Minha viagem pela Indonésia começou pela cidade de Yogyakarta (ou Yogya, pros íntimos). Curiosamente, muitos (muitos mesmo) dos que conheci ao longo da viagem, nunca pensaram em visitar a cidade. Pois pra mim foi talvez o trecho mais interessantes.
A principal atração de Yogya são os dois maiores monumentos da Indonésia: Prambanam e Borobudur. Ambos construídos por volta do século nove, tempo em que viviam em aparente harmonia Hindus e Budistas.
Borobudur é o maior monumento budista do mundo. São 504 estátuas espalhadas pelos andares superiores do monumento, 72 dos quais enclausurados em “stupas”. O monumento fica a cerca de duas horas do centro de Yogya e a melhor hora do dia pra visitar é no nascer do sol. Aliás, em Yogyakarta eles exploram muito bem o aspecto comercial do nascer e do por do sol. Diversos templos e/ou monumentos têm programas especiais pra essas horas, inclusive com tickets diferenciados, como é o caso de Borobudur.
Contratei um tour especial para Borobudur que me custou 8 Dólares de transporte + a entrada do monumento, que, para o nascer do sol, tem o salgado preço de R$ 100,00. Mas é um dinheiro muitíssimo bem investido. É uma daquelas experiências de “uma vez na vida”. Apesar de relativamente cheio (cerca de 50 pessoas quando fui), é uma experiência de paz imensa. O horizonte sendo cortado pelos cânticos muçulmanos matinais; os pássaros ensaiando os primeiros vôos da manhã; o sol nascendo vagarosamente e iluminando as “stupas”. Momentos realmente inesquecíveis.
Passado o nascer do sol, começam a chegar as hordas de visitantes. Aí o lugar perde toda a paz inicial. São muitas e muitas excursões de estudantes, além do volume normal de turistas. Uma coisa curiosa é que, como a cidade recebe muito menos turistas que Bali, por exemplo, as pessoas são muito menos acostumadas com estrangeiros. Eu parei de contar quando tirei a 45ª foto com adolescentes (e até alguns adultos) que queriam mostrar nas redes sociais o estrangeiro que eles conheceram. Já tinha passado por situação parecida na China. Mas em Yogya foi muito mais frequente.
Na saída do monumento tem alguns jardins imensos onde é possível se esconder e relaxar um pouco. Daí, minha dica pra uma visita tranquila a Borobudur é chegar para o nascer do sol e, por volta das 8 da manhã, ir lagartixar nos jardins.
Não fiz isso, mas é possível se hospedar ao lado do monumento. Há um hotel dentro de Borobudur. Mas como o lugar é longe de tudo, acho que só vale a pena se vc tiver muitos dias de férias e resolver passar o dia todo por lá (por do sol de um dia, nascer do sol do outro… parece uma boa). O mesmo hotel também oferece um belo buffet de café da manhã, que pode ser comprado à parte.
Para o por do sol, um lugar bem bacana é o outro monumento, Prambanam. Como eu disse, construído na mesma época de Borobudur, segundo o guia tratou-se de uma competição de vaidade entre as lideranças religiosas de budistas e hinduístas. Mas, ao contrário de Borobudur, os terremotos de 1100 destruíram quase que completamente Prambanam. Originalmente eram 240 torres, hoje menos de 20 estão de pé. Mesmo estas, reconstruídas, como um imenso quebra cabeças. É impressionante imaginar eles juntado os cacos daquelas construções para montar, sem nenhum modelo prévio, o que se imagina ser a estrutura original.
Ao contrário de Borobudur, eles não têm um programa especial de visitação no por do sol. Acontece que o por do sol lá é também muito bonito e, absurdamente, o templo fecha 30 minutos antes do por do sol. O truque é (e muitos “sunset-hunters” fazem isso) ficar driblando a segurança, já que o templo é gigantesco.
Tanto Borobudur quanto Prambanan parecem saídos de outro planeta. São estruturas imensas, de formas completamente atípicas pra quem, como eu, não está acostumado às religiões asiáticas. E inspiram uma paz incrível.
Para quem está com muita muita pressa, é possível ver os dois em um único dia. Mas acho que isso tende a minimizar a experIência. Eu recomendaria ficar 3 dias em Yogya, um para cada templo e um terceiro para rodar a cidade. E aí, combinar os dias dos templos com outros passeios.
Fui em um passeio de caverna chamado “Goa Pindul”, achei bastante sem graça.
