A coluna do dragão

As fazendas de arroz próximas a Guilin também são chamadas de “A coluna do dragão”, porque quando estão cheias de água, criando um reflexo do céu entre as plantas, lembram as escamas de um dragão. Não tive a sorte de pegar a cheia dos campos, que só acontece uma vez por ano. Mas mesmo assim, verde, é um lugar impressionantemente bonito.

Está carregada. Pronta pra usar.

Em Morelia, fiz amizade com a família do Sr. Feliciano, que toca o Hostel em que fiquei hospedado. Enquanto comíamos um Chilaquiles preparados por dona Margarida, sua esposa, ficamos algum tempo falando sobre a vida no México, no Brasil, sobre os filhos dele e a forma de se fazer uma caipirinha.

Quando nos despedimos, ao melhor estilo mexicano o sr. Feliciano me entregou um presente dizendo: Está carregada, pronta pra usar. Uma pequena garrafa de Mezcal que guardei para um momento mais especial.

Pois bem, dias depois fui em busca do meu por de sol da Cidade do México. Um casal de colombianos que conheci no Panamá me disse que o melhor lugar pra isso seria as pirâmides de Teotihuacán, umas ruínas pré-Astecas. O lugar foi escolhido pelos antigos por ser uma espécie de confluência mística, cercada por vulcões e toda sorte de energias divinas. E, de fato, tem-se um belíssimo por de sol por lá, mas geograficamente não se pode ver as pirâmides.

Um pouco desapontado, resolvi que aquele era o momento para abrir minha garrafa de Mezcal. Aos poucos, clareando as ideias, fui percebendo que meu sol podia brilhar ali mesmo, na garrafa de Jimador, e assim fiquei (um tanto borracho) olhando o reflexo do por do sol na garrafa até que um guarda viesse me expulsar do lugar.

Conhecendo com o Estômago

Tem um poeta que diz: “Não quero dizer que viajar é só comer. Mas comer é viajar. É saber encontrar”, ou mais ou menos isso. Pois bem, como já disse outra vez, comer é uma das partes mais importantes de qualquer viagem minha. Fecho os punhos pra hotéis caros. Viro a cara pra lojas de souvenirs e outras “barganhas” de viagem. Mas quando o assunto é encher a pança, meu amigo, não me faço de rogado. Cada um tem suas preferências de viagem, certo?

Na Malásia, fiz pela primeira vez um tour gastronômico fora do Brasil (antes já tinha feito o tour fantástico do pessoal do Savor São Paulo, que sempre recomendo pra turistas e locais). A ideia lá era um tanto diferente: um passeio pela baixa gastronomia de Kuala Lumpur. Restaurantes simples e barraquinha de rua que fazem parte do menu diário dos trabalhadores de lá, mas que servem comida de primeira classe.

Não se trata de comer esquisitices. Nada ali descambava pro grotesco, como cachorro, tartaruga, escorpião. A ideia, mal traduzindo, seria como levar os turistas pra comer coxinha, tapioca e pastel de feira pelas ruas de SP. Com a diferença de que a cultura de comida de rua pelas bandas de lá é bem mais desenvolvida.

Pois bem, a Malásia é predominantemente povoada por dois grupos: os Indianos e os Chineses. O passeio foca nesses dois grupos. Aprendi a comer com a mão, visitei alguns mercados locais, me apaixonei por uma raspadinha de leite de coco e geleia de flor de arroz, e, no fim, compartilhamos um bocado de risadas num grupo de pessoas curiosas por gastronomia.

Aprendi mais sobre a Malásia com a língua e o estômago que tinha aprendido até então nas letras frias da wikipedia. E, pra melhorar, ainda saí “triste de tanto comer”. Vale, não vale?

Sobre cartórios, moteis e outras jabuticabas

Uma amiga americana me disse que essa coisa de “reconhecer firma” é mais uma das nossas jabuticabas, coisas que só existem no País do Futebol. Achei engraçado, como acho engraçado sermos o único país em que as pessoas não pedem mais pra você assinar o recibo do cartão de crédito (O que é bem lógico, certo? Você já digitou sua senha). No fundo, são variações de uma mesma coisa: Assinatura é algo para o que nós não damos a mínima.

Gosto de ficar observando os países em busca de coisas que são peculiaridades nossas. Guaraná é outro clássico, além do mais gostoso dos queijos: Catupiry! Uma amiga colombiana também me disse que em tudo nós pomos farofa, essa brasilidade em pó. E a mandioca, que é um vegetal que existe em outros países, em nenhum lugar é tão bem aproveitado como do lado de cá.

