O futebol faz dessas mágicas (ALL IN à brasileira)

Encostei no balcão do estadão pra disfarçar um pouco a fome e vi que estávamos no final da partida entre Santos e Palmeiras pela final do campeonato paulista de futebol. Poucos minutos antes, passei um tanto desatento por dois desses muitos mendigos que fazem do centro antigo seu home-office. O primeiro me pediu uma ajuda pra comer, que neguei desviando o olhar. O segundo, mais sincero, pediu dinheiro pra cachaça. Recusei por igual. Não sou um grande adepto da esmola (às vezes acho que por consciência, às vezes por avareza).

Ponto é que ali, em frente às peças de pernil e cercado pela gritaria de atendentes e chapeiros, vi o futebol fazer das suas malandragens. Do lado de fora do bar (menos por vontade e mais por imposição dos garçons) os mesmos dois mendigos viam a TV pela janela larga da lanchonete. Um palmeirense, outro santista, se provocavam aos gritos, como que para todos os clientes os notarem (e eles eram finalistas, tinham direito de ser notados).

O santista, orgulhoso, gritava que tinha nascido na Santa Casa de Santos, do lado do estádio da Portuguesa Santista, e que o santos era o maior amor da vida dele. O palmeirense, um pouco mais acanhado, limitava-se a mandar o santista calar a boca porque ele ia começar a chorar daqui a pouco.

Fato é que os dois fodidos de bolso são bem afortunados de paixão, e entre bravatas e xingamentos, acabaram por selar uma aposta. O Palmeirense, que tinha no bolso dez reais em mal dobradas notas de dois, cantou a aposta. O Santista, a princípio, fugiu da raia. Disse que só não apostava porque ele não tinha dez, só tinha quatro. O palmeirense, valente, fez a aposta leonina: Meus dez contra os seus quatro.

Sabe-se lá quanto tempo eles demoraram pra ganhar os seus trocados, nem o que o palmeirense vai ter que deixar de lado essa noite (ou o que o santista vai fazer com com o grande prêmio), mas não tem como deixar de ver poesia (triste ou não) no All In mais genuíno (e literal) que já vi na vida. Pra apostar tudo o que se tem na vida, tem que ter paixão.

Na foto, o Santista e o Palmeirense.

Pra quem nunca jogou Poker, All In é uma aposta agressiva, em que você arrisca todas as fichas que você tem acreditando nas suas cartas.

Gentileza gera gentileza

Todo mundo odeia telemarketing. Você odeia receber ligações inconvenientes no meio do dia. Eu odeio a ineficiência de alguns atendentes. Ele odeia o modo como o sistema é desenhado para não satisfazer a nossa necessidade. E, principalmente, eles odeiam o que fazem.

Não é pra menos. Quem tem a oportunidade de conhecer por dentro essa máquina de maldades, consegue ter um pouco de empatia com a Judite. Assédio moral dos supervisores. Restrições absurdas ao uso de banheiros. Condições de higiene ruins em refeitórios. E até você, amigo irritado, faz parte do inferno que é ser operador de telemarketing. É difícil mesmo ser simpático.

Mas no meio dessas pedras brutas, também surgem algumas flores. Do lado de casa tem uma empresa grande de Telemarketing. Na porta, o Seu Neves (foto) vende cafés, chás e bolos, a preços camaradas. Some-se a isso o fato de os atendentes não poderem fazer seus intervalos de descanso todos ao mesmo tempo (motivos óbvios), e nasceu ali uma prática das mais simpáticas.

O Roberto queria pagar um café pra Rosângela, mas não podiam fazer intervalo no mesmo horário. O que fez? Deixou um café pago e a Rosângela foi supreendida com seu nome na lousa: Tem um café pago pra você. Um correio elegante da cafeína.

A prática cresceu, virou moda, até que começaram a surgir os “Cafés de ninguém”. Você tomou um café e quer deixar um café pago pra outra pessoa? Não tem pra quem pagar um café? Deixe um café pago para um desconhecido. Tá sem um tostão no bolso e tá louco pra tomar um café? Passe no seu Neves e veja a lousa: Se estiver marcado ali um café compartilhado, você toma o seu de graça. De graça não, pela graça de outra pessoa.

Simples, simpático e animador.

Deixei um chá pago pra você. Passa lá.

Um cafezinho melhor que a comenda

Hoje de tarde os desembargadores do TRT entregaram comendas a pessoas de grande importância para a Justiça do Trabalho bandeirante. Eu imagino que isso signifique: Pessoas que contribuíram de forma decisiva para auxiliar na função maior dessa que alguns chamam de “justicinha”: garantir o cumprimento dos direitos sociais.

Pois bem, os agraciados são quase todos do alto clero. Mas um capítulo da lista chama bastante atenção. Os cavaleiros: Esses do povo, pessoas sem nobreza, que mesmo assim contribuem para esse grande mister. Aqui entram, por exemplo, os milhares de servidores do tribunal. Justo, justíssimo, vai pensar quem conhece minimamente os trâmites intestinais do tribunal.

Mas não é que a lista (miúda, 13 nomes) de cavaleiros inclui a ascensorista do elevador privativo, o chefe do setor de carros oficiais e o responsável pelo cafezinho dos desembargadores? À primeira vista, é fofinho… mas…

Com todo respeito à D. Gerusa (que deve ser uma pessoa excepcional, mas não a conheço pois o elevador privativo não atende os outros possíveis cavaleiros), homenagear a pessoa que poupa os dedos nobres dos desembargadores de apertar os botões do elevador em detrimento daqueles (qualquer deles) que se desdobram em salas de audiência e secretarias de turma… isso diz MUITO sobre como encaramos a justiça por essas bandas. Mais valem as prerrogativas que a função exercida.