Há alguns outros templos e monumentos espalhados pela cidade, especialmente ao redor de Pranbanam. Alguns rendem, pelo que li, pores de sol bastante bonitos.
O palácio das águas, a julgar pelo trip advisor, é uma daquelas atrações do tipo “ame ou odeie”. Eu fiquei com o primeiro time. Um lugar simplório, é verdade, mas que encanta pelas cenas de vida comum. Os adolescentes brincando, as vilas do entorno, os artistas trabalhando… Gosto disso.
Uma rua bastante famosa de lá (Majoboro) lembra uma espécie de 25 de Março. Achei um bocado Jeca a forma de as pessoas exaltarem aquilo como uma atração turística. Mas a verdade é que 9 entre 10 guias colocam aquela região como uma atração especial da cidade.
Rodar pela cidade é especialmente interessante. Ao contrário das outras áreas mais turísticas da Indonésia, Yogya é de maioria muçulmana. Mas de um islamismo meio mestiço, sincretizado com elementos do hinduísmo. Além disso, os hábitos são bastante provincianos, e é uma delícia ver os adolescentes com seus violões pelas ruas e vilas.
O transporte da cidade é comummente feito por umas bicicletas chamadas becaks. São bikes com um sofazinho pra duas pessoas na frente, que podem te transportar por alguns kilômetros (algumas poucas são motorizadas). Mas o meio de transporte mais pitoresco são uns carros curiosos que circulam por próximo ao palácio central de Yogya. São como fuscas (tem alguns outros modelos também, mas a maioria é de fuscas) adaptados. Substitui-se os pneus por rodas de bicicleta, o motor por correias. Ilumina-se por uma infinidade de neons e motivos de desenhos animados… Voilá… o carro mais brega que já vi na vida.
Da primeira vez que vi, achei que fosse algo pra agradar as crianças. Mas passeando à noite pelas ruas de Yogya, vi que a grande maioria dos que andam nos fusquetas são jovens casais de adolescentes. Especialmente ao redor de uma praça bem peculiar chamada Alun Alun. É uma praça com duas árvores no centro, na qual as pessoas jogam um jogo no qual você tem que vendar os olhos e atravessar a praça pelo meio das árvores. Visto de fora, as árvores estão tão distantes uma da outra, que parece estupidamente fácil. Mas quase ninguém consegue!
Ao redor das árvores, dezenas de barraquinhas simplórias de comida servem coisas locais. As pessoas sentam no chão e comem sobre pequenos tabuleiros.
Gastronomicamente, não comi nada digno de nota em Yogya. Mas disseram que o Gudeg é o prato típico de lá… Não comi por um motivo bom: No dia em que fui no restaurante que, segundo os guias, servia um bom Gudeg, ele tava fechado para um casamento de uns figurões importantes da cidade. Pincelei a situação aqui (https://404destinos.com/2016/04/24/casamento/)
As crianças em Yogyakarta são especialmente simpáticas. Menos habituadas a turistas, elas não se acanham e puxam papo com você o tempo todo. Muitas pedem que vc fotografe elas (“mister, mister, photo, photo”), outras se escancaram em risadas largas por ver um estrangeiro.
Yogyakarta é também uma região produtora do chamado “Kopi Luwak”, também conhecido por “Cat-Poop-Cino”, “Cafezes” ou Café de cocô de gato. É famoso por ser o café mais caro do mundo. Isso porque a produção é necessariamente bastante pequena. Os grãos são colhidos no chão das florestas do sudeste asiático, depois de comidos e cagados por pequenos gatinhos (Civet). Como o grão é “digerido” junto co outras frutas comidas pelo gato, ele ganha um aroma meio diferente. E como o grão não é efetivamente processado no estômago do gato, ele sai quase como entrou. Depois de limpar e descascar os grãos, passa-se ao mesmo processo de torra de todo café. No Brasil, sei que uma xícara desse café é vendida por uns R$ 40,00. Aqui, consegue-se por algo como R$ 5,00, ainda assim caro pra um café, né?
E, sinceramente, nem achei tanta coisa assim. É um bom café, mas só.
Em Yogyakarta fiquei hospedado em um hotel chamado Adhistana. Um quarto com ar condicionado, duas camas de solteiro bem confortáveis. Café da manhã bem razoável. Chuveiro mediano, de água quente e fria. O hotel tem uma piscina bem bonita e a decoração das áreas comuns é bacana. A localização poderia ser um pouco melhor, mas não é ruim. Paguei U$ 20,00 por noite.