Avareza

Posso te mostrar meu brinquedo de infância? Seu nome é Tomas, e ele me disse que os meninos riam dele porque seu nome era estranho. Correu nos arbustos e trouxe planta. Quebrou o graveto no meio e soprou meia dúzia de bolas de sabão. Riu dos meus olhos espantados.

Tomas é um garoto do interior da Indonésia que cresceu em Pindul. Aprendeu inglês vendo filmes na TV e disse que sonha em conhecer outro país. Mas tem medo das leis estranhas… Por exemplo, uma vez foi pra capital e conheceu uma garota linda que não usava véu. A garota deixou ele pegar nos peitos dela. Mas depois falou que ele tinha que pagar por isso! Ele traumatizou.

Perguntei pro Tomas o que ele gosta de comer. Da Indonésia? Sim. Da Indonésia ele gosta de pato. Mas do mundo todo ele ama McDonalds.

Ele disse que era bom que eu não era cristão. Assim era mais fácil eu virar muçulmano. Mas não se alongou muito no assunto… Preferimos rir das folhas que faziam bolhas e das mulheres que não usam véu.

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Soberba

A festa prometia ser um fracasso de gente grande. Duas dúzias de viajantes sem perfil pra isso, num convés de navio pequeno, exaustos de 3 dias de navegação e sol. Um setlist de músicas antigas, um estrobo especialmente cafona e um tanto de bintangs quentes, a horrenda cerveja indonésia. Todo mundo um tanto acabrunhado, nesse jeito adulto de ter medo de se achar ridículo, sentado de canto, como que ali estivesse apenas por educação. Até que ela começou suas gracinhas.

Sou um sem jeito pra crianças. Desengonçado de corpo e alma, nunca sei o que falar ou como agir com um pequeno. Mas me divirto olhando, meio gauche, suas brincadeirinhas. Filhinha de um casal francês, que viajava com toda família (incluindo vó e tios) no barco pra Komodo. Atarantadinha, corria entre um deck e outro por todo o dia e, como se sua energiazinha não pudesse ter cabo, passava cada minuto das paradas dando suas nadadinhas nos corais, jogando seus joguinhos de bola ou brincando com as conchinhas do mar.

E como quem não aprendeu ainda o que é ser ridículo, começou suas dancinhas sob o colorido das luzes improvisadas. Imita um robozinho. Sai de pulinhos de ponta a ponta. Se repete infinitamente em seus truquinhos de mímica. Monopoliza a pista e os olhares da gente sem jeito. Tira pra dançar a amiga que fez durante a viagem.

As duas tinham uma química tão cativante que olhos desatentos podiam até achar que eram mãe e filha. A suíça (que encontrei ainda em Gili, num primeiro contato de certa antipatia) se mostrou um dos personagens mais iluminados da viagem. Uma mulher de doçura só comparável à de sua companheira de viagem, cuja leveza cativou os carinhos da pequenininha.

Dançavam ridículas, mas divertidas, até criarem uma coreografiazinha bobinha, que fez questão de ensinar a todos os que estavam sentados. E o pedidinho de uma criança sorridente é sempre mais forte que a soberba dos que se acham mais fortes que o ridículo: um a um todos se levantaram e puseram a fazer a coreografia. Os braços em ondas iam e vinham, destravando sorrisos até que os gestos virassem gestinhos. Pois pronto, já estavam todos desarmados.

Aí, até que aquelas musiquinhas já não eram tão ruins. O barquinho de inadequado virou exótico. E as Bintangs… bem, essas continuaram sendo bintangs. Mas a festinha, essa foi fantástica, mesmo que poucos minutos depois de dar início a tudo a pequenininha, como cabe aos pequenininhos, tenha ido dormir.

Como é minúsculo quem tem medo de se achar ridículo.

Por que Indonesia?

A ideia de viajar para a Indonesia surgiu depois de muitas conversas com viajantes mais experientes que eu. Quando se vaga pelos países alheios a gente sempre encontra com pessoas que estão dedicando a vida exclusivamente a viajar. Às vezes por pouco tempo, às vezes sem prazo certo pra terminar. É um tipo de viajante muito peculiar, normalmente gente que surta com o trabalho ou que acabou de terminar a faculdade, e que decide sair sem rumo pelo mundo.

Essas pessoas normalmente tem um portfólio de países tão grande no currículo, que consegue comparar experiências e chegar em peculiaridades que podem fazer uma viagem especial.

Nas conversas de mesa de bar que tive com gente com esse perfil, sempre perguntava: Qual o melhor lugar pelo qual você já passou? Claro que as respostas eram difusas, e que a experiência de cada um é diferente da do outro. Mas a Indonésia sempre aparecia com uma frequência grande nesses papos de boteco. Isso me encorajou a pesquisar mais sobre esse país que, confesso, nunca tinha pensado antes em visitar.

Pois bem, ao mesmo tempo que recebia boas notícias vindas da Indonésia, também recebi muitos desestímulos. As pessoas apontam uma série de problemas no país, especialmente relacionados às dificuldades de mobilidade. Muita gente reclamou dos horários caóticos dos transportes; o trânsito insuportável; a escassez de opções… Não posso dizer que as pessoas estavam mentindo, mas na prática, olhando agora em retrospectiva, tenho certeza que o Diabo não é tão feio como se ponta. Os elogios se mostraram bem mais verdadeiros que as críticas e os perrengues, com certa dose de paciência e/ou uns trocados a mais, são facilmente superados.

Preços ridiculamente baratos

Noves fora, a Indonesia foi uma das viagens mais baratas que já fiz na vida. Tive, claro, uma vantagem competitiva: Consegui pegar as passagens numa promoção de milhas, e os bilhetes do Brasil até a Indonésia não são exatamente baratos. Mas fora os vôos de cá pra lá, tudo no país é ridiculamente barato.

