“A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados.”

Há alguns dias, por provocação de uma pessoa querida, tenho pensado bastante nos muitos tipos de turista que existem. Nas imensas variações de viagens possíveis e na forma peculiar com que cada um de nós interage com a experiência de desatar os nós que nos prendem ao solo de nascimento. Ainda não tenho uma resposta consistente, mas já consigo identificar aquelas experiências que me provocam mais empatia, como as pessoas que viajam em busca de delicadeza. E nessa viagem conheci uma dessas.
A Patricia tem um blog de viagens e usa esse espaço como expressão dessa delicadeza no modo de ver as coisas ao seu redor. É explícito no seu jeito de escrever, como foi na longa conversa que tivemos a respeito da Grécia, a sua busca do cotidiano, do trivial. Mas, para encontrar essas pequeninices, é necessário mais que uma meia dúzia de dias. É preciso tempo, paciência e relaxamento. Do contrário, qualquer conclusão é afobada, é preconceito.
E essa busca de delicadeza implica sempre certa auto-descoberta. No fundo, é como se buscar no mundo. Encontrar a si próprio nas praças, cafés e calçadas das cidades de que se parte e chega. É se situar hipoteticamente no mundo, ou nos mundos, que a gente descobre no caminho (e descobrir que tudo na vida é hipótese). Se imaginar vivendo e se viver imaginando. Um trabalho a ser feito sem pressa e com muita disposição ao diálogo.
O sutil, muito das vezes, é uma projeção do que buscamos pra nós. É o que existe solto pelo mundo, pelas vivências e ocasiões, que só se enxerga nas situações de maré calma. Longe das filas de monumentos ou dos audio-guias de museus. Só se encontra em caminhadas aleatórias pelas ruas de um bairro residencial, ou na leitura despretenciosa de um livro em um banco qualquer. Talvez por isso, essas viagens se tornem um tanto uma aventura intra-si e não de circulação.
Enfim: Recomendo o blog dela tanto pra quem quer conhecer a Grécia quanto para quem quer só conhecer mais uma pessoa interessante.

(https://www.facebook.com/escribecuandollegues)

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O Bairro Anarquista

No meu último dia na Grécia acabei dedicando umas horas a seguir as dicas de uma amiga viajante. Fui atrás de dois passeios um tanto mais fora do circuito, um deles no bairro de Exarchia. O bairro já era famoso, mas ganhou as manchetes em 2008, por ter sido o centro de uma série de protestos que tomaram conta de Athenas por conta do assassinato de um garoto pela polícia local.

É um bairro universitário, centro nevrálgico dos grupos de extrema esquerda da Grécia. As ruas são completamente cobertas de grafites e cartazes desses grupos, principalmente anarquistas, e o ambiente é um tanto hostil a quem não é do metiê. Eu mesmo, na noite em que fiquei perambulando pelas ruas de lá, passei por uma situação meio estranha.

A praça central do bairro tava lotada. Cerca de 200 pessoas espalhadas pela praça, mas um percentual maior concentrado em volta de uma fogueira no centro. Bêbados, cantavam e tocavam (mal e porcamente) violões. Uma meia dúzia de vendedores de drogas e um mercado consumidor imenso.

Quando me aproximei, um cachorro começou a me intimidar. Parecia ter sido mandado por um dos frequentadores da praça (sim, 200 pessoas lá, apenas pra mim ele latia). Somado aos olhares desconfortáveis, senti que eu (turista) não era muito bem quisto por ali. Fiquei pouco tempo e voltei pro apartamento. Deixei pra fazer as fotos no dia seguinte, com dia claro e ambiente menos hostil.

Curiosamente o bairro vive um processo de gentrificação. Essa cena convive com um número bem razoável de restaurantes e bares de alto padrão, e li que isso tem despertado algumas animosidades no bairro. Por outro lado, existem também alguns restaurantes bem peculiares por ali.

O bairro, no fundo, não é perigoso. Desde que saiba se comportar. Fica a dica pra quem for visitar Athenas.

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