No Panamá finalmente encontrei algo que até então só havia visto no Brasil: O bom e velho “hotel adulto”, vulgo motelzinho (ou SPA como duas ex-namoradas eufemizavam o lugar). E, sendo nascido e criado em Pindorama, não consigo entender porque não existe isso mundo a fora. Como fazem os filhos que vivem com os pais e os pais que vivem com os filhos? Como acontecem as escapadas em meio de expediente com a colega de trabalho?

O mundo é cheio de mistérios. No Panamá, pelo menos, não existe esse problema.

Uma ditadura caricata

Toda ditadura é assustadora. Não importa de que lado ela esteja. Mas algumas, apesar de repulsivas, podem ser também caricatas.

Ao vivo, a Coreia do Norte é ainda mais estereotipada do que eu imaginava. Nas ruas, é comum ver pessoas reunidas nas praças pra cantar músicas de amor aos grandes líderes (Avô e pai do atual presidente). Por hábito, todos se curvam ao estar de frente a uma de suas estátuas e, regularmente, oferecem flores aos grandes heróis da nação.

Uma das visitas que fizemos com o tour foi ao mausoléu onde estão em exposição os corpos embalsamados dos grandes líderes. Infelizmente, lá dentro não se pode sequer entrar com câmera. Por isso, não foi possível fotografar nem os corpos que estão solenemente deitados dentro de uma cúpula de vidro (cada um com sua sala), à espera de três saudações de cada um dos visitantes (tem que se curvar na frente do corpo, à esquerda e à direita. Nunca nas suas costas), nem mesmo as gigantescas (algo como que 10 metros de altura) estátuas de cera dos dois Kim. Ao longo dos infinitos corredores, centenas de quadros mostram os líderes, ainda vivos, dando a vida por seu povo.

Mesmo as estações e composições do Metrô estão repletas de fotos e estátuas, além dos gratuitos jornais que trazem as últimas notícias do dia-a-dia do atual presidente. No circo de Pyongyang (um espetáculo sensacional), cada movimento acrobático é seguido de imagens que mostram a bravura do povo Coreano, guiado por seus grandes líderes. No boliche, principal diversão dos jovens de lá, uma imensa placa deixa um recado à juventude: Vamos levar adiante as mensagens dos grandes líderes.

A lavagem cerebral é completada num dos museus mais impressionantes que já visitei: O museu da guerra da Coreia. Ali, diversos artefatos são expostos, ao lado de representações bastante realistas de como os malditos imperialistas maltrataram os pais e avós das crianças que visitam o museu. Por tudo isso, não é de se estranhar que cada cidadão coreano estampe com orgulho no peito as fotos (sim TODOS têm um broche) dos grandes líderes.

É por isso que eu acho uma grande boçalidade odiar os norte coreanos. Eles foram condicionados a pensar o que pensam, desde muito pequenos. São pessoas (ao menos as que eu conheci) boas, em muito ingênuas, mas infelizmente dominadas por uma casta de lunáticos.

DSC06779 DSC06731 DSC06689 DSC06751 DSC07491

7×1, pra nós

Segundo a nova tradição, também fiz um passeio de bike quando cheguei em Pequim. Segui um tour e fomos pedalando por entre os Hutongs ao redor da cidade proibida, conhecendo um pouco dos lagos antes que as multidões ocupassem eles à noite. O passei em si foi bem bacana, mas a cena que eu vou guardar veio um pouco depois. Ao final do passeio, a guia nos levou pra almoçar em uma instituição que cuida de jovens com necessidades especiais, auxiliando a inseri-los na sociedade por meio de pequenos trabalhos e atividades.

Quando cheguei, os olhares de estranhamento com o estrangeiro foram ainda mais sinceros e escancarados que o normal. Os assistidos queriam tocar, falar e conhecer o diferente, tentando (em chinês) me fazer perguntas. Uma das primeiras: De onde você vem. Uma das poucas palavras que aprendi em Chinês: Ba Si. O lugar virou um estádio de futebol em comemoração de gol. De boca em boca os mais próximos gritavam pros mais distantes, pros que estavam em outras salas, pros que estavam na rua: Ba Si. Na cabeça deles, o Brasil é uma terra fantástica onde todos jogam futebol da hora que acordam à hora que dormem.

