Fernando de Noronha. Dá pra ser barato?

A ideia desse texto não é explicar cada praia e passeio de Noronha. Tem muito relato na internet sobre isso. O que eu quero é tirar o medo das pessoas que acham que vão ter que vender um rim pra conhecer nosso destino mais cobiçado. Por isso, para cada uma das praias e passeios que eu citar, busca no google pra entender do que se trata.

Antes de mais nada, a resposta objetiva: Não vai ser barato. Noronha nunca foi um destino muito mochileiro e, apesar de as coisas estarem mudando, ainda é um tanto difícil fazer uma viagem “baratinha” pra lá.

Por outro lado, acho que é um destino verdadeiramente paradisíaco e que pode ser tão “barato” quanto outros menos interessantes que muitos amigos visitam, desde que você tenha certa dose de esperteza e aventura.

Hospedagem e alimentação

Pra começar, Noronha é cara nas hospedagens. Uma pousada comum pra casal, de média pra baixa qualidade, vai te custar o olho da cara (R$ 400,00 aproximadamente). Um jeito de driblar isso é se hospedar em um hostel, algo que até pouco tempo era inexistente na ilha. Fiquei hospedado na casa Swell, que cobram R$ 150,00 por diária (e também têm quartos privativos, um pouco mais caros que isso pra um casal). Continua não sendo exatamente barato, mas é um jeito realmente bom de economizar, por alguns motivos “ocultos”.

A alimentação em Noronha é bastante cara. Uma refeição comum normalmente gira em torno de R$ 80,00 a R$ 100,00 por pessoa. E ficar em um hostel te permite cozinhar o próprio rango, reduzindo bastante os gastos por lá. Outra alternativa pra não perder as calças comendo é recorrer aos vendedores de quentinhas. Percebi que muitos trabalhadores da ilha, por motivos óbvios, não recorrem aos caros restaurantes de lá. Por isso, há empresas que vendem “marmitas” de R$ 20,00 (e que servem duas pessoas controladas na fome). Infelizmente não peguei o contato de nenhuma dessas empresas, mas é fácil descobrir isso com os locais.

Outra vantagem do hostel é que fica muito fácil você conhecer outros turistas. Fazendo isso, você arranja companhia fácil pros passeios, o que aumenta a segurança de não recorrer aos guias, outro custo meio alto da ilha. Pra dar um exemplo, o passeio ao Morro de Fora custa R$ 80,00, mas é algo que pode facilmente ser feito sem guia, especialmente se você vai em um grupo de amigos.

Na frente da Casa Swell há um lugar pra comprar cerveja barata. Por R$ 3,50 era possível comprar uma lata de skol, o que é um achado na Ilha (preços médios são pelo menos o dobro disso). Há também, ali próximo, um mercado para se abastecer de coisas para cozinhar. Enfim, as alternativas de economia são muito boas nesse hostel.

Quanto à estrutura do Hostel, também fiquei bastante satisfeito. Um pequeno incidente (causado por mim mesmo e meu esquecimento) me fez achar que eu tinha sido furtado. Prontamente eles conseguiram acessar todas as câmeras de segurança, deixando claro que o lugar é seguro (como a ilha de modo geral).

Taxas e tickets

Alguns custos são impossíveis de escapar. A taxa de permanência na ilha é de aproximadamente R$ 70,00 por dia. Além disso, a maioria dos passeios legais implicam entrar no parque nacional. E para ingressar é necessário pagar um bilhete de cerca de R$ 100,00 (que vale por dez dias).

Passeios

O famoso “ilha tour” é, na minha opinião, um tanto dispensável. Não me acrescentou nada na viagem e eu poderia ter feito o mesmo trajeto com transporte público por uma fração ínfima do preço. O nosso roteiro foi: Sancho (praia e mirante); Leão; Sueste; Baía dos tubarões; Cacimba do Padre; e Mirante do Boldró. Todos estes lugares são de fácil acesso com o sistema de ônibus da Ilha, que custa R$ 5,00 (contra os R$ 150,00 do tour) e você ainda tem a vantagem de ficar o tempo que achar necessário em cada lugar.

O tour não é exatamente “corrido”. Acho que fiquei o tempo que queria em cada canto. Mas também há que se considerar que o mar não estava dos melhores, o que diminuiu os atrativos pra mim. Ou seja, talvez em condições ideais o passeio fosse um tanto corrido, como já vi alguns turistas reclamarem.