Por exemplo: Não é difícil encontrar um bom hostel por algo como R$ 30,00 por noite. E mesmo pra pessoas mais frescas (como a idade me tornou), um quarto individual simples pode sair por algo como U$ 17. Uma dupla de amigas conseguiu em Flores, próximo à Ilha de Komodo, por algo como U$ 12, um quarto para duas pessoas, em um hotel que não era dos piores. O hotel mais caro que fiquei, que tinha uma piscina bem bacana, de frente pra uma pequena plantação de arroz bastante cênica, me custou U$ 30. Esse quarto, que tinha ar condicionado e um belo café da manhã servido na varandinha do quarto, comportava facilmente três amigos (uma cama de casal tipo king e uma cama de solteiro).

A comida também, em geral, é bastante barata. Tirando os restaurantes estrelados, em que se paga o mesmo que um restaurante mediano em SP (e come-se pior, na minha opinião, apesar de ter o lance cultural de experimentar os temperos diferentes deles), os restaurantes comuns vão te cobrar valores bastante acessíveis. Um prato de comida num restaurante comum custa cerca de 7 reais (minhas pedidas seguras normalmente eram o “risotto” deles e um negócio chamado Gado-Gado, que são vegetais cozidos com molho de amendoim).

Uma história curiosa aconteceu em um dos tours que tava fazendo em Bali: Eu vi um restaurante na estrada que era um dos poucos que tinha resenha no Trip Advisor por perto de onde estávamos. Pedi ao motorista pra pararmos ali, ele disse que era um restaurante caro, se isso não era um problema? Falei que não e ficamos por ali mesmo. Quando veio a conta, vi que o caro para ele significava algo como R$ 25,00 (detalhe: estamos falando de almoço com bebida e café para DUAS pessoas).

Por falar em motorista, isso também tem que ser colocado nesse capítulo de preços. De fato, como as pessoas tinham me dito, o sistema público de transporte aqui em Bali não é dos melhores. Então, o ideal é meter a mão no bolso e recorrer a um tour, privado ou coletivo. Como minha viagem foi um tanto mais apressada, fiquei com a primeira opção. Mas daria pra gastar um terço do que gastei se optasse pelos coletivos.

E mesmo “chutando o balde”, estamos falando de gastos relativamente modestos. Eu contratei um motorista que falava um inglês “ok”, um carro confortável com ar condicionado, gasolina, estacionamento e pedágios, tudo por cerca de R$ 175,00 por dia. Se eu estivesse acompanhado, daria pra dividir esse valor com até 6 pessoas, já que o carro comportava 7. O motorista me disse que o preço seria o mesmo, ainda que o carro estivesse cheio. O valor me dava direito a tantas horas quanto eu aguentasse, o que, no último dia, significou algo como 14 horas.

Os vôos internos são mais caros do que reza a lenda. Mas ainda assim é possível conseguir transporte entre as cidades por preços que não são extorsivos.

Idioma, cordialidade e barganha.

Ninguém que encontrei na Indonésia falava um inglês decente. Mas todo mundo falava algo, o que é bem fantástico. Você pode não conseguir os melhores guias pra te explicar as coisas locais, mas qualquer pessoa aleatória na rua vai ajudar você pras coisas simples.

Aliás, baita povo simpático. Mesmo nos centros mais turísticos, como Ubud, todo mundo é bastante receptivo e carinhoso.

É chato, é verdade, a insistência das pessoas em tentar ganhar dinheiro de alguma forma. Taxistas, principalmente, mas outros serviços voltados a turistas também são bastante insistentes. Outra coisa insuportável é a cultura da barganha: A maioria dos lugares de comércio vai te dar como primeiro preço algo que é 10 vezes mais caro que o valor de fato do produto. Pra quem, como eu, não gosta de dar preço no trabalho alheio, isso é realmente insuportável. Mas, se não quiser bancar o trouxa, vai ter que gastar um tempinho discutindo preço com o vendedor.

Reservar antecipadamente ou não?

Por conta do terrorismo que alguns amigos fizeram, resolvi me preparar pra essa viagem com bastante antecedência. Reservei tudo ainda no Brasil pra ter certeza que nada seria perdido, evitando perrengues. Bem, me arrependi.

Não sei se em alta temporada seria diferente, mas agora, em Abril/Maio, foi algo totalmente desnecessário. Tudo poderia ser comprado na hora e, principalmente, pagando muito menos. Paguei, em média, 25% a mais que as pessoas que chegavam nos lugares com a cara e a coragem. Estou falando de hoteis, passeios, tours etc.

Yogyakarta – O começo do roteiro

Minha viagem pela Indonésia começou pela cidade de Yogyakarta (ou Yogya, pros íntimos). Curiosamente, muitos (muitos mesmo) dos que conheci ao longo da viagem, nunca pensaram em visitar a cidade. Pois pra mim foi talvez o trecho mais interessantes.

A principal atração de Yogya são os dois maiores monumentos da Indonésia: Prambanam e Borobudur. Ambos construídos por volta do século nove, tempo em que viviam em aparente harmonia Hindus e Budistas.

Borobudur é o maior monumento budista do mundo. São 504 estátuas espalhadas pelos andares superiores do monumento, 72 dos quais enclausurados em “stupas”. O monumento fica a cerca de duas horas do centro de Yogya e a melhor hora do dia pra visitar é no nascer do sol. Aliás, em Yogyakarta eles exploram muito bem o aspecto comercial do nascer e do por do sol. Diversos templos e/ou monumentos têm programas especiais pra essas horas, inclusive com tickets diferenciados, como é o caso de Borobudur.