Em outra proporção, já tinha acontecido na imigração da Coreia do Norte. O processo de investigação é quase inquisitorial, com guardas sisudos e brutos que recolhem passaportes e formulários, enquanto vasculham sua mala. Nesse ambiente hostil, quando o fiscal pegou meu passaporte viu: Brasil. A testa franzida se desfez e se abriu, ainda que por poucos segundos, em um sorriso largo enquanto dizia: Brazil.

Na Ásia, não é comum vermos camisas de futebol de outros países (nem mesmo de times). Ao menos nos países que visitei até agora. Mas é fantástico como a canário sempre aparece, invariavelmente (Aqui na China, com a incômoda concorrência da Argentina… mas em menor escala).  Isso ainda deve levar um tempo (e muitos 7 a 1) pra mudar. E fico feliz que essa é a nossa maior embaixadora, ao lado do Carnaval e da liberdade sexual.

Temos um estereótipo que não trocaria por nenhum outro do mundo. Um estereótipo que arranca sorrisos, músicas, danças desengonçadas ou, pelo menos, um invariável “Cooool”. E isso devia nos encher de orgulho.

DSC07996 DSC07988 DSC07989 DSC07994 DSC07975 DSC07984 DSC07985 DSC07949 DSC07952 DSC07972

O que já comi de estranho por essas bandas

Por essa eu não esperava, mas a viagem tem sido um bocado gastronômica. Talvez aquela primeira aventura na Malásia tenha aberto as portas do preconceito e me liberado pra comer toda sorte de coisa estranha, sem medo de intoxicação alimentar.

Tudo somado, nessa rodada já comi: Hambúrguer de burro, “Ovo preto”, sopa de cachorro, “noodles” gelado, o famoso pato de Pequim e um bocado de coisas apimentadas. Noves fora, nada que me fizesse morrer de amores (tirando o Hambúrguer de burro, que é realmente bom). Mas também não fiquei com muito nojo de nada que eu experimentei. No fim, é tudo comida.

E chama atenção o fato de os asiáticos comerem praticamente tudo sem muito nojo. Não sei se são os tempos de guerra ou qualquer outra coisa na filosofia deles, as o fato é que não é comum eles desperdiçarem nada. Muitos pratos são feitos com partes de animais que dificilmente comemos (pés, pescoço, alguns órgãos internos…

Tem também uma certa cultura do bicho fresco. Nos mercados mais locais (e até em algumas redes do tipo Carrefour) não é difícil encontrar aquários com diversos animais vivos, como peixes, cobras, tartarugas e insetos em geral (o mais estranho pra mim, bicho da seda).

Diversas coisas que vão continuar fora do meu cardápio, mas que acho uma experiência interessante experimentar.

 DSC07689 DSC07690 DSC07679 DSC07669 DSC07675 DSC07661 DSC07662 DSC07664 DSC07647 DSC07650 DSC07651

Os guerreiros de Terracota

Aí que um dia uns chineses foram pro campo, tentar fugir de tanto Chinês. Quando eles tavam perfurando um poço pra caçar água, adivinha o que eles acharam? Sim, um monte de Chinês!!

Verdades à parte, é engraçado como são as referências culturais de cada um. Eu via os guerreiros de Terracota e imaginava uma bateria de escola de samba…

DSC08603 DSC08599 DSC08600 DSC08585 DSC08586 DSC08596 DSC08577 DSC08579 DSC08582 DSC08569 DSC08571 DSC08576

Da minha primeira tentativa de ser preso na Coreia do Norte.

O primeiro dia do tour pela Coreia do Norte foi principalmente ocupado por uma visita à Zona Desmilitarizada que os separa de seus irmão do sul. Uma curiosidade do pensamento do norte é que, ao menos na versão que nos contam, eles não estão em guerra com a Coreia do Sul. Isso porque só existe uma coreia, e a porção sul está ocupada pelos norte americanos. Um dos princípios básicos do Regime é justamente reunir as famílias que foram separadas pelos imperialistas, sob a bandeira de um único país (que siga os seus ideais comunistas e, lógico, seja governado pelos “grandes líderes”).

Na viagem à Zona Desmilitarizada, atravessamos todo o país, presenciando um pedaço da vida rural da coréia do norte. Ainda que eu acredite que haja alguma “seleção” nas plantações que margeiam a rota dos turistas, sinceramente acho difícil que tudo o que vimos seja efetivamente cênico. Até porque, muitas das cenas revelam também a falta de recursos do homem do campo na DPRK.

