“Ela é bonita, mas é uma vadia”

Não sou preconceituoso mas… isso não é suficiente. Pessoalmente acho que a gente tem o dever de ser um pouco mais do que livre de preconceitos, a gente tem é que ser combativo aos preconceitos dos outros. Porque senão, continuamos do jeito que está: Alguns poucos realmente sem preconceitos e uma grande maioria fazendo com que toda sorte de “”minorias”” continuem sofrendo os efeitos da opressão. Por isso, acredito de verdade que a gente precisa é de enfrentamento.

Volta e meia me enfio numa dessas situações de embate, mesmo que involuntariamente. Confesso que meu temperamento às vezes faz meter os pés pelas mãos e seguir por um caminho meio errado. Foi o que aconteceu há uns anos atrás quando vi uma mulher chamar um senhor de macaco no metrô, ou, mais recentemente, quando chamei pra porrada um grupo de sete cariocas que estava numa excursão no Chile. Eles passaram um dia inteiro fazendo piadas homofóbicas com um casal que estava na excursão conosco, reproduzindo todas aquelas coisas que estamos cansados de ouvir.

Nunca falei aqui desses causos justamente porque me convenceram que eu não agi bem nas duas situações. Na primeira, combati preconceito com mais preconceito (fiquei um tempão xingando a mulher de gorda); Na segunda, coloque em risco minha segurança, lançando mão de um método pouco efetivo, que é a violência direta… Pois bem, hoje tive a chance de tentar ser diferente.

Estava no trem ao lado de um grupo de teenagers americanos que visitavam o sul da Itália. Três garotos e uma menina. Lá pelas tantas, um dos guris comentou as roupas de uma Italiana que esperava o trem na plataforma: “É bonita, mas é uma vadia”. Todos riram e a viagem continuou. Na hora, a vontade que me deu foi de ridicularizar ele. Dizer que as roupas dele faziam ele parecer gay (ERRO) ou intimidar o moleque na base do carão e ameaça (ERRO). Respirei fundo e afastei essas ideias idiotas, mas também não queria deixa passar em branco. A gente não pode mais deixar passar em branco.

A solução, afinal, foi a seguinte: Pedi licença na conversa deles e me dirigi à única garota do grupo, rolando o seguinte diálogo:

– Desculpa, posso te fazer uma pergunta?
– Claro
– Você acha que toda mulher tem o direito de se vestir do jeito que ela quiser?
– Claro
– E você não acha que o seu amigo está errado em dizer que a garota parecia uma vadia, só porque estava usando roupas mais curtas?
– Eu concordo, mas é uma questão de padrão.
– Bom, é um padrão que caras como o seu amigo criaram. Não só o padrão de roupas, como o próprio padrão de “Vadia”. Você já chamou algum homem de “Vadia”? (NT: Bitch)
– Não
– Veja bem. Eu poderia ter me dirigido diretamente a ele. Mas ele não vai me escutar. Eu sou um estranho que está ridicularizando ele na frente dos amigos. Mas você não, você é amiga dele. E você é mulher. Faça a si mesmo (e a todas as mulheres) um favor. Não deixe ele falar assim de mulher nenhuma. Mais cedo ou mais tarde, ou melhor, atualmente, a vítima já é você.

E saltei do trem (realmente precisava descer, era minha estação). Não sei o que aconteceu depois. Os olhos dela me pareciam sinceros quando disse o primeiro “Sure”. Acho que essa estratégia acabou sendo melhor que a das outras vezes. Sem violência. Sem multiplicar preconceitos. Mas, e acima de tudo, foi melhor (muito melhor) que a omissão. A gente realmente não pode mais aceitar isso.

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Ma che belo

Toda viagem eu entro em alguma roubada. Teve aquela furada de alugar um carro na Inglaterra, a mala que devia ir pra Lisboa e foi parar na Jamaica, o carregador da câmera que eu esqueci de levar no Chile… mas essa daqui pelo menos foi “bonita”. Eu estou hospedado na casa de um garoto propaganda de “Shop Tour” aqui na Itália. Um desses caras de 1,50m, mas que é tão bonitão que ninguém nota que é um tampinha. Narigudo, faz eu achar que até me faria bem se o meu nariz fosse um pouco maior…

Pois bem, saí à noite para jantar numa cantina aqui do lado e aí começou meu terror. Esqueci a chave na fechadura, do lado de dentro de casa, e era uma daquelas fechaduras que não se consegue abrir por fora sem a chave. Percebi como que de imediato, mas liguei pro tal do antitrião, que disse que chegaria em uma hora. Nesse tempo, fui numa cantina de bairro aqui do lado e vi a menina mais bonita que já encontrei: a garçonete da cantina. Ela perguntava o que eu queria pedir e eu só conseguia pensar em namoro, casamento… a moça era hipnotizante. Gaguejei alguma coisa que parecia “Carbonara” e sinceramente nem lembro o gosto da comida…

Voltei pra casa e o ator já estava lá, com a namorada (a menina mais bonita que já encontrei), tentando abrir a porta. Acontece que, como eu deixei a chave na fechadura, não tinha como enfiar a chave no buraco. Sem condições de pular a janela (quinto andar, vizinho viajando), tivemos que chamar o chaveiro da madrugada, que chegou depois de uma hora mais ou menos. Um camarada loiro, minha altura, completamente tatuado e musculoso, que me fazia sentir um cara BEM fora do peso. Ficamos os três por cerca de quatro horas tentando abrir a porta (um modelo antigo, possivelmente construído na dinastia de Constantino), sem sucesso. Como todos os vizinhos já tinham vindo reclamar do barulho (uns nonos e nonas, desses de comercial de Peru e Chester, bochechas rosadas, cabelos branquinhos… ridiculamente lindos) desistimos e resolvemos recomeçar na manhã seguinte.

O anfitrião foi pra casa da namorada, eu, sem minhas malas nem carregador de celular, fui parar num hotel a poucas quadras dali. Mas, CÁSPITA, é semana santa. Todos os hotéis de Roma estão lotados… Sem internet pra um booking de última hora, fiquei perambulando pelas ruas frias da madrugada romana até o metrô abrir (5 da matina). Fiquei batendo e voltando de Itaquera à Barra Funda (ler com sotaque da Mooca) até o horário combinado para nos reencontrar (8 da manhã). Mais duas horas tentando sem sucesso abrir a porta e… nada. O chaveiro chamou seu superior.

Chegou um sujeito que parecia o George Clooney. Cabelo raspado, grisalho, olhos bastante claros, barba farta e bem aparada, que me fez ter um tanto de vergonha da minha cara pelada de índio. Mais duas horas e, finalmente, bingo: porta praticamente descomposta (como minha cara de nariz pequeno, gorda e pelada), conseguimos entrar na casa.

Normalmente me acho um cara bem na média, mesmo nas viagens. No Chile, por exemplo, tava até me achando o rei do pedaço. Mas, cara, aqui na Itália dá até desgosto. É impressionante como todos: homens, mulheres, crianças, ricos, pobres… a galera é toda bonitona. Taí uma boa razão pro país continuar em crise: eles tem que globalizar esses genes, espalhando essa italianada pelo mundo.

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