Contratei um tour especial para Borobudur que me custou 8 Dólares de transporte + a entrada do monumento, que, para o nascer do sol, tem o salgado preço de R$ 100,00. Mas é um dinheiro muitíssimo bem investido. É uma daquelas experiências de “uma vez na vida”. Apesar de relativamente cheio (cerca de 50 pessoas quando fui), é uma experiência de paz imensa. O horizonte sendo cortado pelos cânticos muçulmanos matinais; os pássaros ensaiando os primeiros vôos da manhã; o sol nascendo vagarosamente e iluminando as “stupas”. Momentos realmente inesquecíveis.

Passado o nascer do sol, começam a chegar as hordas de visitantes. Aí o lugar perde toda a paz inicial. São muitas e muitas excursões de estudantes, além do volume normal de turistas. Uma coisa curiosa é que, como a cidade recebe muito menos turistas que Bali, por exemplo, as pessoas são muito menos acostumadas com estrangeiros. Eu parei de contar quando tirei a 45ª foto com adolescentes (e até alguns adultos) que queriam mostrar nas redes sociais o estrangeiro que eles conheceram. Já tinha passado por situação parecida na China. Mas em Yogya foi muito mais frequente.

Na saída do monumento tem alguns jardins imensos onde é possível se esconder e relaxar um pouco. Daí, minha dica pra uma visita tranquila a Borobudur é chegar para o nascer do sol e, por volta das 8 da manhã, ir lagartixar nos jardins.

Não fiz isso, mas é possível se hospedar ao lado do monumento. Há um hotel dentro de Borobudur. Mas como o lugar é longe de tudo, acho que só vale a pena se vc tiver muitos dias de férias e resolver passar o dia todo por lá (por do sol de um dia, nascer do sol do outro… parece uma boa). O mesmo hotel também oferece um belo buffet de café da manhã, que pode ser comprado à parte.

Para o por do sol, um lugar bem bacana é o outro monumento, Prambanam. Como eu disse, construído na mesma época de Borobudur, segundo o guia tratou-se de uma competição de vaidade entre as lideranças religiosas de budistas e hinduístas. Mas, ao contrário de Borobudur, os terremotos de 1100 destruíram quase que completamente Prambanam. Originalmente eram 240 torres, hoje menos de 20 estão de pé. Mesmo estas, reconstruídas, como um imenso quebra cabeças. É impressionante imaginar eles juntado os cacos daquelas construções para montar, sem nenhum modelo prévio, o que se imagina ser a estrutura original.

Ao contrário de Borobudur, eles não têm um programa especial de visitação no por do sol. Acontece que o por do sol lá é também muito bonito e, absurdamente, o templo fecha 30 minutos antes do por do sol. O truque é (e muitos “sunset-hunters” fazem isso) ficar driblando a segurança, já que o templo é gigantesco.

Tanto Borobudur quanto Prambanan parecem saídos de outro planeta. São estruturas imensas, de formas completamente atípicas pra quem, como eu, não está acostumado às religiões asiáticas. E inspiram uma paz incrível.

Para quem está com muita muita pressa, é possível ver os dois em um único dia. Mas acho que isso tende a minimizar a experIência. Eu recomendaria ficar 3 dias em Yogya, um para cada templo e um terceiro para rodar a cidade. E aí, combinar os dias dos templos com outros passeios.

Fui em um passeio de caverna chamado “Goa Pindul”, achei bastante sem graça.

Há alguns outros templos e monumentos espalhados pela cidade, especialmente ao redor de Pranbanam. Alguns rendem, pelo que li, pores de sol bastante bonitos.

O palácio das águas, a julgar pelo trip advisor, é uma daquelas atrações do tipo “ame ou odeie”. Eu fiquei com o primeiro time. Um lugar simplório, é verdade, mas que encanta pelas cenas de vida comum. Os adolescentes brincando, as vilas do entorno, os artistas trabalhando… Gosto disso.

Uma rua bastante famosa de lá (Majoboro) lembra uma espécie de 25 de Março. Achei um bocado Jeca a forma de as pessoas exaltarem aquilo como uma atração turística. Mas a verdade é que 9 entre 10 guias colocam aquela região como uma atração especial da cidade.

Rodar pela cidade é especialmente interessante. Ao contrário das outras áreas mais turísticas da Indonésia, Yogya é de maioria muçulmana. Mas de um islamismo meio mestiço, sincretizado com elementos do hinduísmo. Além disso, os hábitos são bastante provincianos, e é uma delícia ver os adolescentes com seus violões pelas ruas e vilas.

O transporte da cidade é comummente feito por umas bicicletas chamadas becaks. São bikes com um sofazinho pra duas pessoas na frente, que podem te transportar por alguns kilômetros (algumas poucas são motorizadas). Mas o meio de transporte mais pitoresco são uns carros curiosos que circulam por próximo ao palácio central de Yogya. São como fuscas (tem alguns outros modelos também, mas a maioria é de fuscas) adaptados. Substitui-se os pneus por rodas de bicicleta, o motor por correias. Ilumina-se por uma infinidade de neons e motivos de desenhos animados… Voilá… o carro mais brega que já vi na vida.

Da primeira vez que vi, achei que fosse algo pra agradar as crianças. Mas passeando à noite pelas ruas de Yogya, vi que a grande maioria dos que andam nos fusquetas são jovens casais de adolescentes. Especialmente ao redor de uma praça bem peculiar chamada Alun Alun. É uma praça com duas árvores no centro, na qual as pessoas jogam um jogo no qual você tem que vendar os olhos e atravessar a praça pelo meio das árvores. Visto de fora, as árvores estão tão distantes uma da outra, que parece estupidamente fácil. Mas quase ninguém consegue!