O tour é conduzido por duas guias locais: Senhora Ra e Senhorita Kim. A segunda, uma filha de diplomada estudando para entrar também na carreira (por isso o trabalho na agência, para aprimorar o idioma). O problema é que o inglês da moça é praticamente inexistente. Ela repete frases decoradas e, quando se tenta fazer perguntas, raramente vem uma resposta compreensível (ou de quem compreendeu a pergunta). A primeira, já mais culta e bem versada no idioma, uma ex funcionária do ministério de relações internacionais, defensora agressiva do regime e que pontuava reiteradamente sua devoção aos líderes e ódio aos imperialistas.

A Senhora Ra foi personagem de pelo menos três episódios curiosos na viagem. O primeiro, quando disse aos turistas: “Uma informação importante para os homens, é proibido fumar no interior do palácio”. Cabreiro, perguntei em particular se mulheres não podiam fumar. A resposta foi segura e precisa, deixando evidente um dos muitos aspectos machistas da sociedade coreana: “Never-ever”. Uma amiga me falou, ainda, que ela disse que mulheres não poderiam ser gordas em hipótese alguma (de fato, não vi nenhuma mulher gorda na Coreia).

A mais tensa conversa que tive com a Sra. Ra foi dentro do Mausoléu dos Grandes Líderes. Tentando bajular (e ganhar a confiança) dela, disse o quão era importante ouvir o ponto de vista dos norte coreanos sobre as coisas. Que o mundo só ouve a versão norte americana, que sempre será parcial. Ela me olhou curiosa (e era realmente um olhar sincero): “O que os americanos dizem sobre nós?”. “Você realmente quer saber?”. “Quero!”. “Não vai ficar chateada se eu falar?”. “Não”. Foi quando eu disse, dentro do “Beatificado” mausoléu: Seus líderes são ditadores lunáticos e vocês são um bando de ovelhas que tiveram seus cérebros lavados.

Quando as palavras terminaram de sair, percebi a bobagem que eu fiz… Aquele não era o País, e muito menos aquele era o lugar e a hora para falar isso… Gelei por alguns segundos… Essa deve ter sido minha primeira tentativa de ser preso na Coréia do norte.

O tempo fechou, mas menos do que eu achei que fecharia. Ela começou um discurso pouco compreensível sobre o porquê os norte americanos não têm coragem de atacar a Coreia do Norte (eu realmente não entendi o ponto dela) e ficou realmente enfurecida com um garoto do grupo (estávamos, na verdade, num mini grupo, de cinco pessoas) fez certa cara de deboche pra explicação dela.

Essas passagens pelo interior da Coreia (bem como os passeios pela capital) também permitiam observar alguns comportamentos mais banais da vida comum de um cidadão coreano. Mas disso eu falo outra hora.DSC06587 DSC06480 DSC06490 DSC06454 DSC06395 DSC06400 DSC06174 DSC06290

É difícil entender a Ásia

Em um ponto, eu realmente concordo com os manifestantes de fortaleza. Se é pra ser uma ditadura, ao menos que seja uma ditadura que dança.

Em todos os feriados nacionais (cerca de oito por ano) os norte coreanos se reúnem nas praças com suas roupas tradicionais para dançar uma imensa ciranda. Como o feriado do dia 14 era ainda mais especial (dia da independencia) eles fizeram uma ciranda de cerca de 10 mil pessoas na praça principal de Pyongyang. Ao som de músicas que cantam os feitos dos grandes líderes, eles batem palmas, giram e quase sorriem.

Ao longo dos dias que antecederam a festa, era possível ve-los ensaiando em pequenos grupos em diferentes pontos da cidade. Mas velos todos juntos, coloridos e gigantescos, sob o céu de fogos de artifício, com certeza foi uma das imagens mais impactantes da viagem até aqui.

O como já falei aqui, comecei a viagem pela festa de libertação de Cingapura. Muito mais rica, acho que a festa do Sul acabou não tendo a mesma graça da do norte. Aquí as coisas pareceram hm tanto mais genuínas, feitas efetivamente pelo povo (ainda que por motivos estranhos). La o povo era espectador de um espetáculo feito por outro “grande lider”, eleito por uma democracia duvidosa.

É muito complicado entender a Ásia.

DSC07342 DSC07460 DSC07432 DSC07028 DSC06982 DSC07172 DSC06951 DSC06950