Por outro lado, entenda bem, eu gosto bastante de tours guiados. Acho que eles te enriquecem culturalmente e te ajudam a entender o que está rolando no lugar. Mas os guias que eu encontrei não eram dos melhores (e aparentemente, conversando com outros colegas, isso é bem comum). Se você quer economizar, saiba que não estará perdendo muito fazendo as coisas por si.

Uma das experiências mais fantásticas que tive na ilha foi ver o nascer do sol. Alguns pontos são especiais pra isso: A capela de São Pedro foi minha escolhida. Mas também ouvi relatos legais sobre o mirante dos golfinhos, já que os cardumes saltam por lá no nascer do sol.

Quanto ao por do sol, peguei dois bastante bons (nos outros dias, os “Eclipses nuviais” atrapalharam um pouco): Mirante do Boldró e Forte de Nossa Senhora dos Remédios. Também ouvi bons relatos do bar do meio (mas ficar por lá pode ser um tanto caro, por conta do bar).

Leve snorkel e pé de pato na mala e você economizará uns trocados com a locação. Há diversos passeios que te permitem fazer mergulho de snorquel, e a vida marinha lá é realmente linda.

Contas feitas

Na verdade, as pessoas dizem que o ideal seria ficar 15 dias em Noronha (e eu concordo com isso). Mas, enfrentando a realidade, se sua conta bancária não é tão gorda, isso pode ser meio proibitivo. Eu recomendaria uma estadia confortável de 5 dias por lá (leia-se, sem pressa, relaxando e curtindo). Um plano “barato” de visita à ilha seria:

  • Dia 1 – Nascer do sol na baía dos golfinhos, Sancho e por do sol no Forte dos Remédios
  • Dia 2 – Leão, Sueste, Morro de fora e por do sol no bar do meio
  • Dia 3 – Capela, Ponta do Air France, Buraco da Raquel
  • Dia 4 – Praia dos americanos e por do sol no Boldró
  • Dia 5 – Cacimba do padre e Baia dos Porcos

E isso pode ser combinado com as palestras do projeto Tamar, o forró do bar do meio, e as trilhas curtas que não precisam de guia.

Fazendo isso você vai gastar apenas o dinheiro do busão (uns R$ 15,00 por dia); entrada do parque nacional, taxa de permanência e hospedagem. Estamos falando de cerca de R$ 300,00 por dia, ou R$ 1.500,00 no total.

Extravagâncias

Claro que a viagem pode ficar gradativamente mais cara conforme você recorra aos “luxos” de Noronha. Um bom mergulho de cilindro vai te custar uns R$580,00. As trilhas especiais, com auxílio de guia, custarão cerca de R$ 100 a R$ 200,00 por dia. São coisas que, com certeza, vão enriquecer sua experiência. O passeio de barco ao redor da ilha custa R$ 180,00. Mas tenho certeza que seu espírito já vai voltar alegre se fizer as coisas “baratas” de lá.

Quando ir

Ao que apurei, a melhor época do ano pra ir começa em setembro e vai até o começo do ano, quando o clima fica mais tranquilo e com menos ondas (isso é primordial pra melhorar a qualidade dos mergulhos, de snorquel ou de cilindro). Nas outras épocas, a ilha fica ideal pra surfistas, por conta das ondas.

Passagens aéreas

Recentemente encontrei passagens aéreas de até R$ 1.000,00 partindo de São Paulo para Noronha. A partir de Recife, um bom preço é algo em torno de R$ 500,00. Gol e Azul voam diariamente pra lá, com vôos diretos de Natal e Recife.

Lençóis com orçamento curto

É possível montar a viagem pros lençóis com todo tipo de objetivo e orçamento. Desde as aventureiras travessias à pé (cerca de quatro dias) por todo o parque até as confortáveis estadias em Resorts próximos a Barreirinhas. Fugindo desses dois extremos, vou deixar aqui algumas recomendações interessantes pra quem quer curtir a experiência gastando relativamente pouco.

Se você é daqueles que raramente consegue uma brecha pra viajar (os amigos de escritório…), é possível fazer uma viagem de um fim de semana aos Lençóis. Inclusive foi isso que eu fiz, já que minha namorada não poderia ficar mais tempo. Mas o roteiro fica bastante puxado e talvez você tenha que pular um ou outro passeio.