Ao redor das árvores, dezenas de barraquinhas simplórias de comida servem coisas locais. As pessoas sentam no chão e comem sobre pequenos tabuleiros. 

Gastronomicamente, não comi nada digno de nota em Yogya. Mas disseram que o Gudeg é o prato típico de lá… Não comi por um motivo bom: No dia em que fui no restaurante que, segundo os guias, servia um bom Gudeg, ele tava fechado para um casamento de uns figurões importantes da cidade. Pincelei a situação aqui (https://404destinos.com/2016/04/24/casamento/)

As crianças em Yogyakarta são especialmente simpáticas. Menos habituadas a turistas, elas não se acanham e puxam papo com você o tempo todo. Muitas pedem que vc fotografe elas (“mister, mister, photo, photo”), outras se escancaram em risadas largas por ver um estrangeiro.

Yogyakarta é também uma região produtora do chamado “Kopi Luwak”, também conhecido por “Cat-Poop-Cino”, “Cafezes” ou Café de cocô de gato. É famoso por ser o café mais caro do mundo. Isso porque a produção é necessariamente bastante pequena. Os grãos são colhidos no chão das florestas do sudeste asiático, depois de comidos e cagados por pequenos gatinhos (Civet). Como o grão é “digerido” junto co outras frutas comidas pelo gato, ele ganha um aroma meio diferente. E como o grão não é efetivamente processado no estômago do gato, ele sai quase como entrou. Depois de limpar e descascar os grãos, passa-se ao mesmo processo de torra de todo café. No Brasil, sei que uma xícara desse café é vendida por uns R$ 40,00. Aqui, consegue-se por algo como R$ 5,00, ainda assim caro pra um café, né?

E, sinceramente, nem achei tanta coisa assim. É um bom café, mas só.

Em Yogyakarta fiquei hospedado em um hotel chamado Adhistana. Um quarto com ar condicionado, duas camas de solteiro bem confortáveis. Café da manhã bem razoável. Chuveiro mediano, de água quente e fria. O hotel tem uma piscina bem bonita e a decoração das áreas comuns é bacana. A localização poderia ser um pouco melhor, mas não é ruim. Paguei U$ 20,00 por noite.

As ilhas Gili

As ilhas Gili são um conjunto de três ilhas próximos à costa da ilha maior de Lombok. São um destino famoso de Lua de Mel, mas também de turismo-balada, especialmente a ilha maior de Gili Trawagan (ou Gili T). Não fui pras duas ilhas menores, Air e Menon, mas os relatos de outros viajantes dizem que são lugares mais tranquilos.

Gili T tem dois lados bastante claros. O lado leste, onde fica o atracadeiro dos barcos, é cheio de bares agitados, agências de turismo e uma molecada (Australiana, principalmente) de 18 a 25 anos, que estão ali pras festas que vão noite a dentro. Nesse lado também ficam as pousadas mais baradas (preço médio, U$ 18 por um quarto pra duas pessoas).

O lado oeste tem resorts mais sofisticados e bem cênicos pra pores de sol. Os resorts também têm seus bares, que vendem bem a localização privilegiada pra por do sol. Foi meu lugar predileto da ilha, já que não curto tanto a agitação. Aqui o espírito é de relaxamento e é tudo bem vazio (exceto, claro, na hora do por do sol).

Dar uma volta completa na ilha demora cerca de 2 horas à pé (ritmo tranquilo). E é bem comum na ilha o aluguel de bicicleta, algumas especialmente adaptadas pra andar nos trechos de areia.

Além disso há algumas escolas de surf e muitas de mergulho.

As praias são bonitas mas, pra mim, bem menos interessantes que as do Caribe. Ou seja, não gastaria muito do meu tempo em Gili, já que estamos mais perto de ilhas mais bonitas. Mas, repito, não sou tão “da balada”, e esse parece ser o principal motivo que traz as pessoas pra Gili T.

Perto do porto há um mercado noturno de comida, mas nada ali me parecia muito interessante. Não confio muito na higiene na Indonésia, então sempre fico meio receoso com essas comidas de rua. Aliás, em se tratando de comida, nada na ilha foi bom. Comi em alguns restaurantes mais “chiquetosos” e sempre saía com a sensação que teria sido melhor comprar um pacote de biscoitos no mercadinho.

Mas a hospedagem foi bem bem legal. Um lugar que me custou U$ 20,00 por noite, mas que cabiam umas 4 pessoas no quarto (uma cama de casal, duas de solteiro). Uma piscina bacana e, principalmente, uma equipe bastante simpática. A pousada chama Little Woodstock e é um tanto mais escondida. Apesar da caminhadinha até as praias, recomendaria esse lugar aos amigos.

Expedição a Komodo

Parti de Gili em direção às Ilhas de Komodo, onde vivem os famosos Dragões, répteis que chegam a 3 metros de altura e que só existem por ali. Me juntei a uma excursão organizada pela Perama, uma companhia onipresente nos lugares (e alguns menos) turísticos da Indonésia. Segundo as resenhas que li na internet, é a agência de turismo mais consolidada do país, o que me motivou a reservar com eles ainda no Brasil (pagamento por Paypal).

O Tour, que chama “Caçando os Dragões de Komodo com câmera” pode ser feito em 3 ou 5 dias. A diferença entre um e outro é que no segundo faz-se uma viagem de ida e volta de Lombok a Komodo. Fiz o primeiro, porque as resenhas que li na internet diziam que o retorno era “mais do mesmo”. Esse tour custa cerca de U$ 100,00 e inclui as refeições dos três dias de passeio, exceto bebidas que são pagas à parte (preços honestos).

