Soberba

A festa prometia ser um fracasso de gente grande. Duas dúzias de viajantes sem perfil pra isso, num convés de navio pequeno, exaustos de 3 dias de navegação e sol. Um setlist de músicas antigas, um estrobo especialmente cafona e um tanto de bintangs quentes, a horrenda cerveja indonésia. Todo mundo um tanto acabrunhado, nesse jeito adulto de ter medo de se achar ridículo, sentado de canto, como que ali estivesse apenas por educação. Até que ela começou suas gracinhas.

Sou um sem jeito pra crianças. Desengonçado de corpo e alma, nunca sei o que falar ou como agir com um pequeno. Mas me divirto olhando, meio gauche, suas brincadeirinhas. Filhinha de um casal francês, que viajava com toda família (incluindo vó e tios) no barco pra Komodo. Atarantadinha, corria entre um deck e outro por todo o dia e, como se sua energiazinha não pudesse ter cabo, passava cada minuto das paradas dando suas nadadinhas nos corais, jogando seus joguinhos de bola ou brincando com as conchinhas do mar.

E como quem não aprendeu ainda o que é ser ridículo, começou suas dancinhas sob o colorido das luzes improvisadas. Imita um robozinho. Sai de pulinhos de ponta a ponta. Se repete infinitamente em seus truquinhos de mímica. Monopoliza a pista e os olhares da gente sem jeito. Tira pra dançar a amiga que fez durante a viagem.

As duas tinham uma química tão cativante que olhos desatentos podiam até achar que eram mãe e filha. A suíça (que encontrei ainda em Gili, num primeiro contato de certa antipatia) se mostrou um dos personagens mais iluminados da viagem. Uma mulher de doçura só comparável à de sua companheira de viagem, cuja leveza cativou os carinhos da pequenininha.

Dançavam ridículas, mas divertidas, até criarem uma coreografiazinha bobinha, que fez questão de ensinar a todos os que estavam sentados. E o pedidinho de uma criança sorridente é sempre mais forte que a soberba dos que se acham mais fortes que o ridículo: um a um todos se levantaram e puseram a fazer a coreografia. Os braços em ondas iam e vinham, destravando sorrisos até que os gestos virassem gestinhos. Pois pronto, já estavam todos desarmados.

Aí, até que aquelas musiquinhas já não eram tão ruins. O barquinho de inadequado virou exótico. E as Bintangs… bem, essas continuaram sendo bintangs. Mas a festinha, essa foi fantástica, mesmo que poucos minutos depois de dar início a tudo a pequenininha, como cabe aos pequenininhos, tenha ido dormir.

Como é minúsculo quem tem medo de se achar ridículo.

As ilhas Gili

As ilhas Gili são um conjunto de três ilhas próximos à costa da ilha maior de Lombok. São um destino famoso de Lua de Mel, mas também de turismo-balada, especialmente a ilha maior de Gili Trawagan (ou Gili T). Não fui pras duas ilhas menores, Air e Menon, mas os relatos de outros viajantes dizem que são lugares mais tranquilos.

Gili T tem dois lados bastante claros. O lado leste, onde fica o atracadeiro dos barcos, é cheio de bares agitados, agências de turismo e uma molecada (Australiana, principalmente) de 18 a 25 anos, que estão ali pras festas que vão noite a dentro. Nesse lado também ficam as pousadas mais baradas (preço médio, U$ 18 por um quarto pra duas pessoas).

O lado oeste tem resorts mais sofisticados e bem cênicos pra pores de sol. Os resorts também têm seus bares, que vendem bem a localização privilegiada pra por do sol. Foi meu lugar predileto da ilha, já que não curto tanto a agitação. Aqui o espírito é de relaxamento e é tudo bem vazio (exceto, claro, na hora do por do sol).

Dar uma volta completa na ilha demora cerca de 2 horas à pé (ritmo tranquilo). E é bem comum na ilha o aluguel de bicicleta, algumas especialmente adaptadas pra andar nos trechos de areia.

Além disso há algumas escolas de surf e muitas de mergulho.