Há vôos da Gol desde GRU que pousam em SLZ no meio da madrugada. A empresa GI Connect organiza transfers (em van) desde o aeroporto até Barreirinhas em um horário compatível com a chegada desse vôo. Ou seja, é possível sair de São Paulo as 10 da noite e estar antes das 7 da manhã já em Lençóis. Esse transporte custa R$ 60,00 cada trecho de Van, e um bom preço para transporte aéreo é cerca de R$ 500 a R$ 600,00, ida e volta. Pra quem tem milhas, a Gol costuma fazer promoções de vez em quando a 6 mil milhas o trecho. Outra opção de transporte terrestre até Barreirinhas é a viação Cisne Branco, com ônibus em horários específicos a cerca de R$ 55,00 por pessoa.

Uma vez em Barreirinhas, há alguns passeios diferentes pra escolher. Os mais clássicos são as visitas às rotas de lagoas, que custam cerca de R$ 60,00 por pessoa, e duram meio dia. Pechinchando, talvez você até consiga menos que isso. Outro passeio bastante procurado é a navegação pelo rio preguiças, que vai desde Barreirinhas até Atins, passando por alguns pontos famosos da região, com os pequenos lençóis e o farol do mandacaru, por cerca de R$ 70,00, em um passeio de dia inteiro.

A rota da Lagoa Bonita é um conjunto de lagoas de Lençóis que fica a aproximadamente 2h de trilha em 4×4 a partir de barreirinhas. Entre as lagos mais famosas, uma em que foi gravada cenas da novela O Clone e outra usada pela Record em “Os dez mandamentos”

Já para chegar à Rota da Lagoa Azul, o trajeto é um pouco mais curto (cerca de 40 minutos), mas as lagoas são, pra mim, um pouco menos bonitas. De todo modo, tem que se considerar também o horário do dia que se faz o passeio. Quanto mais cedo, mais azuis são as águas. Mas à tarde é bem confortável caminhar pelas dunas ou se banhar nas lagoas.

Atins é um povoado mais ao norte de Barreirinhas. Mais rústico e preservado, é um lugar para se ficar mais reservado. Por outro lado, a infraestrutura ali é precária, com pouco ou nenhum sinal de celular e, como aconteceu comigo, eventualmente sem energia elétrica. Lá conhecemos o sr. José Antônio (quem quiser, me pede o telefone inbox) que fez um passeio privativo de 6 horas conosco por R$ 70,00 por cabeça. Ele também nos disse que tem uma pequena pousada no meio dos lencóis, em Barra grande.

Aliás, por falar nisso, a hospedagem em Atins, na pousada da Tia Rita, custa R$ 50,00 por pessoa, e há quartos de casal ou coletivos pra até 4 pessoas. Em Barreirinhas é possível encontrar hospedagens com esse preço também. A comida por lá é razoavelmente barata. Restaurante bons cobram menos que um almoço por quilo em SP e a oferta de camarão e frutos do mar é alta. Uma dupla de restaurantes famosos fica no caminho ao passeio nas dunas (Dona Luzia e Seu Antônio. Ficamos com decepcionamos um pouco. A comida é boa, mas os comentários de internet nos deixaram esperando algo epifânico. Não é…).

As lagoas em Atins são menos azuis e mais verdes que as mais próximas a Barreirinhas. Isso porque a proximidade com o mar faz com que haja mais algas nas águas do norte, resultando na cor esverdeada.

Por fim, um opcional de luxo que vale muito a pena. Pesquisando e barganhando, é possível sobrevoar o parque de Lencóis por cerca de R$ 200,00 por pessoa, em aviões monomotores para até 3 pessoas. Foi a experiência mais incrível dessa viagem, valendo a pena todos os centavos gastos. Sigam a page deles: @Voelencoisma

Enfim, noves fora, é possível fazer uma viagem de 2 a 3 dias (feriadões) para o parque gastando cerca de R$ 800,00. Se esse valor não pode ser considerado exatamente barato, também não dá pra dizer que é injusto pra beleza do que a gente vê por aquelas bandas.

A melhor época do ano para visitar os Lençóis é o período imediatamente posterior ao fim das chuvas. Nessa hora, as lagoas estão cheias em seu ponto máximo e vão secando ao longo do ano.

As chuvas param por volta de maio, o que faz da viagem nessa época do ano um tanto quanto aleatória. Um pouco de azar e você vai ficar emburrecido com o céu nublado ou, pior, preso por conta das águas. Um tanto de sorte, vai ter as lagoas cheias e poucos turistas pra te azucrinar.