Esse é o preço do pacote “mochileiro” que eu comprei. Nele você não tem direito a uma cabine, mas sim a um colchonete e um lençol, pra dormir no chão do deck superior do barco. O pacote pra ter direito a uma cama em cabine custa o dobro disso.

Em alta temporada talvez valha a pena comprar o pacote mais caro, porque o deck pode ficar apertado demais com o barco lotado. Estávamos com 26 pessoas na viagem e já parecia, pra mim, o limite. Mas a lotação teórica do barco é de 50 passageiros. Não sei muito bem como eles fazem pra caber…

Pra mim, esse número de 26 pessoas foi perfeito. Não lotou, mas também tinha um número suficiente de pessoas pra render conversas interessantes. Além disso, quem topa dormir num chão de barco, normalmente são viajantes mais aventureiros. Daí, as conversas normalmente rendem boas dicas de lugares “diferentes” pra visitar.

O primeiro dia, na verdade, é todo terrestre. Faz-se um corte de ônibus por dentro da Ilha de Lombok, fazendo uma parada no caminho para conhecer um templo ecumênico (Muçulmano, Hindu e Budista) e outra ao final, no porto oeste de Lombok. Nesse porto, eles organizam uma atividade de integração, com algumas gincanas um tanto bobas. Mas a graça dessa parada está no fato de as crianças do vilarejo local virem participar da brincadeira.

São um bocado mais tímidas que as crianças de Yogya, talvez por estarem mais acostumadas à presença habitual dos turistas, especialmente naquela festa (que deve acontecer duas vezes por semana, frequência de passeios deles). Mas depois de um tempo de música e jogos, elas acabam se soltando e interagindo bastante =).

Depois das brincadeiras, eles servem um jantar no próprio barco e iniciam a navegação noturna.

A noite no barco não é das mais confortáveis, mas melhor que eu esperava. Dormir no colchonete não é tão ruim quanto parece, mas o vento de madrugada é um tanto incômodo. E, principalmente, o balanço do barco, pode dar uns enjôos nos mais fracos.

Um “plus” dessa viagem de aventura são os nasceres de sol. Como o barco é aberto nas laterais, é difícil continuar dormindo quando começa a clarear. O que poderia ser um incômodo, vira na verdade um presente. Os nasceres de sol no meio do mar são especialmente bonitos (além de longos).

A primeira parada do barco é na ilha de Satonda. A ilha tem duas atrações interessantes: Uma lagoa de água salgada, formada pela ação de um tsunami, que compõe uma paisagem muito bonita no interior da Ilha. É possível fazer trilhas curtas na ilha para chegar a um bom ponto para fotos da lagoa.

A segunda atração da ilha são os corais. A Perama disponibiliza equipamento básico de snorquel pra explorar os corais. É absurdamente bonito, com muitos peixes multicoloridos, além da beleza própria dos corais de lá. Fantástico mesmo.

A viagem parte novamente e navega-se por cerca de seis horas até um novo ponto de viagem, uma pequena praia onde se assiste um belíssimo por de sol. Se o tempo estiver bom, um imenso vulcão compõe a cena.

Depois do por do sol, mais uma viagem noturna em direção às ilhas de Komodo, onde chegamos por volta das 8 da manhã.

O passeio pela ilha dura cerca de 3 horas e é acompanhado por alguns guias locais, de bom Inglês e bom conhecimento dos animais que vivem ali. Essencialmente os Dragões são o topo da cadeia alimentar por aquelas bandas, se alimentando essencialmente de porcos do mato e veados. Ao todo são cerca de 3.000 dragões vivendo nas quatro ilhas do arquipélago (apenas duas visitáveis), sendo os animais de natureza solitária.

Segundo os guias, pode acontecer de você passar uma manhã lá e não ver nenhum dragão. Assim como, em um dia de muita sorte, ele disse já ter encontrado mais de 6 dragões em uma manhã. Para facilitar a busca, os guias se espalham pelo parque e vão se comunicando por rádio, alertando os demais onde eles viram um dos répteis.

Vimos dois dragões. Um macho e uma fêmea, essa no alto de um morro, aquele na beira da praia.

Depois da ilha seguimos em direção à última parada da excursão antes de chegar a Labuan Bajo, em Flores. É a “Pink Beach”, que tem esse nome devido a um fenômeno das areias de lá que, em combinação com um processo que ocorre nos corais, pode ficar rosada dependendo da época do ano e da hora do dia. A praia também é boa pra praticar snorquel.

Por fim, atraca-se em Labuan, pequena cidade em Flores vocacionada para o turismo de mergulho e outros passeios de ecoturismo. O barco chega à cidade por volta das 16h e as pessoas que não estão no programa de 5 dias têm tempo para procurar um hotel pra se hospedar (eu já tinha reservado com antecedência, como expliquei antes. Paguei 3 vezes mais que quem buscou na hora).

Às 20h, um bote leva todos (incluindo pessoas que estão entrando no tour agora, pra fazer o trecho de 3 dias mas no sentido inverso ao que fiz) para um jantar de despedida/boas vindas no barco. Também fazem uma festinha no barco, e essa história eu contei aqui (XXXXXX).

Não explorei muito Flores, já que no dia seguinte peguei um Vôo pra Bali. Mas das poucas pesquisas que fiz, descobri dois passeios que gostaria de ter tido mais tempo pra ver. Um que eles chamam de “Raposas voadoras”, é um movimento coletivo de morcegos que voam no por do sol em busca de alimentos. Os morcegos saem de uma caverna, acessível por barco, e formam uma bela paisagem de por de sol. Vi algo parecido em Bali, mas parece que em Flores é um fenômeno maior.

