“A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados.”

Há alguns dias, por provocação de uma pessoa querida, tenho pensado bastante nos muitos tipos de turista que existem. Nas imensas variações de viagens possíveis e na forma peculiar com que cada um de nós interage com a experiência de desatar os nós que nos prendem ao solo de nascimento. Ainda não tenho uma resposta consistente, mas já consigo identificar aquelas experiências que me provocam mais empatia, como as pessoas que viajam em busca de delicadeza. E nessa viagem conheci uma dessas.
A Patricia tem um blog de viagens e usa esse espaço como expressão dessa delicadeza no modo de ver as coisas ao seu redor. É explícito no seu jeito de escrever, como foi na longa conversa que tivemos a respeito da Grécia, a sua busca do cotidiano, do trivial. Mas, para encontrar essas pequeninices, é necessário mais que uma meia dúzia de dias. É preciso tempo, paciência e relaxamento. Do contrário, qualquer conclusão é afobada, é preconceito.
E essa busca de delicadeza implica sempre certa auto-descoberta. No fundo, é como se buscar no mundo. Encontrar a si próprio nas praças, cafés e calçadas das cidades de que se parte e chega. É se situar hipoteticamente no mundo, ou nos mundos, que a gente descobre no caminho (e descobrir que tudo na vida é hipótese). Se imaginar vivendo e se viver imaginando. Um trabalho a ser feito sem pressa e com muita disposição ao diálogo.
O sutil, muito das vezes, é uma projeção do que buscamos pra nós. É o que existe solto pelo mundo, pelas vivências e ocasiões, que só se enxerga nas situações de maré calma. Longe das filas de monumentos ou dos audio-guias de museus. Só se encontra em caminhadas aleatórias pelas ruas de um bairro residencial, ou na leitura despretenciosa de um livro em um banco qualquer. Talvez por isso, essas viagens se tornem um tanto uma aventura intra-si e não de circulação.
Enfim: Recomendo o blog dela tanto pra quem quer conhecer a Grécia quanto para quem quer só conhecer mais uma pessoa interessante.

(https://www.facebook.com/escribecuandollegues)

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Escorre uma lágrima Nerd

Parece estranho, mas essa viagem começou a ser planejada há cerca de 15 anos. Não nos guias de viagem, mas nos jogos de computador que me tomavam horas e horas da adolescência. Tomavam não, somavam.
Sempre tive hábitos meio nerds. Em vez de ser boleiro, fui um adolescente blogueiro. Em vez de entender tudo de carro, gastava meu tempo com livros de RPG. E no lugar de Street Fighter, meu game predileto era o Civilization, um jogo de estratégia em que sua missão é conquistar a estrela Alpha Centauro, sendo que pra isso, antes de mais nada, você tem que inventar… a roda.
Talvez o Civilization tenha me dado mais tesão de aprender história que qualquer professor do colégio. Lembro que ficava horas a fio (cheguei a passar de 12) sem comer ou qualquer contato com o mundo exterior, só movendo pedras no tabuleiro virtual, tentando entender qual a importância da descoberta da cerâmica para as descobertas tecnológicas subsequentes. E também como algumas construções especiais mudariam drasticamente o rumo do jogo.
Essa viagem foi um tour por algumas dessas maravilhas (ou Wonders, como põe o jogo). O Parthenon, a Capela Sistina, as Pirâmides e, hoje, encerrando o tour, a Hagia Sophia. Acho que foi a realização de um sonho de garoto nerd, desses de comemorar pra sempre. Viva Sid Meier!

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Encontrando um hobby

Por mais que se ame o que se faz “remuneradamente”, acho que todo mundo precisa de um hobby, algo que o faça ser mais que o seu trabalho, que sua vida civil. Tenho alguns, e um deles é fotografar. Comecei a fotografar graças a um estímulo da Camilla. Uma vez, não sei se quando descrevia alguma cena minimalista ou quando comentava das coisas lindas que via nas fotografias de alguns amigos, ela disse que eu tinha que pensar nisso com carinho, que eu sabia ver a beleza das coisas e que conseguiria transformar aquilo em boas imagens. Tomei aquilo como um estímulo e comprei minha primeira câmera mais ajeitadinha.

Hoje fotografar é como uma terapia, uma forma de relaxamento. É uma oportunidade que eu tenho de introspecção, de me desligar das outras coisas da vida e dedicar a algo que é “um fim em si mesmo”. Talvez por isso normalmente saio pra fotografar sozinho e mesmo acompanhado não tenho tanto prazer em fotografar como quando estou rodando por aí só eu e minha câmera. Também por isso não sei se viajo porque quero fotografar ou se fotografo porque quero viajar.