Entre Junho e Agosto as chuvas já acabaram e as lagoas estão bastante cheias. Resultado: hordas de turistas que talvez tirem um pouco do encantamento paradisíaco do lugar. Depois disso, as lagoas começam a secar e talvez você não veja a verdadeira beleza do lugar.

Maracatu Rural em Nazaré da Mata

Uma festa pelo povo e para o povo. A fantasia e a brincadeira dos cortadores de cana da Zona da Mata pernambucana foi a memória mais marcante de meu carnaval desse ano.

 

Escapando um pouco das ladeiras de Olinda, optei por dedicar um dia da viagem carnavalesca ao Pernambuco na cidade de Nazaré da Mata, coração fervente do baque solto, seus mestres de apito e coloridos personagens. Cerca de uma hora de estrada a partir do Recife, a cidade é um caldeirão fumegante de calor no meio da região canavieira. Ali se reúnem no carnaval algumas dezenas de grupos de maracatu rural, com seus brincantes que sofrem nos 40ºC pra celebrar suas tradições.

Já no caminho pela Zona da Mata uma cena me encheu de água os olhos. Na beira da estrada, debaixo de uma árvore, um caboclo de lança se vestia para a festa de frente ao canavial. Calçava a cabeleira, como que para testar os movimentos, e aquilo foi uma dessas cenas fantásticas que não cabe tempo de fotografar, mas que fica registrada por todo sempre na lembrança. 

O símbolo mais vistoso do Maracatu Rural é o Caboclo. Mas a festa, na verdade, é cafuza. Uma mistura de tradições indígenas com festejos negros, criada provavelmente nas senzalas da Zona da Mata pernambucana. Como tudo de tradição oral, é bem difícil encontrar informação precisa sobre as origens e personagens do cortejo. Alguns textos que li indicam, inclusive, que diversos daqueles que vi em Nazaré foram introduzidos nas últimas décadas, não fazendo parte da celebração original. 

De todo modo, o que vimos circulando na Sé de Nazaré da Mata foi uma festa de poesia sertaneja comandada por um Mestre de Apito (algo que lembra um repentista) que cantava versos próprios amarrados em um tema central. Cada grupo trazia seu mote, que ia de mensagens de apoio à Presidenta Dilma a uma retrospectiva dos grandes acidentes aéreos da história da aviação no Brasil (do Vôo da TAM à Chape). Uma salada geral, especialmente porque para cada 30 segundos de poesia se seguiam outros 60 de uma das danças mais frenéticas que já vi na vida.

E é aqui que entram os caboclos de lança. Eles são personagens de guerra que tem como função dançar em volta da banda protegendo os tocadores (e os outros personagens) dos ataques dos maracatus rivais. Dançam como que possuídos, agitando freneticamente a lança e circulando. E se a proteção física não é suficiente (eu tomei duas lançadas na cabeça fotografando… posso dizer que elas bastariam), eles também trazem a proteção espiritual em uma rosa na boca, além dos caboclos de pena, personagens responsáveis pela defesa sem armas. 

Ser um caboclo de lança é um ato de fé. Dançar sob aquele sol escaldante, coberto em roupas pesadíssimas, já seria por si um esforço sobrehumano. Para poupar energias, inclusive, recomenda-se que o caboclo não tenha contato (SEQUER ESPIRITUAL) com mulheres nos 15 dias que antecedem o carnaval. Pra que não lhe tome as energias. E além desse esforço no “dia D”, reza a tradição que o caboclo é o responsável pela confecção da sua própria gola, esse manto pesado que lhe cobre o corpo. 

Se somam no cortejo outros personagens, como a corte real, suas damas de honra, o Matias (espécie de abre alas do Maracatu), burra e o porta estandarte. Todos dançando em círculo na frente da Sé de Nazaré, ajoelhando para ouvir os versos do mestre de apito e pulando desembestadamente ao som da banda. 

Os maracatus variam mais de tamanho que de nome. Trazem, em regra, nomes de animais (águia, leão, carneiro…) com algum adjetivo esquisito (mimoso, curioso, altaneiro…). Já os tamanhos, esses são absolutamente heterogêneos. Desde alguns bastante pequenos (20 integrantes) até alguns que beiravam a centena. 