Outro passeio possível em flores é um tour de 1 dia inteiro em direção a duas cachoeiras de grande porte que existem por ali, além de uma infinidade de escolas de mergulho que operam na cidade.

Fiquei hospedado no Komodo Lodge. Como todo hotel que fiquei na Indonesia, a internet era bem meia boca. O café da manhã era bacaninha (também servido no próprio quarto, conforme menu que você dita o que quer), a cama era bem confortável e o chuveiro não era ruim. Eles providenciam gratuitamente transfer para o aeroporto.

Bali

Bali é o coração turístico da Indonésia. A ilha tem essencialmente três tipos de turismo: turismo cultural, relacionado ao hinduísmo (religião majoritária por lá); turismo de aventura (dois grandes vulcões na linha, além de algumas trilhas e rios para rafting); e o turismo de praia. Para explorar todas essas facetas do turismo local, você precisaria de muitos muitos dias. Como só tinha 6, acabei ficando com o primeiro. Não fiz trilhas e visitei apenas rapidamente as praias mais famosas (região de Kuta e Semyaki).

Para aproveitar ao máximo o meu objetivo, que era visitar os 5 templos mais relevantes de Bali, além de ver as 3 formas mais tradicionais de dança local, fiquei hospedado em Ubud, cidade que fica no centro da Ilha.

Ubud propriamente tem alguns pontos de interesse interessantes, mas a localização geográfica é realmente o que conta. Como o trânsito e o transporte por ali não são dos mais simples, estar no centro da ilha facilita a ida a lugares de leste a oeste. A cidade gira em torno do turismo. Então, não é difícil achar seu caminho para as principais atrações. O difícil, mesmo, é fugir das “armadilhas de turista” que recheiam a cidade.

A cidade não é perigosa. Muito pelo contrário. É muito tranquilo circular por ali, a qualquer hora e independente de companhia. Mas as pessoas estão o tempo todo tentando ganhar algum dinheiro, te vendendo produtos e serviços que você não necessariamente precisa.

Nos templos da região é necessário usar o Sarongue para visitação. É uma espécie de canga que eles usam como saia, muito fácil de ser comprada nas ruas. Um preço justo é algo como 50.000 Rúpias, o equivalente a 4 dólares. Alguns templos te emprestam um sarongue básico, valor já incluído na entrada (Uluwatur e Caverna do elefante, por exemplo). Mas como outros tantos não fornecem, acho que é uma boa aquisição. Até porque vira um souvenir interessante =).

Fiquei hospedado no Puji Bungalows. Eles têm um hostel e um hotel no mesmo espaço, que é também uma plantação de arroz. Os dois compartilham uma piscina bem gostosa e cênica e está localizado a uma caminhada curta (cinco minutos) do centro de Ubud.

Falei que estava atrás dos 5 templos mais relevantes, certo? Pois bem, pelo que pesquisei, esses templos seriam: Caverna do Elefante, Beratan, Uluwatur, Tanah Lot e Besakih. Montem meu roteiro da seguinte forma.

No primeiro dia fui para a Caverna do Elefante e Besakih. A caverna do elefante fica próxima ao centro de Ubud (com disposição grande, caminha-se. Mas como já tinha contratado o motorista, fui de carro).

A caverna do elefante é um templo budista/hinduísta de tamanho médio. Dentro do templo, além de uma área de pequenas cachoeiras e jardins bonitos, há uma caverna cuja entrada é a boca de Ganesha (sinceramente, não vi Ganesha ali… mas essa é a razão do nome do lugar inclusive…). Dentro dessa caverna, que é bem pequena, há dois pequenos altares. Um dedicado a Ganesha (agora sim, bem claro Ganesha, a manifestação divina vocacionada ao conhecimento, além de três pedras de saia, nas cores das três maiores divindades hindus: Shiva, Brahma e Vishnu).

O templo tem muitos guias tentando ganhar um trocado, além de uma espécie de sacerdote budista que tá ali claramente pra fazer um troco e não pra qualquer fim religioso. Mas, fora esse aspecto (que te acompanha por todo canto em Ubud) é um lugar bonito, e um excelente começo pra viagem.

Fomos em seguida ao templo de Kerta Ghosa. Fica ao lado de um museu que não visitamos, mas o templo em si, apesar de pequeno, tem um detalhe interessante: No teto estão pintadas representações das escrituras sagradas hindus, explicando o pós-morte em diversas imagens razoavelmente auto-explicativas. Para os hindus o inferno é um local temporário, em que sua alma vai sofrer proporcionalmente às coisas erradas que você fez em terra. As imagens explicam cada um dos castigos destinados a quem, por exemplo, se dedicou à luxúria ou à gula no plano material.

De lá partimos pra Besakih, o templo maior, o mais impressionante da viagem a Bali. É um complexo que mais parece uma cidade, lotado de pequenos templos, “públicos” e familiares. Logo na entrada há uma espécie de cooperativa de guias de turismo que vai te cobrar valores extorsivos para uma visita guiada (U$ 25,00). É possível que tentem te enganar, como tentaram me enganar, dizendo que só é possível entrar com guia, ou que há lugares que só é possível visitar com auxílio do guia. Não caia nessa. É perfeitamente possível visitar quase todos os lugares sem auxílio de guia. Alguns, você não pode entrar nem mesmo com guia. Outros (poucos) os guias dão um “jeitinho” de te colocar pra dentro. Mas o essencial você consegue explorar sozinho.