O restaurante Ita

Vocês devem conhecer aquele texto do Antônio Prata, “Meio intelectual, meio de esquerda”, onde ele descreve um bar perfeito, na visão de um hipster (antes to termo hipster ser mainstream). Pois bem, um dos lugarzinhos de São Paulo que mais encarnam o espírito daquele copo sujo, mas numa versão de restaurante, é o Ita, aqui no centrão. Ali pelas bandas do Largo Paysandu, numa rua deserta, entre uma gráfica de santinhos e um estacionamento, o seu João construiu um dos impérios “descolados” da cidade.

Sendo franco, a comida nem é grande coisa. Mas ainda assim a atmosfera faz dele um dos lugares mais bacanudos de São Paulo. Presença constante nessas listas de “portinhas escondidas” da capital. Tudo pela simpatia do dono, seu João, e dos atendentes de uma forma geral. Ontem, depois de um bocado de tentativas, finalmente consegui comer o famoso bacalhau deles.

O Restaurante é um apinhado de banquinhos em volta de um balcão. Nada de conforto pra bunda, mas um espetáculo pros olhos e ouvidos. Dono de um acervo de pequenas piadas de encher uma enciclopédia, é impossível sair do restaurante sem receber do seu João pelo menos uma. Aliás, chamar o seu João de seu João, o Davi de Davi, ou qualquer outro funcionário pelo nome, parece ser uma questão de status ali no Ita. Os frequentadores todos parecem querer exibir pros outros essa “intimidade” toda com o lugar.

Os cartazes na parede, que parecem ter sido desenhados em 1953 (ano de inauguração do lugar), anunciam comida barata, em fartos PFs. Mas se nada da parede te agrada, eles não se fazem de rogados para montar algo ao seu gosto. Assim, simples, porque sabem que a simplicidade é que tempera a comida do lugar.

No final, a conta vem desse jeito da foto: anotada à lápis, na pedra do balcão. Mais uma das piadinhas inocentes que o Seu João tem prazer de contar.

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Repost: Meritocracia

Repost do período eleitoral, mas sobre um assunto que sempre vai e vem.

Meritocracia (15 de Outubro de 2014)

Trabalho desde os 13 anos. No primeiro ano do colegial, fui forçado a estudar à noite em uma escola particular da periferia que era uma bela porcaria. Pra ter alguma chance de entrar na Universidade Pública (um sonho), topei repetir o primeiro colegial para poder estudar numa escola pública de melhor qualidade no centro. Para isso, passei em um concurso de seleção bastante concorrido, para o qual estudava horas e horas por dia enquanto trabalhava numa loja. Voltei a estudar de manhã, mas continuei trabalhando em uma empresa de web design.

Com um bocado de esforço, no terceiro colegial equilibrei todos os pratos ao mesmo tempo: Trabalhava, estudava no colégio e fazia cursinho. Deu certo, passei na USP pela primeira vez. Somadas as dificuldades geográficas da Cidade Universitária, com meu desencanto com o curso, desisti e resolvi prestar vestibular mais uma vez. Passei em Direito na USP e em um concurso da Caixa Econômica Federal.

Continuei trabalhando e estudando, tanto para a faculdade quanto para um concurso público melhor. Fui aprovado no Tribunal de Justiça de São Paulo e, mais tarde, no Tribunal Regional do Trabalho (onde estou até hoje e pretendo, até segunda ordem, me aposentar daqui a muitos e muitos anos). Comparado com a média brasileira, acho que eu sou um bom exemplo de um cara que, por mérito próprio, conseguiu encontrar seu lugar na sombra.

Pois é… mas durante metade do trajeto (no Colégio público, na Caixa, no Tribunal de Justiça, Nas duas faculdades que fiz na USP e agora no TRT) encontrei pessoas que não precisaram se esforçar tanto quanto eu me esforcei para estar onde estão. Alguns, inclusive, acho que não mereciam nada estar ali. E, MUITO PIOR que isso. Na outra metade (nos cursinhos, nas bibliotecas em que fiquei estudando, nas salas de provas), sempre estive cercado de pessoas brilhantes, que se esforçaram muito mais que eu, MUITO MAIS que as pessoas que estudaram/trabalharam comigo, mas que não conseguiram atingir os mesmos objetivos. Porque mesmo tendo que trabalhar, eu sempre fui um privilegiado.

Ter trabalhado foi mais uma questão cultural do que necessidade. Objetivamente, nunca me faltou nada e sempre que precisei de apoio financeiro para complementar meus estudos com cursos, boa alimentação, lazer e todas as outras coisas que também são decisivas no sucesso desse tipo de desafio, meus pais sempre estiveram lá pra me ajudar. Pra grande maioria das pessoas isso não existiu, e isso é prova de que não tive mais mérito que ninguém.

Não existe mérito numa sociedade desigual. Não existe efetiva igualdade numa sociedade capitalista. E como acho o capitalismo irreversível, o jeito é lutar para diminuir a desigualdade tanto quanto possível. Se esconder atrás da meritocracia é um argumento mesquinho de quem se descolou completamente da realidade da vida.

Exposição: A pedra da lua
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Centro de Cultura Judaica
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Vale do Anhangabaú
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Centro Velho
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