A atemporalidade bahiana

Eu estava aqui pensando na ligação metafísica entre o Axé da Bahia e o Egito. Parece loucura, mas os verdadeiros connoisseurs do Pelô sabem do que eu estou falando. Pra vocês que são newbies, vou citar alguns exemplos:

Margareth Meneses: Faraó Divindade Nagô
https://www.youtube.com/watch?v=qfP1xlgCVOI

Timbalada: Sou Faraó
https://www.youtube.com/watch?v=cSu2pSSnbWM

Gera Samba: Dança do Ventre
https://www.youtube.com/watch?v=e5v7mcsFCzE

E enquanto filosofava sobre a universalidade da arte contemporânea baiana, encontrei nos Hieroglifos do templo de Luxor essa relíquia importantíssima para se entender as origens do Axé. Trata-se da primeira representação da Dança da Cordinha!

 

O futebol faz dessas mágicas (ALL IN à brasileira)

Encostei no balcão do estadão pra disfarçar um pouco a fome e vi que estávamos no final da partida entre Santos e Palmeiras pela final do campeonato paulista de futebol. Poucos minutos antes, passei um tanto desatento por dois desses muitos mendigos que fazem do centro antigo seu home-office. O primeiro me pediu uma ajuda pra comer, que neguei desviando o olhar. O segundo, mais sincero, pediu dinheiro pra cachaça. Recusei por igual. Não sou um grande adepto da esmola (às vezes acho que por consciência, às vezes por avareza).

Ponto é que ali, em frente às peças de pernil e cercado pela gritaria de atendentes e chapeiros, vi o futebol fazer das suas malandragens. Do lado de fora do bar (menos por vontade e mais por imposição dos garçons) os mesmos dois mendigos viam a TV pela janela larga da lanchonete. Um palmeirense, outro santista, se provocavam aos gritos, como que para todos os clientes os notarem (e eles eram finalistas, tinham direito de ser notados).

O santista, orgulhoso, gritava que tinha nascido na Santa Casa de Santos, do lado do estádio da Portuguesa Santista, e que o santos era o maior amor da vida dele. O palmeirense, um pouco mais acanhado, limitava-se a mandar o santista calar a boca porque ele ia começar a chorar daqui a pouco.

Fato é que os dois fodidos de bolso são bem afortunados de paixão, e entre bravatas e xingamentos, acabaram por selar uma aposta. O Palmeirense, que tinha no bolso dez reais em mal dobradas notas de dois, cantou a aposta. O Santista, a princípio, fugiu da raia. Disse que só não apostava porque ele não tinha dez, só tinha quatro. O palmeirense, valente, fez a aposta leonina: Meus dez contra os seus quatro.

Sabe-se lá quanto tempo eles demoraram pra ganhar os seus trocados, nem o que o palmeirense vai ter que deixar de lado essa noite (ou o que o santista vai fazer com com o grande prêmio), mas não tem como deixar de ver poesia (triste ou não) no All In mais genuíno (e literal) que já vi na vida. Pra apostar tudo o que se tem na vida, tem que ter paixão.

Na foto, o Santista e o Palmeirense.

Pra quem nunca jogou Poker, All In é uma aposta agressiva, em que você arrisca todas as fichas que você tem acreditando nas suas cartas.

Gentileza gera gentileza

Todo mundo odeia telemarketing. Você odeia receber ligações inconvenientes no meio do dia. Eu odeio a ineficiência de alguns atendentes. Ele odeia o modo como o sistema é desenhado para não satisfazer a nossa necessidade. E, principalmente, eles odeiam o que fazem.

Não é pra menos. Quem tem a oportunidade de conhecer por dentro essa máquina de maldades, consegue ter um pouco de empatia com a Judite. Assédio moral dos supervisores. Restrições absurdas ao uso de banheiros. Condições de higiene ruins em refeitórios. E até você, amigo irritado, faz parte do inferno que é ser operador de telemarketing. É difícil mesmo ser simpático.

Mas no meio dessas pedras brutas, também surgem algumas flores. Do lado de casa tem uma empresa grande de Telemarketing. Na porta, o Seu Neves (foto) vende cafés, chás e bolos, a preços camaradas. Some-se a isso o fato de os atendentes não poderem fazer seus intervalos de descanso todos ao mesmo tempo (motivos óbvios), e nasceu ali uma prática das mais simpáticas.