Agora, obviamente, contar com o apoio de um guia pode te ajudar a entender a grandeza daquilo tudo. E o preço cobrando na porta é completamente irreal. Então, recomendo que você caminhe um pouco pelo templo e, mais cedo ou mais tarde, algum guia vai se oferecer por um preço decente. Outra coisa que fiz, e que recomendo, é testar um pouco o inglês do guia antes de fechar. Tem muitos guias com inglês sofrível. Daí, não vai adiantar muito ter apoio profissional… por mais que ele conheça o lugar, se não consegue te passar o que sabe, não serve pra muita coisa, certo?

Acabei contratando um guia que me cobrou 1/6 do valor que tinham me cobrado na entrada (U$ 4,00). Fiz questão de pagar o dobro do que ele pediu, ao final, pois além de bastante honesto (não tentou mentir sobre a necessidade de guia) foi um guia atencioso e dominador do assunto.

O ponto mais impressionante do templo é a escadaria da entrada. Toda decorada com flores e guardiões. À esquerda, os guardiões do bem. À direita, os guardiões do mal. Compondo o equilíbrio que é inerente à filosofia-religião deles.

Saímos de Besakih em direção ao templo das águas sagradas. No caminho, paramos em um produtor de cafés chamado “Sátria”. Lá é possível fazer uma degustação dos 16 tipos de café e chá que produzem lá, sem qualquer custo. Óbvio que esperam que você compre algo ao final (preços altos), mas isso em nenhum momento é imposto. Aliás, o tempo inteiro os motoristas vão tentar te levar nesses lugares (madeira, cobre, esculturas em osso, produtores de arroz e café, barracas de frutas… eles ganham comissão em cada compra que você faz nesses lugares… se isso não te agrada, é só dizer que não quer e tudo está resolvido…).

No templo das águas sagradas, muitos balineses vão para lavar o corpo (e a alma) nas águas sagradas do encontro de dois grandes rios locais. É também nestas fontes que são coletadas as águas para algumas das cerimônias religiosas mais importantes de Bali. É possível entrar nos tanques de água e purificar-se você também… eles têm vestiário e guarda-volumes.

O Sarongue é obrigatório e, para as mulheres, tal qual outros templos hindus, é proibido entrar “no seu período”.

Macacos me mordam

Segundo dia de tour começamos pelo templo do macaco sagrado (!?!?). Não confundir com a floresta dos macacos, que fica no centro de Ubud, apesar das muitas semelhanças. Toda a estrutura de estátuas e templos parece um tanto abandonada nesse templo, o que dá um charme interessante pras coisas. Parece um templo perdido, repleto de macacos dóceis que pulam em você (sem agressão) em busca de comida. Ao contrário de Uluwatur, e tal qual a floresta dos macacos, eles não roubam suas coisas. Mas é melhor não dar bobeira, certo?

Outra vantagem que vi em relação à floresta dos macacos é que, como é fora do circuito turístico mais tradicional, o volume de turistas é muito menor. A maior parte do tempo, na verdade, eu estava sozinho. E há diversos guias públicos (já incluídos no preço do ticket) espalhados pelo parque.

De lá partimos pra Pura Ulun Beratan, o templo das águas, no norte de Bali. O templo é famoso e estampa a nota de 50.000 Rúpias. Além disso, foi meu papel de parede de computador durante alguns meses antes da viagem pra Indonésia… Resultado… a grande decepção da viagem…

Como é cheio, a experiência tá longe de oferecer a paz que as fotos sugerem. Além disso, por ficar em uma região montanhosa, a chance de tempo ruim é bastante grande…

Tudo no templo parece um tanto artificial, o que estraga um bocado a experiência.  Além disso, o templo fica muito muito longe de Ubud. Sinceramente, foi o passeio-que-não-vale-a-pena da viagem.

Terminamos o dia com o por do sol em Tanah Lot. Devido ao trânsito e à distância imensa do templo de Beratan para Tanah Lot, acabei chegando em Tanah muito perto da hora do por do sol. Resultado: não tive tanto tempo pra explorar a região, que pareceu muito mais cênica que o outro templo. Uma imensidão de pessoas vem pra este templo exclusivamente pro por do sol, um dos mais bonitos que já vi.

São alguns templos situados em penínsulas na costa recortada, em uma praia frequentada por surfistas em busca das boas ondas do lugar. O mais cênico, na minha opinião, é o que fica ao final de uma península-falésia, no meio do qual tem um furo imenso causado pela erosão de milhares e milhares de anos.

Ali vi um dos espetáculos naturais mais bonitos da viagem. Como eu falei de Labuan Bajo, ali também acontece um fenômeno de morcegos que saem de sua caverna em busca de alimentos tão logo o sol se põe. É um movimento único, conjunto, impressionantemente bonito. Milhares e milhares de morcegos voando juntos no por do sol, em uma nuvem assustadora e linda.

Sem cerimônias

No terceiro dia dispensei o motorista. Estava muito cansado pra passar o dia inteiro no carro. Queria ficar mais tempo na piscina e caminhar apenas por perto do hotel. Queria também achar meu caminho para o Palácio de Peliatan.

Queria encontrar esse palácio porque li na internet que li era um dos lugares que ainda cultivavam o “Legong-de-Raiz”. Encontrei, mas explico isso um pouco mais adiante. Na peregrinação, acabei dando a sorte de trombar com uma cerimônia muito singular. Além dos templos públicos maiores, os nobres de Bali costumam ter seus templos familiares, onde celebram cerimônias relativamente privadas em algumas ocasiões especiais.