Por conta disso, nunca tive grandes pretensões com minha técnica. Uso recursos que pra alguns fotógrafos mais experientes são até meio bregas, batidos, mas isso não me importa muito. Não é uma arte, é um exercício. No fundo, é tudo questão de contemplar a beleza das coisas comuns, analisar e divagar sobre o a universalidade e a singularidade das coisas. Também sem grandes preocupações filosóficas: é só um relaxamento mesmo. Poesia barata.

Não recomendo a fotografia pra todos. Tenho certeza que muitos não conseguiriam relaxar fazendo o que eu faço: ficar parado por 20, 30 minutos, esperando um pássaro passar perto do sol, ou um casal trocar um olhar mais sincero… Mas acho, de verdade, que todo mundo precisa de algo para escapar. Não que o corriqueiro seja ruim: a vida só vale a pena quando o corriqueiro é bom. Mas a gente não pode se resumir ao dia-a-dia. Tricoteiro, cozinheiro, leitor, cinéfilo… o importante é que a gente merece ser mais do que se “é”.

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O Bairro Anarquista

No meu último dia na Grécia acabei dedicando umas horas a seguir as dicas de uma amiga viajante. Fui atrás de dois passeios um tanto mais fora do circuito, um deles no bairro de Exarchia. O bairro já era famoso, mas ganhou as manchetes em 2008, por ter sido o centro de uma série de protestos que tomaram conta de Athenas por conta do assassinato de um garoto pela polícia local.

É um bairro universitário, centro nevrálgico dos grupos de extrema esquerda da Grécia. As ruas são completamente cobertas de grafites e cartazes desses grupos, principalmente anarquistas, e o ambiente é um tanto hostil a quem não é do metiê. Eu mesmo, na noite em que fiquei perambulando pelas ruas de lá, passei por uma situação meio estranha.

A praça central do bairro tava lotada. Cerca de 200 pessoas espalhadas pela praça, mas um percentual maior concentrado em volta de uma fogueira no centro. Bêbados, cantavam e tocavam (mal e porcamente) violões. Uma meia dúzia de vendedores de drogas e um mercado consumidor imenso.

Quando me aproximei, um cachorro começou a me intimidar. Parecia ter sido mandado por um dos frequentadores da praça (sim, 200 pessoas lá, apenas pra mim ele latia). Somado aos olhares desconfortáveis, senti que eu (turista) não era muito bem quisto por ali. Fiquei pouco tempo e voltei pro apartamento. Deixei pra fazer as fotos no dia seguinte, com dia claro e ambiente menos hostil.

Curiosamente o bairro vive um processo de gentrificação. Essa cena convive com um número bem razoável de restaurantes e bares de alto padrão, e li que isso tem despertado algumas animosidades no bairro. Por outro lado, existem também alguns restaurantes bem peculiares por ali.

O bairro, no fundo, não é perigoso. Desde que saiba se comportar. Fica a dica pra quem for visitar Athenas.

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O restaurante Ita

Vocês devem conhecer aquele texto do Antônio Prata, “Meio intelectual, meio de esquerda”, onde ele descreve um bar perfeito, na visão de um hipster (antes to termo hipster ser mainstream). Pois bem, um dos lugarzinhos de São Paulo que mais encarnam o espírito daquele copo sujo, mas numa versão de restaurante, é o Ita, aqui no centrão. Ali pelas bandas do Largo Paysandu, numa rua deserta, entre uma gráfica de santinhos e um estacionamento, o seu João construiu um dos impérios “descolados” da cidade.

Sendo franco, a comida nem é grande coisa. Mas ainda assim a atmosfera faz dele um dos lugares mais bacanudos de São Paulo. Presença constante nessas listas de “portinhas escondidas” da capital. Tudo pela simpatia do dono, seu João, e dos atendentes de uma forma geral. Ontem, depois de um bocado de tentativas, finalmente consegui comer o famoso bacalhau deles.

O Restaurante é um apinhado de banquinhos em volta de um balcão. Nada de conforto pra bunda, mas um espetáculo pros olhos e ouvidos. Dono de um acervo de pequenas piadas de encher uma enciclopédia, é impossível sair do restaurante sem receber do seu João pelo menos uma. Aliás, chamar o seu João de seu João, o Davi de Davi, ou qualquer outro funcionário pelo nome, parece ser uma questão de status ali no Ita. Os frequentadores todos parecem querer exibir pros outros essa “intimidade” toda com o lugar.

Os cartazes na parede, que parecem ter sido desenhados em 1953 (ano de inauguração do lugar), anunciam comida barata, em fartos PFs. Mas se nada da parede te agrada, eles não se fazem de rogados para montar algo ao seu gosto. Assim, simples, porque sabem que a simplicidade é que tempera a comida do lugar.

No final, a conta vem desse jeito da foto: anotada à lápis, na pedra do balcão. Mais uma das piadinhas inocentes que o Seu João tem prazer de contar.

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