O Roberto queria pagar um café pra Rosângela, mas não podiam fazer intervalo no mesmo horário. O que fez? Deixou um café pago e a Rosângela foi supreendida com seu nome na lousa: Tem um café pago pra você. Um correio elegante da cafeína.

A prática cresceu, virou moda, até que começaram a surgir os “Cafés de ninguém”. Você tomou um café e quer deixar um café pago pra outra pessoa? Não tem pra quem pagar um café? Deixe um café pago para um desconhecido. Tá sem um tostão no bolso e tá louco pra tomar um café? Passe no seu Neves e veja a lousa: Se estiver marcado ali um café compartilhado, você toma o seu de graça. De graça não, pela graça de outra pessoa.

Simples, simpático e animador.

Deixei um chá pago pra você. Passa lá.

A história da minha tatuagem, a Porta-Bandeira.

Ela está prestes a fazer oito anos e está sempre comigo, mas muitos nunca a viram. Minha filha, a tatuagem que tenho na perna, nunca tinha sido fotografada, até esse fim de semana. Achei que tava na hora de mostrar e contar a história dela por aqui.

Tatuagem pra mim não faz sentido se for por mera decoração. Tem de ser algo que te marque, que te signifique, e por isso levei cerca de um ano para decidir fazer minha porta bandeira.

A tatuagem é uma homenagem à beleza da dança da porta bandeira, uma figura que tem (ao lado do mestre sala) a função de proteger o símbolo maior da escola, o Pavilhão. Ambos, figuras de guerra, têm de cumprir sua função com raça e força. Ambos, figuras de dança, têm que cumprir sua função com sorriso e poesia. Esse aspecto de Raça e Poesia eu vi pela primeira vez em uma epifania, antes mesmo de entrar de cabeça nesse universo, quando vi a Adriana Gomes dançando na quadra do Mocidade Alegre. Não sabia quem ela era, nem o nome gigantesco que ela já tinha no Samba. Eu era um turista do Samba naquele tempo e fiquei arrebatado pelo jeito leve e vigoroso com que ela dançava. Esse é o primeiro significado da tatuagem: Raça e Poesia, a frase que trago escrita na tatuagem. Ou “Hay que endurecer pero sin perder la ternura”, certo?

Um tempo depois, quando resolvi me inscrever numa escola de bateria (minha porta de entrada nesse universo), conheci a Sara Regina. Ela estava começando, como eu, mas visando aquela que, pra mim, é a mais linda das funções: a de porta bandeira. Como ela tinha cerca de 8 anos, não foi bem a sua dança que me chamou a atenção naquele tempo. Isso viria a realmente me encher os olhos anos depois. Mas naquela hora o que me encantava era sua mãe, a Sandra Regina. A dedicação, a entrega e a projeção que eu via da mãe em relação à filha me fez marejar algumas vezes ao longo da vida. Um tanto por elas e um tanto por ver naquela devoção o mesmo carinho que me faz amar tanto a minha própria mãe: Uma pessoa que sempre se empenhou para me entregar todo o amor, compreensão e carinho, em todas as pequenas e grandes decisões da minha vida. E a figura da mãe é o segundo significado da minha tatuagem.

Além desses, há todos os outros significados mais laterais e até óbvios: Minha paixão pelo carnaval, minha ligação com a cultura popular, como isso me marcou quer durante a faculdade quer nas minhas decisões de vida da vida “adulta”, todas as pessoas admiráveis que encontrei nesse meio, quer exercendo a função maior, quer ocupando outras tantas posições nesse universo…

Enfim, essa é a história da minha primeira tatuagem. A segunda vem aí, assim que eu atingir uma meta de vida que tenho buscado: Conhecer um país para cada ano de vida que eu tiver. Tudo correndo bem, até o começo do ano que vem atingirei essa meta. Aí vem outra história, outra arte, outro desejo, e… quem sabe… outra fotografia.

Um cafezinho melhor que a comenda

Hoje de tarde os desembargadores do TRT entregaram comendas a pessoas de grande importância para a Justiça do Trabalho bandeirante. Eu imagino que isso signifique: Pessoas que contribuíram de forma decisiva para auxiliar na função maior dessa que alguns chamam de “justicinha”: garantir o cumprimento dos direitos sociais.