Caminhando em busca do palácio de Peliatan, encontrei um desses templos familiares, com a entrada completamente decorada e diversas pessoas formalmente vestidas na porta. Acanhado, fiquei circulando em volta do templo por alguns minutos, até que resolvi ter a cara de pau de perguntar (em mímica) se poderia entrar. A primeira resposta foi não, pois eu não estava de Sarongue. Mas, por algum motivo que não lembro, eu tinha colocado meu saiote na mochila. Mostrei pros homens da entrada que, então, me deixaram entrar.

Lá dentro havia uma orquestra de instrumentos locais além de um jardim central onde estava acontecendo o culto propriamente dito. Fiquei cerca de 2 horas por ali sem entender muito bem o que estava acontecendo (ninguém falava inglês…). Mas percebi que alguns trechos da cerimônia eram só com mulheres, outros só com homens, que havia muitas oferendas envolvidas e que tinha uma espécie de “dress-code”. Além disso, no salão dos fundos, serviam comidas variadas, já que a festa parecia se estender pelo dia adentro.

As pessoas não pareciam incomodadas com minha visita, mas em alguns momentos pontuais me tiraram o jardim central (algo claramente relacionado à cerimônia, já que eu podia continuar observando pelo lado de trás do portal).

No resto do dia perambulei por Ubud. Fui até a Floresta dos Macacos, caminhei pelo mercado local, os restaurante e lojas da rua central etc. Como já disse, a culinária de Bali não me impressionou e as compras não são exatamente um programa turístico pra mim… Mas tem bastante artesanato bonito espalhado pelas infinitas ruas do mercado.

Dança

Quarto dia começou com dança.

Bali tem uma infinidade de danças diferentes no seu repertório cultural. Entre as mais importantes estão o Barong, uma dança que representa a luta entre o bem e o mal, o Legong, aquela dança tradicional balinesa, com muitos movimentos de dedos e olhos, o kekak, feito com fogo e roupas tribais, e o teatro de sombras (que também funciona tal qual uma dança).

Encontrar lugares que apresentam essas danças não é nada difícil. Pelo contrário, caminhar pelas ruas de Ubud no entardecer é certeza de tentarem de empurrar um dos muitos espetáculos que acontecem nos templos e palácios de lá. Mas eu não queria cair numa dessas muitas armadilhas de turista. Pesquisei um bocado pra tentar achar os mais tradicionais de cada estilo, e foi assim que cheguei na seguinte lista: Barong em Balutan, Legong em Peliatan, Kekak em Uluwatur.

Pois bem, a escolha do Barong em Balutan foi um tanto fotográfica. Como era o único grupo tradicional que se apresentava de dia (hora melhor pra fotos) optei por ver o espetáculo deles. Achei bom, mas não mais que isso. Alguns trechos pareciam descambar demais pro pastelão, o que não me pareceu estar na origem da dança (que é quase religiosa).  Mas a experiência é interessante.

Partimos dali pra Seminyaki, praia famosa de Bali. Originalmente eu passaria dois dias nessa praia, me hospedando ali na última noite de viagem. Mas descobri que no último dia da minha programação haveria uma cerimônia especial de cremação de um membro da família real de Ubud. Como é um evento bastante singular (o último foi há dois anos atrás, o próximo só Shiva sabe), achei que podia deixar a praia de fora do meu roteiro.

Para não ficar completamente alheio às praias de Bali, incluí uma tarde em Seminyaki no meu roteiro. Serviu pra eu ter certeza que fiz a escolha certa: Não consegui ver nada demais nas praias do sul de Bali. Praias comuns, sem charme, lotadas de turistas e expatriados. Nada que traga identidade pro lugar…

Partimos dali pra Uluwatur, o último dos 5 templos principais que queria conhecer. Aproveitei pra conhecer o trânsito infernal de Bali…

Como queria ver o show de Kekak de uluwatur, que acontece às 18h, saí de Seminyaki 2:30 da tarde, já que o google apontava um tempo de trânsito de 1:30. Chegando às 16h, teria tempo suficiente de conhecer o templo, comprar ingressos pra dança, fotografar o por do sol, assistir a dança… enfim, tudo muito bem planejado. Faltou combinar com os outros milhares de turistas que foram pra Uluwatur naquele dia, se espremendo na estrada de pista única que leva ao templo.

Demoramos 3:30 para chegar a Uluwatur. resultado, não consegui conhecer o templo e ainda, de quebra, acabaram os ingressos pra dança. Com muita insistência (e propina) acabei conseguindo entrar para os 20 minutos finais do espetáculo, só pra não passar completamente em branco… Mas como já tinha escurecido, perdi o maior charme da coisa que é a apresentação sincronizada com o por do sol.

De todo modo, pude ver um dos pores de sol mais bonitos da viagem, acompanhado dos agressivos macacos do templo. E os macacos aqui merecem um parágrafo à parte.

Os macacos de Uluwatur aprenderam a arte da extorsão. Já tinha lido que eles roubavam itens pessoais e trocavam por comida, mas achei que fosse lenda. Pois bem, lá chegando pude ver que não apenas é verdade como também os macacos aprenderam o valor das coisas. Por exemplo, um deles roubou uma garrafa d’água e trocou por um punhado de amendoins. O mesmo macaco, minutos depois, roubou os óculos de um chinês. Oferecido o mesmo punhado, o macaco recusou, e só trocou por um pacote bem grande da sua comida.

Câmera firme na mão, bolsos muito bem fechados, é possível tirar curtir um por do sol fantástico lá de cima.

Uluwatur significa templo do alto, e tem esse nome porque o templo, em si, fica na ponta de um penhasco imenso, criando uma passagem bastante cênica.  A dança do Kekak acontece na outra ponta da costa, aproveitando essa atmosfera cênica do Por do Sol.