As praias são bonitas mas, pra mim, bem menos interessantes que as do Caribe. Ou seja, não gastaria muito do meu tempo em Gili, já que estamos mais perto de ilhas mais bonitas. Mas, repito, não sou tão “da balada”, e esse parece ser o principal motivo que traz as pessoas pra Gili T.

Perto do porto há um mercado noturno de comida, mas nada ali me parecia muito interessante. Não confio muito na higiene na Indonésia, então sempre fico meio receoso com essas comidas de rua. Aliás, em se tratando de comida, nada na ilha foi bom. Comi em alguns restaurantes mais “chiquetosos” e sempre saía com a sensação que teria sido melhor comprar um pacote de biscoitos no mercadinho.

Mas a hospedagem foi bem bem legal. Um lugar que me custou U$ 20,00 por noite, mas que cabiam umas 4 pessoas no quarto (uma cama de casal, duas de solteiro). Uma piscina bacana e, principalmente, uma equipe bastante simpática. A pousada chama Little Woodstock e é um tanto mais escondida. Apesar da caminhadinha até as praias, recomendaria esse lugar aos amigos.

Expedição a Komodo

Parti de Gili em direção às Ilhas de Komodo, onde vivem os famosos Dragões, répteis que chegam a 3 metros de altura e que só existem por ali. Me juntei a uma excursão organizada pela Perama, uma companhia onipresente nos lugares (e alguns menos) turísticos da Indonésia. Segundo as resenhas que li na internet, é a agência de turismo mais consolidada do país, o que me motivou a reservar com eles ainda no Brasil (pagamento por Paypal).

O Tour, que chama “Caçando os Dragões de Komodo com câmera” pode ser feito em 3 ou 5 dias. A diferença entre um e outro é que no segundo faz-se uma viagem de ida e volta de Lombok a Komodo. Fiz o primeiro, porque as resenhas que li na internet diziam que o retorno era “mais do mesmo”. Esse tour custa cerca de U$ 100,00 e inclui as refeições dos três dias de passeio, exceto bebidas que são pagas à parte (preços honestos).

Esse é o preço do pacote “mochileiro” que eu comprei. Nele você não tem direito a uma cabine, mas sim a um colchonete e um lençol, pra dormir no chão do deck superior do barco. O pacote pra ter direito a uma cama em cabine custa o dobro disso.

Em alta temporada talvez valha a pena comprar o pacote mais caro, porque o deck pode ficar apertado demais com o barco lotado. Estávamos com 26 pessoas na viagem e já parecia, pra mim, o limite. Mas a lotação teórica do barco é de 50 passageiros. Não sei muito bem como eles fazem pra caber…

Pra mim, esse número de 26 pessoas foi perfeito. Não lotou, mas também tinha um número suficiente de pessoas pra render conversas interessantes. Além disso, quem topa dormir num chão de barco, normalmente são viajantes mais aventureiros. Daí, as conversas normalmente rendem boas dicas de lugares “diferentes” pra visitar.

O primeiro dia, na verdade, é todo terrestre. Faz-se um corte de ônibus por dentro da Ilha de Lombok, fazendo uma parada no caminho para conhecer um templo ecumênico (Muçulmano, Hindu e Budista) e outra ao final, no porto oeste de Lombok. Nesse porto, eles organizam uma atividade de integração, com algumas gincanas um tanto bobas. Mas a graça dessa parada está no fato de as crianças do vilarejo local virem participar da brincadeira.

São um bocado mais tímidas que as crianças de Yogya, talvez por estarem mais acostumadas à presença habitual dos turistas, especialmente naquela festa (que deve acontecer duas vezes por semana, frequência de passeios deles). Mas depois de um tempo de música e jogos, elas acabam se soltando e interagindo bastante =).

Depois das brincadeiras, eles servem um jantar no próprio barco e iniciam a navegação noturna.

A noite no barco não é das mais confortáveis, mas melhor que eu esperava. Dormir no colchonete não é tão ruim quanto parece, mas o vento de madrugada é um tanto incômodo. E, principalmente, o balanço do barco, pode dar uns enjôos nos mais fracos.