Pois bem, os agraciados são quase todos do alto clero. Mas um capítulo da lista chama bastante atenção. Os cavaleiros: Esses do povo, pessoas sem nobreza, que mesmo assim contribuem para esse grande mister. Aqui entram, por exemplo, os milhares de servidores do tribunal. Justo, justíssimo, vai pensar quem conhece minimamente os trâmites intestinais do tribunal.

Mas não é que a lista (miúda, 13 nomes) de cavaleiros inclui a ascensorista do elevador privativo, o chefe do setor de carros oficiais e o responsável pelo cafezinho dos desembargadores? À primeira vista, é fofinho… mas…

Com todo respeito à D. Gerusa (que deve ser uma pessoa excepcional, mas não a conheço pois o elevador privativo não atende os outros possíveis cavaleiros), homenagear a pessoa que poupa os dedos nobres dos desembargadores de apertar os botões do elevador em detrimento daqueles (qualquer deles) que se desdobram em salas de audiência e secretarias de turma… isso diz MUITO sobre como encaramos a justiça por essas bandas. Mais valem as prerrogativas que a função exercida.

O amor só vale livre – Ou a ponte das artes carioca

Acho que todo turista ocidental que te bateu perna por essas bandas já passou por algo parecido. Um asiático desconhecido que se aproxima e pergunta: posso tirar uma foto com você? O que pode parecer um golpe, é só encantamento com o diferente.

A gente tem muitas formas de dialogar com o esquisito: medo, preconceito, admiração, repulsa… e até transformar num troféu pra mostrar pros amigos. Não sei muito bem o que faz uma ou outra reação acontecer, mas tudo seria tão mais fácil se as pessoas sempre agissem com a doçura dessa criança (e principalmente do pai dele).

Já tinha acontecido uma vez em Taiwan. Um rapaz desceu do ônibus pra tirar uma foto com o ocidental de 1.88cm que tava andando na rua com cara de distraído. Aconteceu de novo na fronteira com a coreia e, agora, na muralha da China. Eu estava sentado, tomando uma cerveja, admirando a vista, ouvindo Chico César, e reparei que tinha um senhor um tanto encabulado, indo e voltando em círculos em em volta de onde eu estava.

Eu, que já achava graça daquilo, olhei e sorri: Nihao. Com mímica, ele pediu pra que eu tirasse uma foto com o filho dele. Respondi em inglês, porque sou tonto: Sure. E ainda ganhei essa foto de recordação de uma dessas muitas pequeninices que fazem as viagens valer qualquer perrengue.

O restaurante Ita

Vocês devem conhecer aquele texto do Antônio Prata, “Meio intelectual, meio de esquerda”, onde ele descreve um bar perfeito, na visão de um hipster (antes to termo hipster ser mainstream). Pois bem, um dos lugarzinhos de São Paulo que mais encarnam o espírito daquele copo sujo, mas numa versão de restaurante, é o Ita, aqui no centrão. Ali pelas bandas do Largo Paysandu, numa rua deserta, entre uma gráfica de santinhos e um estacionamento, o seu João construiu um dos impérios “descolados” da cidade.

Sendo franco, a comida nem é grande coisa. Mas ainda assim a atmosfera faz dele um dos lugares mais bacanudos de São Paulo. Presença constante nessas listas de “portinhas escondidas” da capital. Tudo pela simpatia do dono, seu João, e dos atendentes de uma forma geral. Ontem, depois de um bocado de tentativas, finalmente consegui comer o famoso bacalhau deles.

O Restaurante é um apinhado de banquinhos em volta de um balcão. Nada de conforto pra bunda, mas um espetáculo pros olhos e ouvidos. Dono de um acervo de pequenas piadas de encher uma enciclopédia, é impossível sair do restaurante sem receber do seu João pelo menos uma. Aliás, chamar o seu João de seu João, o Davi de Davi, ou qualquer outro funcionário pelo nome, parece ser uma questão de status ali no Ita. Os frequentadores todos parecem querer exibir pros outros essa “intimidade” toda com o lugar.

Os cartazes na parede, que parecem ter sido desenhados em 1953 (ano de inauguração do lugar), anunciam comida barata, em fartos PFs. Mas se nada da parede te agrada, eles não se fazem de rogados para montar algo ao seu gosto. Assim, simples, porque sabem que a simplicidade é que tempera a comida do lugar.

No final, a conta vem desse jeito da foto: anotada à lápis, na pedra do balcão. Mais uma das piadinhas inocentes que o Seu João tem prazer de contar.

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