enquanto dizia: Brazil.

Na Ásia, não é comum vermos camisas de futebol de outros países (nem mesmo de times). Ao menos nos países que visitei até agora. Mas é fantástico como a canário sempre aparece, invariavelmente (Aqui na China, com a incômoda concorrência da Argentina… mas em menor escala).  Isso ainda deve levar um tempo (e muitos 7 a 1) pra mudar. E fico feliz que essa é a nossa maior embaixadora, ao lado do Carnaval e da liberdade sexual.

Temos um estereótipo que não trocaria por nenhum outro do mundo. Um estereótipo que arranca sorrisos, músicas, danças desengonçadas ou, pelo menos, um invariável “Cooool”. E isso devia nos encher de orgulho.

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O que já comi de estranho por essas bandas

Por essa eu não esperava, mas a viagem tem sido um bocado gastronômica. Talvez aquela primeira aventura na Malásia tenha aberto as portas do preconceito e me liberado pra comer toda sorte de coisa estranha, sem medo de intoxicação alimentar.

Tudo somado, nessa rodada já comi: Hambúrguer de burro, “Ovo preto”, sopa de cachorro, “noodles” gelado, o famoso pato de Pequim e um bocado de coisas apimentadas. Noves fora, nada que me fizesse morrer de amores (tirando o Hambúrguer de burro, que é realmente bom). Mas também não fiquei com muito nojo de nada que eu experimentei. No fim, é tudo comida.

E chama atenção o fato de os asiáticos comerem praticamente tudo sem muito nojo. Não sei se são os tempos de guerra ou qualquer outra coisa na filosofia deles, as o fato é que não é comum eles desperdiçarem nada. Muitos pratos são feitos com partes de animais que dificilmente comemos (pés, pescoço, alguns órgãos internos…

Tem também uma certa cultura do bicho fresco. Nos mercados mais locais (e até em algumas redes do tipo Carrefour) não é difícil encontrar aquários com diversos animais vivos, como peixes, cobras, tartarugas e insetos em geral (o mais estranho pra mim, bicho da seda).

Diversas coisas que vão continuar fora do meu cardápio, mas que acho uma experiência interessante experimentar.

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