Um “plus” dessa viagem de aventura são os nasceres de sol. Como o barco é aberto nas laterais, é difícil continuar dormindo quando começa a clarear. O que poderia ser um incômodo, vira na verdade um presente. Os nasceres de sol no meio do mar são especialmente bonitos (além de longos).

A primeira parada do barco é na ilha de Satonda. A ilha tem duas atrações interessantes: Uma lagoa de água salgada, formada pela ação de um tsunami, que compõe uma paisagem muito bonita no interior da Ilha. É possível fazer trilhas curtas na ilha para chegar a um bom ponto para fotos da lagoa.

A segunda atração da ilha são os corais. A Perama disponibiliza equipamento básico de snorquel pra explorar os corais. É absurdamente bonito, com muitos peixes multicoloridos, além da beleza própria dos corais de lá. Fantástico mesmo.

A viagem parte novamente e navega-se por cerca de seis horas até um novo ponto de viagem, uma pequena praia onde se assiste um belíssimo por de sol. Se o tempo estiver bom, um imenso vulcão compõe a cena.

Depois do por do sol, mais uma viagem noturna em direção às ilhas de Komodo, onde chegamos por volta das 8 da manhã.

O passeio pela ilha dura cerca de 3 horas e é acompanhado por alguns guias locais, de bom Inglês e bom conhecimento dos animais que vivem ali. Essencialmente os Dragões são o topo da cadeia alimentar por aquelas bandas, se alimentando essencialmente de porcos do mato e veados. Ao todo são cerca de 3.000 dragões vivendo nas quatro ilhas do arquipélago (apenas duas visitáveis), sendo os animais de natureza solitária.

Segundo os guias, pode acontecer de você passar uma manhã lá e não ver nenhum dragão. Assim como, em um dia de muita sorte, ele disse já ter encontrado mais de 6 dragões em uma manhã. Para facilitar a busca, os guias se espalham pelo parque e vão se comunicando por rádio, alertando os demais onde eles viram um dos répteis.

Vimos dois dragões. Um macho e uma fêmea, essa no alto de um morro, aquele na beira da praia.

Depois da ilha seguimos em direção à última parada da excursão antes de chegar a Labuan Bajo, em Flores. É a “Pink Beach”, que tem esse nome devido a um fenômeno das areias de lá que, em combinação com um processo que ocorre nos corais, pode ficar rosada dependendo da época do ano e da hora do dia. A praia também é boa pra praticar snorquel.

Por fim, atraca-se em Labuan, pequena cidade em Flores vocacionada para o turismo de mergulho e outros passeios de ecoturismo. O barco chega à cidade por volta das 16h e as pessoas que não estão no programa de 5 dias têm tempo para procurar um hotel pra se hospedar (eu já tinha reservado com antecedência, como expliquei antes. Paguei 3 vezes mais que quem buscou na hora).

Às 20h, um bote leva todos (incluindo pessoas que estão entrando no tour agora, pra fazer o trecho de 3 dias mas no sentido inverso ao que fiz) para um jantar de despedida/boas vindas no barco. Também fazem uma festinha no barco, e essa história eu contei aqui (XXXXXX).

Não explorei muito Flores, já que no dia seguinte peguei um Vôo pra Bali. Mas das poucas pesquisas que fiz, descobri dois passeios que gostaria de ter tido mais tempo pra ver. Um que eles chamam de “Raposas voadoras”, é um movimento coletivo de morcegos que voam no por do sol em busca de alimentos. Os morcegos saem de uma caverna, acessível por barco, e formam uma bela paisagem de por de sol. Vi algo parecido em Bali, mas parece que em Flores é um fenômeno maior.

Outro passeio possível em flores é um tour de 1 dia inteiro em direção a duas cachoeiras de grande porte que existem por ali, além de uma infinidade de escolas de mergulho que operam na cidade.

Fiquei hospedado no Komodo Lodge. Como todo hotel que fiquei na Indonesia, a internet era bem meia boca. O café da manhã era bacaninha (também servido no próprio quarto, conforme menu que você dita o que quer), a cama era bem confortável e o chuveiro não era ruim. Eles providenciam gratuitamente transfer para o aeroporto.